Tiros a esmo dentro de uma casa no bairro Mercês, em Curitiba, fizeram com que o idoso Luiz Carlos Siqueira Campos, de 74 anos, terminasse a noite de segunda-feira (7) sob a mira de snipers. Em surto psicótico, o pacato professor particular de francês que costuma passear na quadra com o apoio de uma bengala disparou cerca de 60 tiros de dentro da residência – onde também estavam a mãe de 99 anos e a cuidadora da idosa. Foi contido após cinco horas de cerco, depois de cair da janela tentando se livrar do ar carregado pelas bombas de gás lacrimogêneo usadas pela Polícia Militar (PM) para contê-lo.

+Caçadores! Cafeteria de Curitiba propõe que clientes escolham quanto pagar pelo café!

Nas redondezas da casa onde tudo aconteceu, no trecho da Rua Martim Afonso entre as ruas Visconde de Nácar e Visconde do Rio Branco, o assunto não poderia ser outro na manhã desta terça (8). Ainda abalados por causa dos disparos – feitos primeiro dentro do imóvel e, depois, em direção ao lado de fora –, moradores seguiam se questionando sobre os motivos que teriam levado o homem a perder o controle e provocar horas a fio de pânico. Nem a polícia ainda sabe ao certo.

Vizinhos também foram pegos de surpresa ao descobrir o pequeno arsenal mantido em um dos quartos do piso superior do imóvel e isolado com habilidade por barricadas e grades. “Primeiro que a gente nem sabia que ele tinha arma em casa. Depois, quando começaram os tiros, a gente ouvia um, depois outro de barulho diferente e outro, até se dar conta que ele não tinha apenas uma arma”, comentou uma moradora que acompanhou tudo da janela de trás de seu apartamento, a alguns metros dali.

O Serviço de Fiscalização de Produtos Controlados da 5ª Região Militar do Exército, que fiscaliza equipamentos de uso controlado no Paraná e em Santa Catarina, informou nesta terça que Campos teve quatro armas para uso desportivo cadastradas em seu nome até março de 2006. Os registros não foram renovados e o vínculo do armamento passou a ser com o Sistema Nacional de Armas da Polícia Federal. No entanto, a varredura feita pela PM na residência só encontrou três das quatro armas: uma espingarda de calibre 12; uma carabina de calibre 38 e um revólver de calibre 38.

Fora um colete balístico e cartuchos intactos, uma máquina de recarga de munições também foi levada pelos policiais. Os disparos feitos pelo idoso atingiram em cheio a parede de um dos apartamentos do prédio vizinho, que, por sorte, já tinha sido esvaziado. Carros da garagem do condomínio também não escaparam.

Foto: Lineu Filho / Tribuna do Paraná.
Foto: Lineu Filho / Tribuna do Paraná.

À PM, familiares contaram que o idoso teve breve passagem pelo Exército, devido ao Serviço Militar Obrigatório, mas não chegou a seguir carreira nas Forças Armadas. Também não teria passado pela Polícia Militar, nem pelo Corpo de Bombeiros.

O dono de um estabelecimento do qual o professor era cliente custou a acreditar que o atirador fosse o mesmo homem que conhece há anos – disse que Campos nasceu e cresceu na casa das Mercês. Reservado, gosta de ir à igreja e ri com uma ou outra piada.

E, ao que parece, também se satisfazia em passar tempo mexendo na sua pequena coleção. “O nosso ponto crítico, que era onde ele estava, era uma área confinada no andar superior. Era uma área fortificada para prevenir furto ou roubo do material que ele possuía. Tudo indica que ele passava um bom tempo ali com esse material”, observou o capitão Cézar Hoinatski, chefe do Comandos e Operações Especiais (COE) da PM, que esteve à frente das negociações com o idoso na noite desta segunda.

Surto

Mesmo com saídas esporádicas, vizinhos com mais convivência notaram que o professor estava há pelo menos dez dias recluso, alegando uma suposta perseguição. Internado no Hospital Universitário Evangélico Mackenzie desde que foi contido, o idoso está sob acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Chegou confuso ao hospital, onde voltou a falar que estava sendo perseguido. Com a queda da janela do quarto, a uma altura aproximada de 4 metros, sofreu ferimentos na cabeça e no ombro esquerdo, mas seu quadro é estável.

Foi durante as negociações que o capitão Hoinatski entendeu que Campos estava em surto. A percepção foi essencial para traçar uma nova estratégia de aproximação e evitar uma tragédia. “Inicialmente, a gente não conseguia entender porque ele não respondia. Mas depois da tentativa de estabelecer contato, vendo que ele não fazia nenhuma manifestação, não estabelecia nenhum vínculo, vimos que ele era emocionalmente perturbado. Naquele momento descartamos a chance de negociar e houve a tentativa do uso não letal”, contou o capitão.

Se condenado por disparo de arma de fogo, como pode ser indiciado pela Polícia Civil, Campos pode pegar até 4 anos de prisão.

Foto: Lineu Filho / Tribuna do Paraná.
Foto: Lineu Filho / Tribuna do Paraná.

Status “relacionamento sério” motiva crime brutal na Grande Curitiba