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“Mulher não deve ficar onde sofre violência”: Dom Peruzzo rompe tabus em entrevista sobre os 100 anos da Arquidiocese

Arcebispo de Curitiba Dom José Antônio Peruzzo.
Arcebispo de Curitiba Dom José Antônio Peruzzo. Foto: Lucas Eidam - Arquidiocese de Curitiba

Com um século de história completado em Curitiba, a Arquidiocese da capital paranaense se vê no centro de debates que extrapolam os limites dos templos: da polarização política à crise contemporânea de saúde mental, passando pelas feridas da violência doméstica e pelo avanço do individualismo nas cidades de clima e comportamento historicamente tidos como reservados.

À frente do rebanho católico da capital desde 2015, Dom José Antônio Peruzzo adota um tom analítico, direto e sem rodeios para examinar o papel da fé na sociedade atual. Nesta entrevista exclusiva à Tribuna do Paraná, o arcebispo aborda temas espinhosos da instituição. Ele reafirma a orientação para que mulheres vítimas de violência denunciem e não permaneçam sob abuso, justifica o veto rígido ao uso das igrejas como palanque partidário, citando os episódios envolvendo os nomes dos ex-presidentes Lula e Jair Bolsonaro, e analisa as omissões históricas e os desafios de uma Igreja que busca ir ao encontro do povo.

Confira a entrevista

Tribuna: Com relação a sua autoridade, o que um arcebispo faz dentro da arquidiocese como a de Curitiba?  

Dom Peruzzo: Fundamentalmente, a responsabilidade do bispo é responder pastoralmente. A relação do pastor com as ovelhas sempre foi uma ilustração bastante evocativa. As ovelhas, na antiguidade, eram animais que por si só não sabiam chegar às nascentes de água. Tinham que ser levadas. Por si só não conseguiam encontrar pastagens. Se tiver um pastor bom, o rebanho permanece e cresce. Se o pastor não se interessar, também o rebanho se vai. É daí que veio essa dimensão pastoral de ser bispo. As ovelhas precisam de água de pastagem e de proteção e estão sob constantes ameaças, quer de lobos, quer de ladrões. Sobre este aspecto ao longo da história, então nessa imagem, foi cultivada, foi preservada, cultivada e adaptada.

Hoje, o bispo tem a responsabilidade de ajudar o povo, que crê em Jesus Cristo, a não se distanciar dele, como a ovelha não pode se distanciar da pastagem e não pode se distanciar das nascentes. Isso sob o aspecto pastoral. Sob o aspecto organizacional, aí não se pode uma instituição do porte da Igreja não ter organização, não ter estrutura, não ter referenciais que garantam não a mera institucionalidade, mas que no diálogo com a multiplicidade e pluralidade das situações e dos contextos, alguém precisa falar em nome da igreja. Alguém precisa reger tudo isso, ter a palavra última.

Como numa sociedade civil tem todas as organizações, as empresas, as instituições políticas, democráticas, mas para que a democracia se preserve, os encarregados de preservá-la têm um espaço de atuação e de responsabilidade que é requerido sob pena de pôr a perder uma história inteira de muitas realizações de convívio e de construção social. Também isso toca ao bispo fazer no cuidado da Igreja, enquanto instituição presente na história e na sociedade e participando dela. Alguém tem que responder por tudo isso. E do ponto de vista interno da Igreja, daí não tanto como missão, mas assim como tem essa responsabilidade no diálogo com uma sociedade também para dentro da Igreja. O bispo tem seus superiores aos quais deve obediência, lealdade e com os quais precisa caminhar. Segundo a fé que professamos, a Igreja não é do bispo. Como o clube não é do presidente do clube, como o estado brasileiro não pertence ao presidente. Então, dentro dessa organização interna da Igreja, o bispo precisa cuidar de um povo e prestar contas a um superior a quem, por compromisso de fé, obrigou-se a atuar em comunhão. Você vai ter que escrever bastante. 

Tribuna: Vou, mas eu estou acostumada. A arquidiocese completou 100 anos agora esse ano. Olhando para esse século de história, qual foi o maior legado que a igreja deixou para a formação cultural e social aqui de Curitiba? 

Dom Peruzzo: É difícil dizer o maior porque houve muitos maiores. É quase como perguntar se numa casa é mais importante a sala, ou a cozinha ou o quarto. Se faltar um, é difícil que os outros possam ser usados na sua devida finalidade. Os primeiros portugueses que vieram desde Paranaguá, subiram a serra, vieram ao planalto, a imagem de Nossa Senhora da Luz veio com eles. O cotidiano destes que chegaram por primeiro esteve profundamente marcado pela identidade, o modo cristão de ser religioso. Já foi algo constitutivo dos primeiros dias de Curitiba. Depois começaram os povoados, o povoado começou a crescer, outros surgiram Mas sempre que cresceu o reconhecimento da vila, que depois se tornou cidade, estava presente a Igreja, quer com um templo, quer com um pároco ou vários párocos, com funções de liderança. Vamos falar assim, um patrimônio não material. Vamos mais. Além desse patrimônio imaterial, depois também instituições.

Olha a história dos colégios católicos aqui em Curitiba. Quanto curitibano foi formado aqui. Quantos! Vamos falar do hospital mais antigo que temos aqui, a Santa Casa. A Igreja esteve diretamente na história da formação deste primeiro hospital. E por longas décadas esteve participando, mas depois desde o primeiro hospital, outros hospitais ainda estão aqui a prestar serviços com a identidade católica e motivados por razões de fé. Podemos falar das escolas e dos colégios. A universidade católica hoje, mas agora também a faculdade Bom Jesus. Além disso, sem querer dizer este ou aquele é o maior, uma identidade curitibana bem própria construiu esta cidade. Não só, Curitiba não seria como é hoje se a Igreja não tivesse participado ontem desses caminhos. Hoje o pluralismo é muito maior, é imenso. E é justo que seja assim para que todos os curitibanos, nas suas mais diversas expressões, possam encontrar aqui um lar e um lugar. A Igreja ainda é uma presença forte em Curitiba. Então, o maior há vários maiores. 

Tribuna: O centenário também é uma celebração, mas imagino que também seja um diagnóstico. Onde a igreja de Curitiba errou ao longo da trajetória e o que precisa corrigir para os próximos 100 anos? 

Dom Peruzzo: Falar de erros dos outros sem ter estado lá, para compreender os motivos pelos quais esta ou aquela decisão foi tomada, partindo apenas de informações, seria um julgamento. Eu não quero fazer isso, não seria uma atitude correta de minha parte. Não quero aqui corrigir o passado porque eu não tenho alcance até lá. Talvez, se se quisesse, porém, alguma coisa que poderia ter outra história, seriam algumas decisões de caráter administrativo. Mas não estou corrigindo os outros e nem criticando. No passado, todos precisavam muito de todos. Então a proximidade, a reciprocidade e a colaboração, a consciência comunitária era mais espontânea, inclusive, porque um precisava muito de os outros e todos necessitavam da proximidade, da lealdade, do senso comunitário.

Nas últimas décadas, no mundo ocidental, prevaleceu uma espécie de subjetividade viciada. Se antes não havia muito espaço para a individualidade, agora existe. Parece que a grande verdade absoluta é o que eu prefiro, o que eu gosto, a minha escolha, a minha subjetividade. Veja, antigamente as empresas familiares eram muito mais onerosas que hoje e trabalhavam juntos, todos eles, por 10, 20, 30, 50, 80 anos. Hoje, em pouco tempo surgem rupturas por motivos fortuitos. Também a consciência de vida familiar, os matrimônios, vão até que um decidiu não mais continuar como se se tratasse de uma escolha de um novo produto. A coesão familiar tinha muito mais laços muito mais laços e muito mais vínculos interpessoais. Então isso não é um problema só da igreja, é da sociedade. Mas talvez a Igreja não tenha sabido sair dos templos para ir até onde as pessoas estavam. Aguardou ficou muito tempo dentro do templo, aguardando que viéssemos que dela precisava. A Igreja, como um todo, percebe hoje que os caminhos deveriam ter sido este. Papa Francisco falava de uma Igreja em saída, não desfazendo do templo, do culto, da liturgia. A vida familiar não se restringe ao ambiente do lar. O pai é pai fora de casa, é marido em casa e fora dela e assim todos. O cristão é cristão dentro do templo e fora dele, mas facilmente confinamos a evangelização ao templo e ao edifício religioso. Agora, tentando superar isso, é impressionante o elevado número de pessoas que abandonaram o catolicismo e estão pedindo para voltar. 

Tribuna: A sociedade curitibana costuma ser vista como reservada e até individualista. A fé praticada na capital, ela reflete esse perfil? 

Dom Peruzzo: Para falar de Curitiba, eu gostaria de me referir a partir de algumas referências fora de Curitiba. Fala-se que o povo suíço é muito frio, que o povo alemão é frio. É mais comum que as sociedades de origem saxônica são mais racionais, menos afetuosas, menos comunicativas e também mais frias. Então, assim se fala também de Curitiba. Muitas vezes se fala, não sempre. Agora eu falo de inverno, todas as sociedades nas quais há maior prevalência de um clima mais frio, gélido, isso também aparece no comportamento das pessoas. Quem vai à Bolívia, por exemplo, os bolivianos da planície, com uma altitude maior, tem um comportamento muito mais expansivo. Quem vive no alto dos Andes, o ar mais rarrefeito e muito mais frio, as pessoas são muito mais introvertidas, introspectivas e menos espontâneas. Não é só o clima que favorece, mas também estilos de vida. Todavia, e agora aqui em Curitiba também, eu ouvi isso, e às vezes percebo, um exemplo, no trânsito, se a gente dirige em São Paulo, é muito mais espontâneo um ceder o espaço para o outro. Aqui em Curitiba é menos. E quando cede lá, a saudação de gratidão também é muito mais frequente que aqui. Entretanto, o povo de Curitiba, quando confia e quando se afeiçoa, afeiçoa-se mais do que em outros lugares. Os de fora que vem morar em Curitiba dizem que é um povo frio, mas os de fora que moram em Curitiba depois não querem mais sair daqui porque descobrem traços de convívio, de proximidade, na qual a tal da frieza na realidade é apenas um modo de se expressar. Mas há muita afeição esperando a hora para se manifestar. É mais ou menos isso que eu vejo por aqui.

Tribuna: Dom Peruzzo, eu acho que um assunto muito atual e pertinente é com relação as epidemias que a gente vive: de depressão, ansiedade, solidão. Como a igreja pode ser um espaço de cura e acolhimento para quem perdeu o sentido da vida? 

Dom Peruzzo: Meu Deus do céu, que pergunta. Muito inteligente e também muito complexa. Os países escandinavos têm um nível de vida muito elevado e uma solidão imensa. Os níveis de suicídio na Alemanha, mas vamos falar também do Japão, é impressionante. Vamos mais: depressão, burnout, solidão, cansaço, sociedade do cansaço. Parece uma civilização em permanente estado de agonia. Não é uma crise de momento, é uma crise de uma época. Começou num passado distante e está orientada a um futuro longo, se mantiverem estes mesmos modos de convívio. Valorizar a individualidade de cada pessoa é necessário e a singularidade, porque sem isso nenhuma pessoa se encontra, anula-se. Agora, exacerbar o individualismo esvazia a capacidade das pessoas de amar. Não falo aqui de amar só no sentido religioso, de querer bem a alguém. Não é apenas e tão somente sentir emoções e afetos. Isso também pode passar necessárias as emoções e os afetos, mas para renovar experiências de gratuidade. Querer ajudar a construir o outro faz bem a quem ajuda. Quem constrói o outro na realidade, não apenas constrói o outro, constrói-se enquanto se mantiver.

Esse individualismo é individualidade, individualismo não é individualidade. O homem é um animal social, por animal social, poderíamos aqui fazer um enunciado antropológico básico. Mas as experiências de convívio e gratuidade não estão usando a linguagem religiosa. Vamos falar de comunhão, de entrega, de reciprocidade que constrói a pessoa e busca ainda a transcendência para projetar luzes ainda mais profundas e ricas de significado para o sentido da vida que você perguntou. Viktor Frankl, o grande homem da Segunda Guerra Mundial, psiquiatra, discordando de Freud – que dizia que a grande necessidade humana é a necessidade de prazer e de maneira mais destacada o prazer sexual – dizia que o sentido para a vida para qualquer homem, qualquer mulher, é o convívio que gera gratuidade. Ele passou anos em campo de concentração se perguntando sobre o que a vida poderia oferecer naquele inferno, aí a vontade de sentido em vez da vontade de prazer.

Posso viver e reconhecer-me no outro e o outro pode se reconhecer em mim. Martin Buber falou de eu e tu, o encontro, e depois falou da presença. Há toda uma maturação filosófica e teológica para dar uma, para dizer que o anseio humano de experiência de gratuidade. Se não encontrar uma resposta [para o sentido da vida], a vida fica vazia. Não há sentido. A dor se torna uma tortura. E não apenas a percepção do próprio limite. Para superar o limite, eu preciso da comunhão com os outros. Até a dor pode receber sentido quando existe amor. Nenhuma mãe se arrepende de ter tido a sua criança por mais doloroso que tenha sido o parto. É dor e amor e aí há uma espécie de transfiguração até mesmo da dor. Ou de uma mãe ou de um pai que levanta de madrugada para cuidar da sua criança que não dorme. Mas em todas as outras áreas do convívio, então é sentido. Saber amar e saber sofrer. Hoje, muita gente se perde no vazio porque não sabe nem mesmo sofrer. Dá para dizer isso. Não há nenhum gosto, nenhum prazer na dor. Mas quando não se sabe lutar por uma causa, também não se sabe sofrer. Não se sabe dar sentido ao sofrimento e aí o desespero chega como expressão quase natural. 

Tribuna: Bom, durante muito tempo a violência doméstica foi tratada como assunto de quatro paredes. Qual é a orientação clara da Igreja hoje para mulheres vítimas de agressão em relação à denúncia e ao papel do sacerdote na proteção da vítima? 

Dom Peruzzo: A violência é um crime. Todo crime tem que ser tratado como um ato criminoso. Mas é verdade que a violência contra a mulher não é só quando alguém bate nela ou quando ela recebe atos de violência de qualquer tipo ou quando há assassinatos de mulheres. É violentar a dignidade feminina quando se faz a mulher um objeto de consumo.

O mundo capitalista, muito dado a consumos, faz de um elemento central da identidade pessoal a sexualidade humana. Isso também é uma violência à dignidade da pessoa. O homem, quando faz da mulher ou da feminilidade um objeto de consumo, faz também dela um consumo a ser descartado. A violência não começou recentemente. Ela foi planejada ao longo da história no mundo ocidental, na medida em que forjou uma cultura de consumo da própria feminilidade numa espécie de masculinidade tiranizadora. É antiga a violência. Na medida enquanto não se souber salvaguardar e promover a dignidade feminina, haverá maior coerção para quem quer ser violento. A temática da violência permanecerá latente sempre. A Igreja, os padres, agora menos no episcopado, porque as pessoas não procuram tanto para confidências. Eu lembro quando eu atuava como padre, era todos os dias violência nesse sentido mais imediato, de bater, de causar dor, de ferir, de machucar. Mas o que eu diria? As mulheres que sofrem violência e que apanham, não esconda. Esconder, ocultar, é uma maneira de atenuar, esconder um problema, não resolver e, por, no sentido inverso, proteger o agressor.

Nenhum homem foi chamado à vida para ser violento. Mas veja, não é só violência contra a mulher, é violência contra as crianças, contra os idosos. Eu cuido da pastoral da pessoa idosa em âmbito nacional. São muitos idosos que estão sendo violentados, às vezes com surras, com pancadas, com golpes, outras vezes privados da sua aposentadoria, porque os outros o usam. Existe a violência explícita e a violência oculta, mas muito destruidora. Quanto mais o homem se afasta da pessoa humana, se afasta de si mesmo. Bate, golpeia, arma-se contra os outros. É uma forma, é um desdobramento doméstico de um problema civilizacional.

Tribuna: O sacramento do matrimônio prega a indissolubilidade do casamento. Em cenários de violência física ou psicológica, a separação é formalmente recomendada pela Igreja? 

Dom Peruzzo: O matrimônio é união indissolúvel. União, unidade. Essa palavra quase sempre associamos com proximidades físicas. Ou então com conceitos, mesmas ideias, mesmos pensamentos, numa linguagem mais abstrata. No caso do sacramento do matrimônio, é para as pessoas viverem em comunhão. Até no casamento, tornou-se um traço cultural, ele põe um anel, uma aliança na mão dela. De agora em diante serei seu aliado. Daí a palavra aliança. E ela põe a aliança na mão dele. De agora em diante serei sua aliada, não aliado contra outros. Na minha vida, eu a viverei em vínculos com você. Todavia, na medida em que se banalizaram os afetos, não é possível uma união matrimonial sem que haja ele como constitutivo central a afeição, o encanto, a reconciliação, a paz. E isso não brota espontaneamente, como é natural para a água correr para baixo. É algo que se constrói, que se renova, que se vive e se retoma. As amizades também são assim. Há casos em que não houve consciência de que um estava se comprometendo com o outro. Prometeu o que não era capaz. Então esse matrimônio não foi celebrado, ele não existiu. E a pessoa, por exemplo, que sofre violência, não está obrigada a ficar com o marido ou com a esposa. Está desautorizado um novo matrimônio, porque diante de Deus assumiu este compromisso. Todavia, se querendo cumpri-lo, não houve condições reais por motivos de todo tipo. Mas você perguntou sobre há casos em que é um mal menor, sim, separar-se. E eu dificilmente recomendei isso, mas houve casos em que, para salvaguardar pessoas e não tornar um inferno a vida da mulher, do homem ou dos filhos, o mal menor era que aquela fonte de mal para a vida familiar estivesse fora, distanciada. Não é que, se diz, você agora está num estado de pecado por ter feito isso. Há situações em que o limite humano impõe-se ou a maldade humana. Às vezes, o animal humano quando decide ser perverso é pior do que os mais violentos. É pior do que as feras. Em situações assim, há também a recomendação para seguir sua vida sem estar exposta ou exposto à violência.

Tribuna: A última e a primeira encíclica do Papa Leão XIV, a Magnífica Humanitas, alerta para o risco da precarização do trabalho, para o uso da inteligência artificial, das novas formas de exploração, das escalas de trabalho que exploram muitas pessoas, já que elas têm também o direito ao lazer. O que a igreja faz aqui em Curitiba e o que ela deveria fazer com relação a essa situação de exploração de trabalho? 

Dom Peruzzo: A primeira encíclica social foi a Rerum Novarum, 1891. As minas de carvão, no trabalho dessas minas, para extrair o carvão, ia homens, mulheres e crianças. Trabalhavam 14 horas por dia. Foi a Igreja que falou por primeiro da grave violência que se fazia. Desde aquela época, começaram a dizer que a Igreja tinha que se ocupar com as coisas espirituais. Não é de hoje. Qualquer coisa que hoje se faça fora do templo, fala-se isso. Eu mesmo sou acusado de comunista. Na pandemia, ganhei toneladas de alimentos. Ganhei, não, fui intermediário de alimentos para famílias que estavam com fome lá no bairro Sabará. Fome! Os sem-terra é que trouxeram. Então são comunistas, mas na hora da fome vamos discutir se é de direita ou de esquerda. E crianças com fome. Agora o Papa escreveu quase a perguntar: ‘Para onde vais humanidade?’ Ele não fala só das condições de trabalho, da precarização das relações interpessoais e sociais. Também do excesso de tecnologia. Isso esvazia pessoas. Veja, tanta tecnologia e pela primeira vez na história da humanidade e aqui no mundo ocidental, a última geração é menos inteligente do que a geração anterior. Nunca houve tantas crianças, adolescentes e adultos com a telinha passando o tempo e caindo em estados depressivos porque não tem relacionamentos interpessoais. Não precisa amar ninguém tendo a telinha. E hoje, para manter a criança calma, se dá um aparelho e ela já fica quieta. A criança não precisa se disciplinar a nada. Daí será incapaz de qualquer renúncia e de qualquer frustração. Volto agora à Magnífica Humanitas. Se não houver tempo para um olhar nos olhos do outro, lhe querer bem por pura gratuidade, todo esse tempo será usado para a tecnologia e vai lhe esvaziar os corações humanos. Se no passado era encíclica social, por causa de problemas econômicos, agora os problemas econômicos, a falta, a carestia, a fome, a miséria ainda e o descompasso, a concentração de renda, tudo isso ainda continua como um elemento a mais.

Os recursos da tecnologia que em si não são maus, mas o modo mau de usá-lo destrói pessoas. O que fazer? Não vamos ficar sem. Eu também hoje, se me faltar um celular, vou ter dificuldades. Preciso. Mas se for ele a absorver todas as atenções das pessoas e dos indivíduos, essas pessoas vão empobrecer-se de si próprias. A hora que uma pessoa lhe desagrada, desliga. Só vai procurar quem lhe agrada. Alguém estaria preparado no futuro para relações sadias de convívio? Daí só vai ficar com a parte da pessoa que lhe traz algum tipo de conveniência. Eu uso, depois eu descarto a sua companhia. Imagine onde vai terminar.

Tribuna: Nessa encíclica, Papa Leão XIV pediu desculpas pelos anos de escravidão que a Igreja teria passado muitos anos com os olhos fechados diante desse problema. O que a igreja tem feito para combater o racismo aqui em Curitiba? 

Dom Peruzzo: Foram lançados três volumes de livros sobre escravidão no Brasil, um livro de um historiador. A escravidão antes de chegar ao Brasil já tinha chegado em outros lugares e mesmo em lugares não cristãos. Os muçulmanos compravam escravos da África. Tribos africanas digladiavam-se e faziam batalhas entre si para fazer prisioneiros e vendê-los. É muito antes que o cristianismo chegasse. Os primeiros negros comprados na África e levados para a Europa, quatro deles foram presenteados para um padre que os vendeu para construir um altar na sua igreja. Quando Cristóvão Colombo veio para a América, levou alguns índios e presenteou ao rei da Espanha. E ele ficou surpreso porque eram escravos, mas não eram negros.

É um legado trágico da história da humanidade. Mas não só aqui, o mundo oriental também teve suas fases de escravatura, não com os africanos, com outros. É uma fase negra da história humana. E no Brasil também a Igreja fez isso. Uma das primeiras vozes críticas à escravatura no Brasil foi Padre Leite, em Salvador. Ele foi uma das primeiras vozes críticas a reagir muito antes de que surgisse o movimento abolicionista aqui no Brasil. Na Espanha, na Colômbia, Camilo Torres se levantou contra a escravidão aplicada, a escravidão negra trazida da África. Bartolomeu Las Casas na América Central, tem páginas maravilhosas. Mas a Igreja não se pode negar, traz dentro de si tudo o que há de humano, de nobre e de pobre, de sublime e de mísero. Hoje há um esforço, um movimento cultural não só para combater os preconceitos que ainda existem, mas também para resgatar a cultura negra, as religiões africanas.

Claro, do ponto de vista religioso, a Igreja tem que ser cristã e apresentar Jesus Cristo, numa relação de profunda convivência necessária e muito respeito. Lá no sudoeste do Paraná, eu estive em quilombos. Eu fui várias vezes. Não é algo que se muda por conceitos, mas por acolhimento, e acolhimento é relações construídas, movidas pela por quererem ver-me no outro. Nós deveríamos nos ver na dor dos fracos e na dor dos negros. Para isso, é preciso sair de si. Sair de si não significa abandonar onde está, mas fazer do lugar onde vive, e o lugar onde os outros vivem, num espaço de encontro, a cultura do encontro que dizia o Papa Francisco. Eles precisam ser os protagonistas e a Igreja precisa dar retaguarda à sociedade, às autoridades, às escolas, à cultura, tudo. Enquanto eles não tiverem também oportunidades socioculturais, eles continuarão a ser os mais pobres. Se são mais pobres, têm menos oportunidades. A questão não é só religiosa, é teológica, sociológica, cultural e socioeconômica. As chances para os negros no Brasil não são comuns para os brancos, embora na Constituição esteja tudo escrito. 

Tribuna: Aproveitando que a gente comentou sobre a população negra, o sincretismo religioso é marcante aqui no Brasil. Muitos fiéis católicos frequentam a missa e também vão a cerimônias em outras religiões. Esse católico plural é considerado um cristão verdadeiro aos olhos da Igreja? 

Dom Peruzzo: O uso de certos adjetivos faz lembrar o seu oposto. E se é cristão verdadeiro, então, se é verdadeiro, ele rejeita os outros. Um jogo de oposições e exclusões. Como se, para ser um católico verdadeiro, devesse excluir pessoas, cultura, ambientes, experiências. É um fato cultural, inclusive. Hoje, você mesmo constata com sua campanha eleitoral. Eu nesse aqui não voto. Ah, então vai lá pro outro. Então você é lá do outro. Quando tudo é interpretado segundo polarizações, é verdade que tudo tem um núcleo central que não pode ser relativizado, mas quando usa-se um linguajar feito de exclusões, que para afirmar um eu tenho que excluir o outro, de alguma maneira eu estou corrompendo algo que procede de dentro da pessoa humana, que é a busca por relações sadias de convívio e de respeito. É preciso dizer que respeitar a diferença, isso é algo cristão? Respeitar a diferença é um princípio antropológico de qualquer realidade na qual uma maturação de cultura e de inteligência se consolidou? Não é um princípio de fé, é um princípio da comunhão, do convívio. Estou aqui introduzindo. É verdade que um corintiano não vai buscar lá no time do Palmeiras um exemplo de bom futebol. É verdade que um coxa-branca não vai lá na Baixada tomar um exemplo de grandeza futebolística. Mas é doente se um exclui o outro e diz que o outro precisaria ser de fato rechaçado. Não sei se me faço compreender.

Agora, voltemos aqui para a religião. É da natureza da identidade comunitária, religiosa, a experiência religiosa é sempre comunitária. Então procurar, salvaguardar, identificar-se, cultivar a identidade religiosa da comunidade a qual está vinculado, isso é saudável. Se batem em outras portas, talvez esteja faltando aqui no centro, no seu ambiente, o que desejaria encontrar em outro. Outras vezes é curiosidade, outras vezes é ir lá por uma pura relação de abertura e de respeito. Eu já fui em outras igrejas, em outros templos e já estive em templos também de cultos afros. E fui muito respeitado e não fui até lá para deixar de ser católico. Eu fui até lá porque são meus irmãos que vivem lá. Se eu não quero ficar aqui, eu não me encontrei nem lá nem aqui. Então não é que é o verdadeiro e o outro é falso. A minha experiência religiosa não está bem integrada e não está bem completa. Mas não quero dizer que o outro é falso. Por dizer que o verdadeiro está aqui, eu não pretendo dizer que o outro é falso. Não sei se me explico a diferenciação. Integrar, sim. Falso, ah, não precisa isso. Integrar, sim. 

Tribuna: Em novembro do ano passado, o senhor precisou intervir para cancelar um evento de cunho político partidário. Foi uma vigília que seria realizada para a saúde do ex-presidente Jair Bolsonaro. Por que as igrejas, elas são tão cobiçadas para palanque eleitoral? 

Dom Peruzzo: Eu também sou bastante procurado e recebo todos os que me procuram, porque há cristãos e há católicos em todos esses grupos partidários, agremiações, e isso é legítimo. Por respeito aos católicos que fazem parte, esses líderes, essas lideranças políticas que me procuram, e muitas delas são católicas, eu as recebo não por cortesia ou cordialidade com eles. Eles são membros da sociedade, filhos da comunidade e estão a propor, estão a se apresentar para prestar um serviço. Em 2017, Lula estava preso em Curitiba. Seus correligionários, seus amigos e pessoas que gostam do PT queriam fazer uma celebração dentro da Catedral. Eu não recordo qual foi a motivação apresentada. Pediram autorização, mas no dia em que haveria o evento, logo pela manhã, já lá pelas dez horas, eu percebi que não era um evento orientado para aquilo que se buscava. Era uma expressão em linguagem religiosa de apoio ao político. Assim, não. E desautorizei e levei um pau. Ano passado quiseram fazer o mesmo. Ir à igreja e fazer uma vigília de oração em favor de um político preso. ‘Mas, não, mas nós só queremos rezar.’ Não, não quero. Querem fazer do ato ou durante uma manifestação de apoio político. E tinha essa perspectiva unidirecionada.

Todos os que querem rezar por A, por B, por C têm seu direito. Mas se o modo comunitário de fazê-lo agrega pessoas e a centralidade temática não é a oração, mas é um indivíduo em causa e que pivô de um grande debate contrário e favorável, isso compromete, corrói o sentido de identidade de fé por parte dos orantes. Lá eles eram mais amigos de um e mais inimigos de outro. E agora vamos rezar juntos. Vamos rezar por este. Nós detestamos aquele lá, mas nós amamos esse aqui, vamos rezar, invocar o nome de Deus para que Deus venha participar dos amores daqui e dos ódios de lá. Isso desfigura tudo.

Tribuna: Dom Peruzzo, diante dessa polarização que a gente vive dentro da política, como pregar o mandamento de amar os inimigos de Cristo? Estamos vendo famílias sendo divididas e a comunidade toda sendo tensionada. 

Dom Peruzzo: Eu tenho a impressão que precisamos aprender a conversar. Eu sei que você pensa diferente de mim, que as suas escolhas não são as mesmas, mas eu te quero bem. Vamos estabelecer esta premissa, então vou falar com respeito. Eu te quero bem, eu não conheço você, mas eu vou querer bem a você. É preciso uma pré-determinação. Agora, se eu vou argumentar sobre questões políticas estando raivoso e rancoroso, o debate deixa de ser debate para ser combate. Não é assim? Deixa de ser oração para ser agremiação, religiosidade ideológica. Eu falo o que eu quero, conto o que eu quero, e o outro ouve, se ele convier. E se não ouve, ele também fala, e eu falo na mesma hora, nenhum ouve o outro, e os dois se excluem.

O Senhor Jesus, em quem eu creio, pede de mim que eu não ofenda. Veja, no grupo de Jesus havia dois discípulos, no Evangelho até diz, um antes fora cobrador de impostos, a favor dos romanos, cobrava impostos, era odiado: Mateus. O outro, Simão, o Zelota. Zelota era um movimento guerrilheiro, movimento que fazia, aplicava a tática de guerrilha contra os romanos. No grupo dos 12, tinha dois. Um cobrava impostos para os romanos e o outro fazia guerrilhas contra os romanos. Como foi o relacionamento entre aqueles dois? Os dois tiveram que rever suas percepções. Aqui também, qualquer tempo. Se eu quero vencer você, eu vou combater. Se eu quero conviver com você, eu vou debater. É uma questão de educação para a diversidade e educação para a multiculturalidade. É uma questão de educação para os sadios debates. Fala-se que de uma boa discussão nasce a luz, às vezes nasce uma boa briga. Depende por quais motivos eu quero conversar com você sobre um tema polêmico.

Tribuna: O sacerdócio enfrenta desafios vocacionais no mundo todo. Como está a saúde dos seminários e a sobrecarga de trabalho dos padres na nossa arquidiocese? 

Dom Peruzzo: Eu vejo que você andou lendo sobre a vida dos padres e tomando informações para saber como perguntar. Toda a sociedade, povo brasileiro, está sobrecarregado. É só ver as sobrecargas dos médicos. É só ver as sobrecargas dos professores, as tensões que eles vivem, os desaforos que levam para casa, os ambientes, violências que sofrem. Mas não falo de médicos, de professores, mas de qualquer pessoa hoje. Esses bombardeios, digamos assim, por produtividade, eficiência, resultado, a empresa tem que ser eficiente. A capacidade das pessoas de querer bem está suplantada pela necessidade de superar o outro, eu estou competindo. Num banco tem que alcançar metas e se não alcançar metas, sofre pressões. Chega em casa, destroçado, daí vai acariciar sua criança. Está impaciente, daí usa uma palavra mais indignada com a esposa, que também está cansada e daí reage, enfim.

Trabalhar muito, trabalhar bastante não faz mal para ninguém. O que faz mal é a raiva. E nós vivemos numa sociedade doente e estamos respirando ares tóxicos. Se não nos vigiarmos, não é só problemas vindos de fora. É a pessoa desencontrada. Qualquer pessoa para perdoar uma a outra, ela não pode estar respirando pelas feridas. Preciso estar em paz. Qualquer reconciliação não é uma verdadeira reconciliação quando as pessoas decidem reconciliar-se porque cansaram de brigar. Aí não é opção pela verdade. É só se fortalecer para depois recomeçar a briga. Então, no caso dos pares, antigamente as famílias eram mais estáveis, mais coesas. Havia mais experiências comunitárias e de gratuidade, inclusive porque as famílias eram mais numerosas. Isso era vivido desde casa, não numa espécie de individualismo tiranizante. Já crescia em experiências de partilha, de sentimentos, de afetos, de sonhos, de esperanças, também de desentendimentos. Um precisava muito do outro e a reconciliação se tornava também um aprendizado desde o início.

Hoje o individualismo esvazia as pessoas e qualquer forma de esvaziamento interior predispõe a doenças neuropsicológicas. Para um padre estar bem, ele precisa não adoecer, ele precisa estar muito bem com sua vocação. Gostar de ser padre, gostar das pessoas. a cujos cuidados foi destinado ao seu ministério. Senão, será sempre um ator que atua, mas não necessariamente alguém que, porque vislumbra sentido para sua existência, então exerce o ministério. O casamento também se esvazia se não for realimentado. As amizades também se empobrecem se não forem cultivadas. Tudo o que tem alcance existencial, se não for buscado, aprofundado e renovado, perde-se. Porque a pessoa perde a capacidade de fazer de si um dom. Quando não faz de si um dom, se torna explorador dos outros. Sempre quem não faz da própria vida um dom, vai querer explorar dons dos outros. Quem não faz da sua vida um caminho de gratuidade vai se aproveitar de quem faz. 

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