Ter comércio na região do Mercado Municipal e da Rodoferroviária se tornou sinônimo de gastos extras e insegurança. Arrombamentos e furtos feitos por marginais que vivem no Viaduto Capanema ou sob marquises do Mercado, ficaram frequentes há dois meses. Fora as portas de aço arrebentadas, o prejuízo de cada comerciante varia de R$ 10 a R$ 35 mil. Pneus e rodas de carro, computadores, pequenas quantias em dinheiro que ficam nos caixas, equipamentos eletroeletrônicos, roupas, até motosserra e jogos de prato e panela foram levados pelos marginais.

A incidência dos arrombamentos noturnos aumentou tanto que empresários e moradores se reuniram para cobrar soluções das autoridades. Do mês passado até o começo desta semana, segundo o grupo, foram feitos cerca de 40 arrombamentos. A maioria registra o crime apenas com a Polícia Militar, mas 18 foram levados diretamente à Delegacia de Furtos e Roubos (DFR), que, na terça-feira da semana passada, fez uma operação e capturou dois suspeitos, embaixo do viaduto e em uma pensão na Avenida Marechal Floriano Peixoto.

Entretanto, um dia depois, estabelecimentos voltaram a ser arrombados. A loja de ferramentas motorizadas da Stihl, na Avenida Visconde de Guarapuava, por exemplo, foi arrombada por volta das 22h da quarta-feira seguinte à prisão da dupla. Com uma viga de madeira, os marginais arrebentaram a porta de aço e fugiram levando uma motosserra de R$ 2 mil e cerca de R$ 10 do caixa.

Câmeras de segurança mostram que o modo como os bandidos agem geralmente é o mesmo. Chegam em quatro ou cinco e usam o carrinho de coleta de material reciclável como disfarce. Encobertos pelo carrinho, eles usam barra de ferro ou pedaço de madeira para abrir uma brecha na porta de aço, por onde entram e fazem a limpa. As portas de quase todos os comércios da região têm marcas de reparos e reforços recentes.

Aroldo de Assiz, gerente de uma loja de rodas e pneus na esquina da Rua da Paz e Avenida Affonso Camargo, cansou de chamar a polícia e a empresa de reparos para as portas. Desde o começo de outubro, foram três arrombamentos e 23 pneus levados. “Reforçamos todas as portas, com exceção de uma que tinha grade. Na semana seguinte eles colocaram o carrinho em frente à grade e forçaram até conseguir deslocá-la, então arrebentaram a porta de aço”, descreveu o comerciante.

João Carlos da Silva, que há 15 anos tem uma loja parecida na Rua Doutor Faivre, quase na esquina da Avenida Sete de Setembro, teve o estabelecimento invadido em 23 e 27 de outubro. Com a mesma estratégia, os bandidos arrombaram a porta de aço, estouraram a vitrine e fugiram com pneus e rodas avaliados em R$ 35 mil. O empresário se juntou aos funcionários do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que fica ao lado e também foi arrombado na mesma semana, e enviou pedido de providências à Secretaria da Segurança Pública (Sesp).

Aliocha Maurício
Aroldo: “Reforçamos todas as portas”

“Nós nos sentimos desamparados. Não adianta colocar câmera e alarme, nem chamar a polícia. Tive que tomar uma medida drástica e estou dormindo dentro da loja. Fecho no fim da tarde, vou até minha casa em Colombo para jantar e depois volto com colchão, cobertor e travesseiro para passar a noite na loja e cuidar do estoque”, desabafou João Carlos. O comerciante afirma que meses atrás os arrombamentos eram menos frequentes. “A gente ficava sabendo de alguma loja invadida uma vez por mês. De uns tempos para cá, acontece quase toda noite. Difícil encontrar um comerciante nesta região que ainda não teve o comércio arrombado”.

Produtos furtados viram pedra em poucos minutos

O perfil dos arrombadores é parecido. São, na maioria das vezes, usuários de drogas que trocam os produtos furtados na mesma região. O proprietário de uma loja de caixas plásticas, que pediu para não ser identificado, contou que o marginal que arrombou seu comércio fingiu que dormia perto da porta. “Ele deitou como um morador de rua qualquer e mesmo deitado, forçou a base da porta com um ferro”, descreveu.

Os moradores de um prédio na Rua da Paz disseram ver com frequência os marginais correndo com os produtos até embaixo do viaduto, onde entregam aos receptadores. “No dia que roubaram a loja de pneus, vi os bandidos carregando os produtos em um Monza velho. É um bando com mais de dez pessoas, todos moradores de rua e usuários de drogas. Alguns passam o dia como guardadores de carro e de noite agem como ladrões”, descreveu um deles.

Eles ajudaram a polícia reconhecendo Márcio Ribas Duarte, 33 anos, preso embaixo do viaduto na semana passada, como um dos integrantes da quadrilha. Segundo os moradores, o dinheiro que conseguem com os arrombamentos é gasto na região. Nas esquinas perto do Mercado existem pontos de tráfico. “A sensação de insegurança aumenta porque moramos perto da Corregedoria da Polícia Militar e de uma delegacia”, comentou um dos moradores.

De acordo com a Polícia Civil, depois da operação da DFR na semana passada, as investigações continuaram avançando e novidades devem ser divulgadas na próxima semana.