Durante a madrugada, no fim de janeiro, quando a Rua 24 de Maio deveria estar entregue apenas ao silêncio, dois homens quebraram o painel de propaganda de um ponto de ônibus, a poucos metros da Avenida Kennedy, entre os bairros Rebouças e Jardim Botânico. Dias antes, moradores haviam registrado cenas de depredação em plena luz do dia. A insegurança é reflexo dos números: em média, a região tem um furto a cada 4 horas e 15 minutos.
O que antes era exceção passou a fazer parte da rotina. Imóveis invadidos, prédios depredados e sistemas de segurança ignorados desenham um cenário que se repete no entorno. Durante o dia, o movimento de pedestres e comércios cria uma aparência de normalidade. À noite, porém, a região muda de rosto.
“Já faz uns oito anos que estamos aqui e, nesse período, já fomos roubados três vezes”, relata Alexandre Rebonato da Cunha, corretor de uma imobiliária da região. Mesmo com boletins de ocorrência registrados e a proximidade com a sede do 1º Comando Regional da Polícia Militar (1º CRPM), na rua Alferes Poli, ele afirma que a criminalidade segue avançando.
Na esquina da própria Alferes Poli com a Avenida Kennedy, o gerente da Casa do Microondas, Marcos Lalier, também diz ter sentido o aumento da insegurança, principalmente no último ano. “Até torneiras de R$ 1,50 já roubaram aqui”, conta, ao descrever uma escalada de furtos que se acumulam.
Em dois episódios recentes, um no dia 7 de janeiro, câmeras de segurança do comércio registraram o momento em que um homem furta o relógio d’água do registro em frente à loja (veja abaixo). O crime provocou um vazamento que durou pelo menos duas horas. Em outra situação, os vidros do estabelecimento foram quebrados para o roubo de mercadorias.
Um furto a cada 4 horas no Rebouças
Na Regional Matriz, o Rebouças aparece como o segundo com maior número de furtos, atrás apenas do Centro. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Paraná (Sesp), em 2025 foram registradas 2.064 ocorrências do crime na região. Isso representa, em média, um furto a cada 4 horas e 15 minutos ao longo do ano.
Em comparação com 2024, quando houve 1.840 registros, o aumento foi de 12,2%. As estatísticas indicam ainda que a maioria dos casos ocorre durante o dia. De segunda a sexta-feira, entre 12h e 18h, foram contabilizadas 534 ocorrências.
Nos crimes contra o patrimônio, o Rebouças também ocupa a segunda posição na regional e aparece como o sexto bairro de Curitiba com mais registros desse tipo. Em 2025, foram 3.131 ocorrências, o que equivale a uma média de oito a nove crimes contra o patrimônio por dia ao longo do ano.
Raíz do problema?
Segundo comerciantes, grandes estabelecimentos conseguem reduzir o risco com a contratação de seguranças privados. Já para quem circula a pé, aguarda ônibus ou mora em casas sem sistema de proteção, a vulnerabilidade é maior.
Moradores relatam que, após a desocupação do antigo prédio da Oi, na rua Conselheiro Dantas, transversal à Rua 24 de Maio, aumentou a permanência de usuários de drogas e de pessoas em situação de rua na região. O local virou praticamente um mocó para desocupados.
O problema, segundo relatos, é o abandono. Estruturas improvisadas de segurança, como arame farpado nos muros e cadeados no portão, foram colocadas por moradores e comerciantes da região, numa tentativa de conter invasões, furtos e o uso irregular do espaço.
Na visita da Tribuna do Paraná ao local, realizada em 29 de janeiro, a fachada apresentava sinais de queima de materiais na calçada, acúmulo de lixo na vegetação próxima ao portão e indícios de invasão por cima do cercamento dos muros.
Procurada pela reportagem, a empresa informou que não se pronunciará sobre o caso envolvendo o imóvel. A situação do prédio é de desapropriação. Em contato com a Prefeitura, não há alvarás de demolição do prédio. Não há nenhum processo cadastrado na na indicação fiscal, indicando que não há transferências da propriedade em aberto.
E as autoridades?
Questionada pela reportagem, a Polícia Militar do Paraná (PMPR) informou que mantém policiamento contínuo na região da Avenida Kennedy. Segundo a corporação, houve intensificação do patrulhamento preventivo e ostensivo, com foco na prevenção de ações criminosas.
Em relação às abordagens de pessoas em situação de rua, a PM afirma que, quando há constatação de prática de ilícito, são adotadas as providências legais para o encaminhamento à autoridade policial. Quando não há irregularidade, a atuação ocorre de forma técnica e humanizada, com orientação sobre os serviços de Assistência Social disponibilizados pelo município. Havendo concordância, a corporação informa que aciona a rede assistencial.
A PMPR orienta que, ao perceber qualquer situação ou movimentação suspeita, a população acione imediatamente o telefone 190 ou o aplicativo 190 PR. A corporação também reforça a importância do registro de Boletim de Ocorrência.
Já a Guarda Municipal, que também realiza patrulhamento na região, atua com foco na proteção do patrimônio, incluindo prédios públicos, praças e terminais de ônibus. Em caso de flagrante de ilícito penal em andamento, a GM pode prestar atendimento, nos termos da legislação.
“A Guarda Municipal atua de forma integrada e em parceria com a Polícia Militar e a Polícia Civil, prestando apoio às forças de segurança do Estado, sempre respeitando as atribuições legais de cada instituição. O patrulhamento ostensivo da região é de responsabilidade da Polícia Militar”, conclui a nota.
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