Negócios

Gigante dos alimentos sem glúten pode ampliar fábrica na Grande Curitiba

Schär Campo Largo
Conrado Canzonieri (diretor-geral da Schär no Brasil), Ulrich Ladurner (sócio e Presidente do Conselho de Administração), Chrystiane Chemim (vice-Prefeita de Campo Largo), Walter Ausserhofer (acionista e membro do Conselho de Administração) e Andreas Wenter (Diretor para Mercados em Desenvolvimento). Foto: Liza Strapasson.

Uma das maiores fabricantes de alimentos sem glúten do mundo poderá ampliar sua produção na Região Metropolitana de Curitiba nos próximos três anos. A italiana Schär, que mantém uma fábrica em Campo Largo, avalia a necessidade de novos investimentos e de mais espaço para acompanhar o crescimento das vendas no Brasil e em outros países da América do Sul.

A possibilidade foi anunciada durante uma visita do empresário alemão Ulrich Ladurner, sócio e presidente do Conselho de Administração da companhia, à unidade paranaense, na segunda-feira (26).

A fábrica de Campo Largo produz entre 500 mil e 600 mil unidades de alimentos por mês, incluindo pães, farinhas e bolos. Além de abastecer o mercado brasileiro, a operação atende países vizinhos e tem entre seus clientes o Burger King do Uruguai, para o qual fornece pães de hambúrguer sem glúten. A planta brasileira responde atualmente por aproximadamente 4% da produção mundial da Schär.

Segundo o diretor-geral da Schär no Brasil, Conrado Canzonieri, a operação ainda trabalha dentro da capacidade instalada (que em alguns dias da semana já ocupa os três turnos de produção da fábrica), mas o avanço do mercado poderá exigir uma nova estrutura nos próximos anos.

“Daqui a três anos, uma possível ampliação. Se continuarmos no desenvolvimento em que estamos, possivelmente precisaremos de novos investimentos e mais espaço”, explicou o executivo durante a visita à fábrica.

Ainda não há uma decisão sobre o local de uma eventual expansão. Entretanto, Campo Largo aparece como uma das possibilidades mais favoráveis.

Fábrica de Campo Largo abastece mercado sul-americano

A presença da Schär no Paraná começou a ganhar força depois que a empresa identificou o potencial do mercado brasileiro. Há cerca de 12 anos, os produtos da marca eram importados e distribuídos no país. Com o crescimento da demanda, o grupo decidiu adquirir uma indústria que já atuava no segmento de alimentos sem glúten.

Segundo Ulrich Ladurner, a escolha de Campo Largo foi resultado de uma combinação de oportunidade de negócio e planejamento estratégico. A fábrica adquirida pertencia a uma empresa concorrente, cujo antigo proprietário passou a integrar a operação da Schär.

Atualmente, a unidade paranaense é uma das 12 fábricas da companhia no mundo e tem papel estratégico no abastecimento da América do Sul. Além do Brasil, a operação atende mercados como Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Peru e Equador.

A companhia mantém escritórios em Curitiba e Buenos Aires. No Brasil, comercializa aproximadamente 40 produtos, dos quais 13 são fabricados em Campo Largo e o restante é importado. Entre os principais itens produzidos localmente estão os pães, que representam uma das categorias mais importantes para a marca..

De acordo com Canzonieri, a fabricação local é especialmente importante nesse segmento porque os pães são produtos de consumo frequente e têm exigências de validade e frescor que dificultam a dependência exclusiva de importações. Os produtos da Schar não levam conservantes. São injetados gases inertes dentro da embalagem, que mantém o frescor e longe do bolor. Assim que a embalagem é aberta pelo consumidor, o prazo de validade é curto (até 3 dias), justo pelo produto não ter conservantes.

A maior parte das matérias-primas utilizadas pela indústria brasileira é adquirida no próprio país, com alto rigor de seleção, pela própria exigência nutricional de quem precisa de produtos sem glúten para se alimentar. Embora alguns ingredientes sejam obtidos em outros mercados, dependendo das características de cada receita. Um deles é a proteína de soja. Apesar do Brasil ser um dos maiores produtores do grão no mundo, a soja brasileira é transgênica. Como a Schar não utiliza transgênico, importa o produto.

Mercado de alimentos sem glúten cresce mais de 10% ao ano

A perspectiva de expansão da fábrica acompanha o crescimento do mercado brasileiro de alimentos sem glúten. Segundo estimativas utilizadas pela Schär, a categoria registra avanço superior a 10% ao ano no país, impulsionada pelo aumento dos diagnósticos de doença celíaca, pela maior conscientização dos consumidores e pela ampliação da oferta desses produtos nos supermercados.

O setor movimentou mais de R$ 1,5 bilhão no Brasil em 2024, conforme dados apresentados pela empresa. A própria Schär ressalta, entretanto, que as estimativas variam conforme a metodologia utilizada, já que alguns levantamentos incluem alimentos naturalmente livres de glúten.

O público consumidor também vai além das pessoas diagnosticadas com doença celíaca, condição autoimune que exige a exclusão do glúten da alimentação. A marca atende pessoas com sensibilidade ao glúten não celíaca e consumidores que, por diferentes razões, optam por reduzir ou eliminar a substância da dieta. A marca apresenta uma estatística que, esse segundo público, no Brasil, representa cerca de 30% da população.

Durante a apresentação à imprensa, a companhia destacou que a doença celíaca ainda é subdiagnosticada no Brasil, o que indica a existência de uma demanda potencial por alimentos específicos.

Nesse cenário, os pães se consolidaram como um dos principais negócios da Schär no país. Segundo dados de mercado apresentados pela empresa, a marca detém aproximadamente 21% do segmento brasileiro de pães sem glúten e possui quatro produtos entre os dez mais vendidos da categoria.

A empresa também aposta em receitas desenvolvidas especialmente para os hábitos de consumo dos brasileiros, como bisnaguinhas e pão francês sem glúten. Para 2027, estão previstos novos lançamentos, embora a companhia ainda não tenha divulgado quais produtos chegarão às prateleiras.

Empresa quer reduzir dependência de importações

Além do crescimento das vendas, outro fator influencia os planos de investimento da Schär no Brasil: a necessidade de tornar a operação sul-americana menos vulnerável às oscilações da economia internacional.

Durante a visita a Campo Largo, Ulrich Ladurner destacou que conflitos internacionais, instabilidade política, mudanças nas relações comerciais e a própria política brasileira afetam diretamente os custos da indústria alimentícia.

Entre os principais impactos estão as despesas com energia, combustíveis, transporte e embalagens, além das variações cambiais, especialmente relevantes para uma companhia que trabalha com produtos importados.

Na avaliação do empresário, as operações da Schär no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai precisam atuar de maneira cada vez mais integrada para reduzir riscos e fortalecer a presença regional.

O executivo defendeu que as unidades sul-americanas trabalhem como um bloco, compartilhando estratégias para enfrentar os desafios econômicos e comerciais. Ladurner também destacou que o crescimento internacional da companhia foi sustentado historicamente por investimentos com capital próprio, modelo que torna o crescimento um pouco mais lento, mas que o grupo pretende manter.

De empresa italiana a presença em mais de 100 países

A história da Schär começou em 1922, na Itália, com o médico gastroenterologista Anton Schär, que se juntou a seu cunhado, Gottfried Untertrifaller, dono de um moinho, para lançar o produto “Kindergries”, que era uma sêmola para crianças. Ele percebia o mal-estar e baixo crescimento de alguns dos seus pequenos pacientes no consultório; Então teve a ideia de produzir alimentos que as crianças pudessem consumir sem passar mal por causa de alguns ingredientes.

Décadas depois, a companhia passou a se especializar em alimentos voltados a pessoas com necessidades alimentares específicas, consolidando sua atuação no segmento sem glúten a partir dos anos 1980.

A partir de 1979, sob a liderança da família Ladurner, a marca expandiu sua presença primeiro na Europa e, posteriormente, em outros continentes. Hoje, a Schär está presente em mais de 100 países, emprega quase 2 mil pessoas e registrou faturamento global de 632 milhões de euros em 2025, segundo informações divulgadas pela companhia.

No Brasil, a marca está presente em aproximadamente 20 mil pontos de venda no país.

Segurança dos alimentos também está no centro da estratégia

Além dos investimentos industriais, a Schär afirma que uma de suas prioridades é ampliar a segurança dos alimentos destinados a pessoas com doença celíaca.

A companhia defende o aperfeiçoamento das regras brasileiras de controle e comprovação da ausência de glúten nos produtos. Segundo Canzonieri, a legislação nacional exige a identificação da presença ou ausência da substância nos rótulos, mas não estabelece o mesmo conjunto de exigências de testes e comprovação adotado em outros mercados.

Por isso, a empresa participa de discussões regulatórias junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), defendendo critérios mais claros para a verificação da conformidade dos alimentos. Porém, independente da legislação brasileira, a Schar afirma que adota os testes de padrão internacional para levar plena segurança aos consumidores.

A preocupação é especialmente importante para pessoas com doença celíaca, que precisam evitar o glúten de maneira rigorosa, inclusive em situações de contaminação cruzada, seja na fabricação, seja na produção da matéria prima (que não pode ser produzida, por exemplo, ao lado de uma plantação de trigo, ou em terras que realizam a rotação de cultura e nela está inclusa o trigo).

A visita de Ulrich Ladurner à unidade de Campo Largo também contou com a presença da vice-prefeita do município, Chrystiane Chemim. A passagem pelo Paraná fez parte de uma agenda sul-americana do empresário, que também incluiu uma visita ao escritório da Schär em Buenos Aires, na Argentina.

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