Denúncias apresentadas por famílias de baixa renda apontam para a existência de uma grupo que aplicava golpes em Curitiba com a promessa de venda de vagas na fila da Companhia de Habitação Popular (Cohab). O esquema contaria com atuação de pelo menos uma funcionária da prefeitura, que prometia prioridade na aquisição de casas populares a quem pagasse valores diversos – entre R$ 2 mil a R$ 35 mil. Há indícios de que o golpe fosse aplicado há pelo menos quatro anos e que quase 350 famílias tenham sido vítimas do grupo.

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Na semana passada, integrantes de quatro famílias procuraram a reportagem Gazeta do Povo e relataram que fizeram pagamentos a uma funcionária da prefeitura ou a intermediários dela, em troca da promessa de que seriam contemplados com uma casa no conjunto habitacional Moradias Arapoti, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC). As residências foram entregues pela prefeitura em 6 de junho, mas eles não estavam entre os que receberam as chaves.

Uma das denunciantes – que não quis ser identificada – chegou a fazer empréstimos para pagar os R$ 6 mil que o grupo pediu como contrapartida para colocá-la na frente da fila da Cohab. Além de terem caído no golpe, as famílias apresentaram amigos ou parentes, que também acabaram pagando pela suposta prioridade nas casas populares, engrossando o volume de vítimas. “A gente foi para a [cerimônia de] entrega [das casas]. Todo mundo que estava lá saia com as chaves, menos a gente”, disse uma delas.

Investigações

No dia 7 de junho – um dia após a entrega do conjunto Moradias Arapoti –, um grupo de vítimas foi à Cohab para denunciar o esquema. Desde então, a companhia instaurou uma comissão especial de processo administrativo disciplinar e passou a ouvir formalmente as famílias que pagaram por uma vaga na fila da habitação popular. Desde então, a comissão tem tomado o depoimento de três a cinco vítimas por dia.

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Até agora, a Cohab identificou 348 famílias que comprovaram ter feito algum tipo de pagamento à servidora da prefeitura ou a seus intermediários, ao longo dos últimos quatro anos. Em nenhum desses casos, as pessoas que pagaram para furar a fila foram contempladas com as prometidas casas populares, o que indica que o esquema apenas prometia privilégios que não se consolidavam.

Entre as provas, estão comprovantes de depósito, trocas de mensagens de texto e de áudio por aplicativos de celular e até transferências de veículos que foram dados como pagamento. As vítimas tinham renda familiar de zero a R$ 2,9 mil por mês. Uma das famílias chegou a repassar R$ 35 mil ao esquema: ela transferiu uma caminhonete avaliada em R$ 15 mil e pagou o restante em dinheiro.

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“Todas as apurações estão sendo feitas por meio da comissão de auditoria. Se [o esquema] teve a participação de funcionários, é claro que eles serão responsabilizados e punidos, após o devido processo legal”, disse o presidente da Cohab, José Lupion Neto. Além disso, a Cohab vem repassando todos os documentos ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), para que o material respalde uma investigação do órgão vinculado ao Ministério Público do Paraná (MP-PR).

As suspeitas são de que o esquema esteja em operação pelo menos desde 2012, quando a servidora da prefeitura foi cedida à Cohab. Na companhia, ela atuava como articuladora junto à Regional da CIC. Foi nessa época, segundo os relatos, que ela se aproximou das famílias de baixa renda, se apresentando como uma facilitadora. Desde então, passou a cobrar valores variados de quem quisesse furar a fila da Cohab. A funcionária chegava a levar grupos a conjuntos habitacionais em construção, como forma de aliciá-los a fazer os pagamentos.

No fim de 2014, a servidora foi “devolvida” à prefeitura, mas os depoimentos indicam que ela tenha continuado a se apresentar como se representasse a Cohab. As vítimas relatam que o esquema contava com uma espécie de escritório, que ficava em um prédio comercial do Centro e funcionava como se pertencesse à companhia. A servidora mencionada foi identificada e está afastada por licença médica.

Venda efetiva

A Cohab promete apurar também se, no período em que o esquema funcionou, houve venda efetiva de vagas na fila da companhia habitacional – ou seja, se as famílias que pagaram realmente foram contempladas com suas respectivas casas populares. Até o momento, no entanto, só foram identificados casos em que as pessoas foram vítimas de golpes: pagaram pela prioridade na fila, mas não receberam nenhuma vantagem.