Por mais de dez anos, o cotidiano de Beatriz Mora teve como cenário as luzes e a rotina acelerada dos postos de combustíveis em Curitiba. Entre o caixa, a padaria, as bombas de combustível e a gerência, o que permanecia imutável era o peso de uma escala exaustiva. “A gente fica muito preso, porque a escala de um posto de gasolina é pesada. Você trabalha domingo e domingo, com uma folga no mês. Acaba tendo que trabalhar feriado, Natal, ano novo, aniversário da filha”, relembra.
Mãe solo, Beatriz cumpria o turno da madrugada enquanto contava com a mãe como rede de apoio para cuidar dos filhos — uma dinâmica que se prolongou mesmo após alcançar cargos de liderança. A virada de chave veio no momento em que percebeu o preço cobrado por esse ritmo: o distanciamento da própria família. “Eu trabalhava muito e acabava às vezes nem vendo eles crescendo, virando adolescentes. Para eu sair de um posto e ir para outro não ia fazer diferença nenhuma. Eu tinha que mudar alguma coisa”, conta.
Com o incentivo do companheiro, Fábio, e uma habilidade prévia no cuidado com unhas, Beatriz vislumbrou um mercado com espaço para inovação na capital paranaense. Em 2019, nascia a Lady Lounge, fruto de uma decisão corajosa que superou a incerteza do início. “O medo era bem grande. Mas as pessoas não mudam ao seu redor — quem tem que mudar é você”, pontua.

A fonte criativa: do preconceito ao humor que engaja
O modelo de negócio ganhou traços definitivos durante o período crítico da pandemia. Diante do isolamento social e do movimento reduzido, surgiu a ideia de produzir vídeos curtos para as redes sociais ao lado das filhas e da cunhada — as primeiras profissionais a integrar a equipe. De início, a empresária resistiu: “Eu falei, ‘não vou fazer esse tipo de vídeo, jamais, não quero fazer esse tipo de conteúdo'”, recorda.
A conexão estabelecida nas telas transbordou para o balcão. Percebendo a fidelização das clientes, Beatriz estruturou o “Clube das Lady’s”, modelo pioneiro de assinatura mensal para serviços de manicure e pedicure em Curitiba, que atualmente conta com 100 assinantes fixas na unidade.
“Do primeiro vídeo, que eu achava que cem visualizações e já era bastante gente, hoje eu tenho cem assinantes do clube”, compara.
A virada de público veio quando trocaram os tutoriais estritamente técnicos sobre unhas por pautas leves e descontraídas. O impacto foi imediato, “pouquíssimo tempo depois, já tinha dado mais de mil visualizações. Falei: as pessoas querem ver isso.” A partir dessa percepção, o humor passou a estruturar a identidade de marca da esmalteria. “Hoje muitas mulheres procuram a gente não só pelo serviço, mas porque sabem que vão dar risada junto com a gente”, destaca.
Mais do que a estética, o espaço passou a desempenhar um papel social e de acolhimento. “A manicure é quase uma psicóloga. Tem muita gente que vem com a unha bonita, mas quer conversar. Às vezes a terapia acaba sendo a unha”, reflete a empresária.
A maturidade do negócio também se reflete na saúde financeira. Para Beatriz, manter uma fronteira clara entre a vida pessoal e o caixa da empresa foi um aprendizado determinante. “O CPF e o CNPJ são duas coisas bem distintas, e elas têm que ficar distintas. O CPF precisa de um salário — e o CNPJ não é para o CPF pegar a hora que quiser”, reforça.
A gestão na capital paranaense exige ainda um olhar atento ao clima. Enfrentar a sazonalidade nos meses mais frios do ano é parte essencial da estratégia para manter a empresa no verde. “Junho, julho e agosto são os meses mais calmos em Curitiba. Você tem que ter uma criatividade bem afiada, senão se perde”, explica.
Liderando uma equipe formada majoritariamente por mulheres — incluindo familiares —, a empresária defende o comissionamento justo como pilar central de retenção de talentos e padrão de qualidade. “Um funcionário bem pago é um funcionário feliz.”
Para Beatriz, o papel da gestora passa por identificar os diferentes perfis do time e investir no desenvolvimento individual. “Tem gente que nasce com o dom, outras aprendem com muita força de vontade. A gente, como gestora, tem que ficar de olho aberto para ver o que é importante para cada uma.”
Ao analisar a trajetória desde 2019, a visão é de perseverança pragmática. “Nenhum comércio dá retorno em menos de dois anos. A grande maioria das pessoas desiste muito rápido. Não pode desistir. Permanece, que dá certo”, orienta. Hoje, a motivação principal vai além dos resultados individuais: “Não posso pensar que fechar a Lady Lounge é uma opção. Não é só eu, são várias pessoas e famílias que dependem disso.”, finaliza a empresária.
