“Você sabe o que a corrupção, esse grande esquema que a Lava Jato revelou, tem a ver com as eleições de 2018?”, pergunta o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, em um vídeo postado em seu perfil no Facebook, o primeiro de uma série que o procurador pretende publicar toda sexta-feira, para falar com seus seguidores sobre o assunto. Na estreia, ele define o financiamento de campanhas eleitorais com dinheiro arrecadado via propina como o tipo mais grave de corrupção.

Publicado na última sexta-feira (15), o vídeo tinha mais de 370 mil visualizações, 23 mil compartilhamentos e cerca de 2,1 mil comentários nesta segunda-feira (18).

Corrupção está espalhada por todo o país

“(…) a Lava Jato vai muito além da Petrobras. O que identificamos é um esquema básico espalhado por todo o país: partidos e políticos desonestos escolhem, para chefiar órgãos públicos municipais, estaduais e federais, pessoas incumbidas de arrecadar propinas”, explica Dallagnol.

Ao longo do vídeo, de pouco mais de três minutos, o procurador dá uma espécie de aula sobre o funcionamento de um esquema de corrupção envolvendo propinas para alimentar políticos já eleitos e campanhas eleitorais. De acordo com Dallagnol, “uma vez chefiando esses órgãos públicos, tais pessoas vão fraudar licitações em favor de empresas que concordem pagar propinas em troca de lucros extraordinários”, aponta.

“Agora, a grande pergunta, o grande ‘x’ da questão para a gente entender o Brasil, é para onde vai esse dinheiro”, pontua Dalagnol. Em seu primeiro exemplo, cita o caso do ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (MDB), condenado a mais de 100 anos de prisão – somadas todas as acusações – por lavagem de dinheiro, recebimento de propina e desvio de mais de R$ 200 milhões de contratos de empresas com o governo do Rio de Janeiro – e a distribuição de valores desviados em “diferentes cestos”, como classifica: “barras de ouro, diamantes, joias, e mesmo a contas mantidas em paraísos fiscais, lá longe, em nomes de empresas de fachada”, explica.

Círculo vicioso de corrupção

“Agora, uma outra parte do dinheiro vai para um lugar ainda mais grave. ‘Mas espera aí, Deltan, como pode ser uma coisa ainda mais grave do que embolsar o dinheiro?’ Pode sim. É o financiamento de campanhas eleitorais”.

Segundo Dallagnol, campanhas eleitorais que recebem quantias altas de dinheiro transformam um candidato “em um anjo”. Sem citar quais, informa que pesquisas mostram que quanto mais dinheiro investido em uma campanha, maior a possibilidade de uma pessoa se eleger. Ou seja, a propina alavanca a manutenção de corruptos no poder.

“Uma vez no poder, eles vão manter ou ampliar seus esquemas de corrupção e gerar mais propina. Gerando mais propina, o que acontece? Alavanca ainda mais a permanência no poder. E quando a gente vê, a gente está preso em um círculo vicioso: os corruptos conseguem se reeleger, conseguem se manter no poder e conseguem colocar lá pessoas comprometidas com seus esquemas”, detalha.

“Ideias autoritárias não são a solução”

Ao defender que não está demonizando a política e que existem políticos honestos, Dallagnol afirma que a única maneira de quebrar o círculo vicioso é por meio da política, e pede maior participação da sociedade nas questões que envolvem a coisa pública.

“Algumas pessoas passam a flertar com ideias autoritárias, mas ideias autoritárias não são a solução. A única solução para esse problema que corrói a democracia é mais democracia”, finaliza.

Vídeo tem questionamentos: “esse não é o papel de um procurador”

Embora a imensa maioria dos mais de 2 mil comentários sejam de apoio e agradecimento a Dallagnol pelo conteúdo do vídeo, há quem questione a atitude do procurador. “Esse não é o papel de um procurador. Se quer ser político, candidate-se”, reclama um dos comentários. Outro pede que se o procurador quer fazer diferença, que aplique a Lava Jato em investigações na Receita Federal.

Em abril deste ano, depois de especulações sobre uma eventual candidatura do procurador ao Senado, Dalagnol afirmou que não abriria mão de sua posição no Ministério Público para concorrer a uma das duas cadeiras do Paraná no parlamento.

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