O sonho de infância de Elmo Waltrick era ser piloto de avião. Não cansava de avistar os raros aviões que sobrevoavam sua cidade-natal, Lages, em Santa Catarina, quando criança. Ele bem que tentou a carreira na aviação, mas por três vezes foi reprovado nos testes para ingressar na Força Aérea Brasileira. Isso não impediu o então garçom, hoje com 73 anos, de ter sua própria aeronave e de pilotá-la.

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Não era exatamente um avião, por assim dizer. O formato até lembrava, mas certamente não passaria em teste algum de aerodinâmica. Não por acaso, nunca voou. Ficava estático, pregado no chão, exatamente onde hoje está a rotatória da Avenida Manoel Ribas e da Rua Via Vêneto, principal cruzamento do tradicional bairro italiano de Santa Felicidade.

Era o o Restaurante Jatão, ícone da noite curitibana que não só embalou muitos casais ao som de Disc Music nos anos 80 e 70, como também chamava a atenção das crianças que passavam pelo cruzamento e se surpreendiam com uma aeronave no meio da pista. Tanto que hoje quando uma foto do Jatão é publicada em grupos de nostalgia de Curitiba no Facebook o número de comentários e compartilhamentos é sempre muito grande.

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O avião de Santa Felicidade foi construído em 1978 em fibra de vidro por uma empresa de São Paulo. Tinha 41 m de comprimento – maior que um Boeing 737 – e 10 m de largura. Por fora, uma faixa azul atravessava o branco do avião da cauda ao bico pintado de preto – depois de alguns anos de funcionamento, o vermelho substituiu o azul e o branco ficou cinza de sujo. Os motores eram colados à cauda.

Quem frequentava o Restaurante Jatão entrava por uma escada na porta traseira do avião, como os passageiros de alguns aviões. Dentro, 410 metros quadrados que abrigavam 112 mesas para casais ou quatro pessoas, com as cadeiras de ferro e encosto de borracha. As mesas nas laterais tinham a vista da rua pelas janelinhas.

Foto: Acervo da Casa da Memória – Diretoria do Patrimônio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba
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A pista de dança, ao estilo Embalos de Sábado à Noite, filme com John Travolta que marcou a era da Disco Music nos anos 70, era iluminada por 1,9 mil lâmpadas que faziam 99 desenhos diferentes. Tudo controlado por um minicomputador. Para complementar o ar tecnológico, boa parte das mesas era virada para uma grande tela onde eram projetadas imagens e filmes.

Como não poderia ser diferente, para fechar o clima de aviação, seu Elmo fez todos os garçons e garçonetes se vestirem a caráter, de pilotos e comissárias de bordo – aeromoças, na época.

Só para casais

O Jatão tinha um público bem definido e fiel. Nada de gente largada. O negócio era já entrar no restaurante acompanhado e aí não importava se os casais eram namorados, casados ou amantes. Seu Elmo não julgava e tratava de dar o máximo de conforto e privacidade à clientela. Mas sem excessos.

“Eu fui muitas vezes, era um clima gostoso. Você tinha um canto só teu, uma meia luz na mesa. A noite era para nós. Só não era permitido aquele ‘amassa-amassa’, só um afeto ou outro”, brinca o aposentado Pedro Pinheiro, 70 anos, frequentador assíduo do Jatão. Acompanhado da esposa, chegou até a presenciar um pedido de casamento no local, atestando o ambiente leve no avião.

Era raro presenciar grupos maiores, a não ser que fossem casais de amigos, que apreciavam o jantar e ainda riscavam a pista de dança, que tocava os clássicos da discoteca do fim da década de 1970. Na playlist do Jatão, Bee Gees, Donna Summer, Earth Wind & Fire e Kool & the Gang. Puro agito.

“Foi um sucesso e foi muito bom enquanto durou”, lembra seu Elmo, agora morador de Bonito, no Mato Grosso do Sul.

Ele tem boas memórias daquele tempo em Curitiba. Desde quando desembarcou na capital paranaense, em 1970, trabalhou em restaurantes. Tinha seus truques e ganhou o apelido de garçom-artista. Com muito trabalho e carisma, logo atravessou o balcão para abrir seu próprio negócio, o Sete Belo, ali perto do avião.

O Jatão, porém, foi o grande investimento do catarinense. E só foi possível por causa da zebrinha da Loteria Esportiva. No jogo 99, arrematou 440.330 cruzeiros. A grana bancou a construção do restaurante. “Era bastante dinheiro e coloquei tudo no Jatão. Em seis meses já estava devendo pelo menos uns 30 mil cruzeiros”, admite, mas sem se arrepender.

Avião maneta

O dinheiro pode ter acabado no início, mas pelo bom movimento motivado pela curiosidade de viajar no Jatão e a programação musical intensa, seu Elmo conseguiu levar o estabelecimento por quase dez anos, mesmo que nos últimos tempos aos trancos e barrancos.

Foto: Acervo da Casa da Memória – Diretoria do Patrimônio Cultural / Fundação Cultural de Curitiba

O primeiro sinal de que um pouso forçado seria necessário foi dado pela prefeitura de Curitiba. A antiga diretoria de Urbanismo da cidade não perdoou o detalhe de que a asa direita do avião avançava levemente sobre a calçada da Avenida Manoel Ribas. Para ficar na legalidade, seu Elmo tomou uma medida radical que alterou a estética e a já prejudicada aerodinâmica da nave: cortou a asa no meio.

“Me obrigaram a cortar a asa, ficou pela metade. Alegaram que ela estava atrapalhando a circulação e que teria que cortar toda a asa. Só tirei uma parte. Mas isso me desacorçoou”, lamenta o garçom-artista. Para piorar, o Jatão, que já não tinha a melhor fama, ganhando títulos de monumento kitsch, recebeu o apelido de Avião Maneta.

Dali em diante, o entusiasmo do proprietário minguou. E sem resistência alguma viu a prefeitura forçar o pouso definitivo do avião. O projeto de duplicação da Avenida Manoel Ribas exigia mais do que o corte de uma asa. Era questão de sair dali de vez. Diante do avanço da cidade, seu Elmo aposentou o avião.

A queda do Jatão foi tão traumática que, fechado o estabelecimento, Elmo se mandou para Balneário Camboriú e montou o Cantinho da Picanha. De lá, ficou sabendo que no início de 1987 o Jatão tinha dado lugar ao asfalto. Não muito tempo depois seguiu para Foz do Iguaçu, onde trabalhou em uma conhecida churrascaria.

No começo do século, seu Elmo foi conhecer Bonito, no Mato Grosso do Sul, a convite de um amigo. Não voltou mais. Chegou a montar uma cachaçaria, a Tá Ruim!, mas não vingou. Inquieto, abriu um bar que também não foi para frente. Hoje, compra e revende mel e própolis. Na tranquilidade de Bonito, continua produzindo a própria cachaçinha, “na moita”, como ele diz. E aproveita para lembrar os tempos em que marcou a noite curitibana com seu ousado projeto aerodinâmico e dançante.

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