Durante décadas, entrar em uma farmácia de bairro significava encontrar rostos conhecidos atrás do balcão (e só do balcão, pois não havia aqueles “montes” de prateleiras no caminho até os medicamentos). O dono sabia o nome dos clientes, muitas vezes conhecia a família inteira e acompanhava de perto as necessidades daquela vizinhança. Chegava até a ser meio médico, meio psicólogo.
Mas, enquanto o consumidor mudou, o varejo farmacêutico também se profissionalizou e algumas dessas farmácias tradicionais passaram a buscar nas grandes redes uma forma de continuar competitivas.
É o caso do empresário Gediel Rufino Bezerra, de 45 anos. Depois de 26 anos trabalhando no setor, ele decidiu transformar a farmácia que administrava na região da CIC, em Curitiba, pertencente à família da esposa, em uma unidade da Farmais. A conversão aconteceu há cerca de um ano e meio. O resultado foi tão positivo que ele repetiu a estratégia: há menos de um mês, outra loja, no Ganchinho, também passou a operar com a bandeira. E uma terceira unidade já está a caminho.
“Precisávamos crescer. Foi por isso que procuramos uma franquia”, conta Gediel.
A história ajuda a mostrar, na prática, por que farmácias independentes estão aderindo a bandeiras de redes. No Paraná, a Farmais soma 46 unidades, sendo 18 em Curitiba. Dessas, 11 são resultado da conversão de estabelecimentos que já existiam e sete foram abertas do zero.
Do caderno ao sistema
Gediel conhece bem a diferença entre os dois modelos. A farmácia da família funcionava desde 1990 com uma bandeira independente. Quando ele assumiu o negócio, há oito anos, boa parte da operação ainda dependia de processos manuais.
Pedidos eram feitos por telefone e as quantidades precisavam ser calculadas praticamente de cabeça. O estoque era contado manualmente, o caixa era conferido duas vezes ao dia e os boletos eram analisados um a um. Até as informações financeiras e comerciais ficavam registradas em cadernos. “Naquela época, a gente vivia na era da pedra”, brinca.
A rotina também era outra. Quando um cliente chegava procurando um medicamento, muitas vezes a relação com o farmacêutico ia muito além da venda. Gediel lembra que ainda hoje pessoas entram na loja e perguntam por ele ou por antigos funcionários. Há clientes que começaram a frequentar a farmácia com os pais e agora levam os próprios filhos e até netos.
Com a chegada da bandeira, ficou muito mais fácil e menos custoso usar a tecnologia, que passou a assumir boa parte das tarefas operacionais. Um processo que levava cerca de 40 minutos pode ser concluído atualmente em aproximadamente 40 segundos. O fechamento dos quatro caixas da loja, que antes exigia uma longa conferência, hoje é feito em cerca de dez minutos.
“Hoje o sistema automatiza tudo. Preenche tudo e manda automaticamente. Isso deixa a gente anos-luz na frente do concorrente”, afirma.
Faturamento dobrou
A mudança não ficou apenas na rotina. Segundo Gediel, em cerca de um ano e nove meses com a bandeira, o faturamento da primeira unidade dobrou. Hoje, a loja movimenta aproximadamente R$ 340 mil por mês e a meta é chegar a R$ 400 mil até o fim do ano.
Ele atribui parte do resultado ao suporte recebido da rede, principalmente em compras, marketing e gestão. Antes, segundo o empresário, era mais difícil conseguir condições competitivas junto aos fornecedores. Com o poder de negociação da rede, a situação mudou.
“Hoje consigo uma condição de compra que antes não conseguia. O sentimento é de que tenho apoio, estou sendo acolhido”, diz.
A mudança também alterou a experiência dentro da loja. O mix de produtos passou a ser definido de acordo com o perfil de consumo de cada região, e a farmácia deixou de ser procurada apenas para a compra de medicamentos. Produtos de higiene, beleza e até itens de conveniência passaram a ganhar mais espaço.
Uma nova geração de farmácias de bairro
A transformação acontece em um mercado cada vez mais disputado. Na região da CIC, onde está uma das lojas de Gediel, ele conta que há 16 farmácias em um raio de aproximadamente três quilômetros, divididas entre seis bandeiras diferentes. No Ganchinho, são oito farmácias e três bandeiras.
Nesse cenário, ele acredita que o diferencial de uma unidade convertida está justamente em combinar a relação construída durante anos com a estrutura de uma rede.
A tecnologia e o poder de compra ajudam, mas Gediel não abre mão de algo que considera essencial: o atendimento, que permite conhecer os clientes pelo nome e o que cada um prefere. Apesar da mudança de fachada e de processos, uma parte importante da antiga farmácia de bairro continua ali, que são os clientes que já conheciam o estabelecimento.
