Em 2020, Curitiba registrou 472 acidentes com aranhas-marrons, o menor número dos últimos 28 anos, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde. No ano anterior (2019), por exemplo, o número foi de 848 acidentes. Se a comparação for com os dados de 2004, maior número já registrado (3.744), a redução foi de cerca de 87,3%*.

A queda significativa no último ano tem relação direta com a pandemia do novo coronavírus, segundo o biólogo do Centro de Epidemiologia da Secretaria da Saúde de Curitiba, Marcelo Vettorello. Segundo ele, que está no departamento desde o início da obrigação da comunicação dos casos envolvendo acidentes com aranha-marrom, em 1993, o número foi surpreendente.

“Achamos, inicialmente, que a tendência era um aumento nos casos, pois teríamos mais pessoas em casa, por mais tempo, estando mais expostas aos acidentes. No entanto, parece que o pessoal se empenhou em aproveitar o tempo livre e faxinar suas residências, fazendo com que o número de aranhas diminuísse. Até mesmo as aranhas, vendo um movimento atípico dentro das casas, resolveram ficar recolhidas”, explicou à Tribuna.

Nos anos 90, até meados dos anos 2000, houve um aumento significativo no número de acidentes, entre leves, moderados e graves. A partir deste aumento, foram realizadas fortes campanhas educativas para alertar sobre os perigos da picada deste aracnídeo. No primeiro ano de registro foram 1.852, até o ano de 2004, o pico registrado, com 3.744 ocorrências.

Desde então, os curitibanos adotaram novos hábitos, como verificar dentro de sapatos e roupas a existência das temidas aranhas. A aranha-marrom é um animal quase que típico de Curitiba, pois é observado com muita frequência na capital, com a diminuição dos casos conforme o raio aumenta. Mesmo nas cidades da região metropolitana, que fazem divisa com a capital, registram bem menos casos. “É uma diferença gritante. No passado, recebemos até pesquisadores do Butantã para estudar este comportamento da aranha-marrom em Curitiba”, contou Marcelo.

O crescimento das cidades da RMC de fora para dentro, ou seja, em direção à Curitiba, ajuda a explicar porque as aranhas escolheram Curitiba para viver. O habitat natural é a natureza, mas nos cantos escuros das casas, atrás de armários e quadros, e dentro de guarda-roupas, as aranhas também encontraram abrigo seguro.

As aranhas-marrons vão desaparecer?

A resposta não é animadora para quem sofre de aracnofobia, como este que vos escreve. Mas a redução no número ocorrências mostra claramente que “algo mudou” e que o número de aranhas diminuiu, sim, no meio urbano. A ocorrência de predadores naturais, como as lagartixas, ajuda no controle da proliferação das aranhas. Do pico de casos, em 2004, o número de ocorrências despencou ano a ano. As campanhas de conscientização, muitas vezes desacreditadas em suas eficiências, ajudam a explicar estes dados.

“Estamos longe de ter um número ideal. Naquele ano em que batemos mais de 3 mil casos, São Paulo registrou apenas 145. É muita diferença. Acredito que de tanto falarmos, de tanto as pessoas se conscientizarem, os números caíram. Todo mundo que mora por aqui já avisa um parente de fora que chega para ter cuidado com a aranha-marrom”, conta o biólogo.

Sobre o risco de desaparecimento da espécie, Marcelo explica que na natureza existem mais de 104 variedades da Loxoceles, nome científico da aranha-marrom. “Na biologia temos um termo chamado: homeostase ambiental. Chega um ponto que a presa e o inimigo natural se equivalem. Por exemplo, preciso de 10 lagartixas para matar 100 aranhas. Se a quantidade de um cresce mais que a do outro, uma espécie se sobressai”, explicou.

O biólogo cita o exemplo dos sapos. Antigamente era comum vermos sapos por aí, próximos de nossas casas. Hoje é muito difícil”. Eu tenho quase 50 anos e via muitos sapos. Hoje a população se adaptou, fica em locais mais isolados e diminuiu. Os pássaros são assim também. Mas se você pensar no mosquito da dengue, você pode até perceber a diminuição, mas um macho sempre vai encontrar uma fêmea para procriar e o problema pode voltar”.

As aranhas se adaptam muito facilmente. Segundo o biólogo, até o clima afeta no tamanho da população das aranhas. “O clima mudou, interferiu muito. Antes o frio ajudava a matar os filhotes, mas este ano que passou você viu que nem fez frio. As chuvas também influenciam. É fácil perceber que após uma semana de chuvas, o número de casos aumenta, pois as aranhas de fora, buscam abrigo e provocam uma mudança no habitat”.

Foto: Marcelo Elias / Arquivo

Aspirador de pó e lagartixa

Como a aranha-marrom gosta de lugares secos e escuros como frestas, rodapés, atrás de móveis e outros, é importante manter a limpeza da casa, especialmente com aspirador de pó. “Também é importante não matar lagartixas, que além de não oferecerem nenhum risco às pessoas, são excelentes predadores de aranhas”, afirma. Produtos químicos, como inseticidas, não são indicados para o controle da aranha-marrom. “Além de não ter o efeito desejado, pode ter o agravante de matar as lagartixas do ambiente e causar ainda mais descontrole”.

Como identificar a picada de aranha-marrom

De início, a picada da aranha-marrom não dói e os sintomas começam a aparecer depois de 6 horas, podendo evoluir para casos mais graves em 72 horas. O ardor no local, seguido de inchaço e vermelhidão são os indicativos mais fortes de que você foi picado por uma aranha-marrom. Se não houver tratamento, pode evoluir para uma lesão que leva muito tempo para cicatrizar, exigindo, às vezes, até um enxerto de pele.

A boa notícia é que os casos graves representam um número muito pequeno no total de acidentes com aranha. Mortes, por exemplo, são raríssimas. “Muita gente fala do risco de o veneno ir para o sangue e acabar nos rins, mas isso aconteceu apenas duas vezes em 30 anos. A maioria dos casos é leve ou moderada”.

O que fazer?

Aos primeiros sinais da picada, a pessoa deve lavar bem o local do ferimento e procurar atendimento numa Unidade de Saúde e se possível, levar junto a aranha para a identificação, auxiliando assim o diagnóstico. A Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba tem protocolo específico para identificar os casos e aplicação dos procedimentos.

Quanto antes for feito o diagnóstico, melhor vai ser a evolução do quadro, com a medicação adequada, lembrando que somente os casos classificados como graves e com evolução de até 36 horas têm indicação da utilização do soro antiaracnídico.

O que não fazer?

É importante não manusear nem espremer a lesão. A pessoa picada pela arranha-marrom também deve evitar praticar atividades físicas e não se expor ao sol, banhos quentes ou outra forma de exposição ao calor. Também não deve aplicar nenhum tipo de remédio ou produtos caseiros sem indicação médica, pois a lesão pode infeccionar, agravando ainda mais o caso e prolongando o período de recuperação.

*Nota da redação: O assunto aranha-marrom causou “nervosismo” na equipe da redação, que não aprecia os aracnídeos. Tanto, que erramos inicialmente o percentual que mostra a redução de casos em Curitiba, ao longo dos últimos anos. Pela falha, pedimos desculpas.