Em 1º abril de 1914, Curitiba testemunhava um marco histórico: o primeiro voo de avião na cidade, realizado no prado do Jockey Club. A celebração, no entanto, por pouco não virou um impasse. Durante a aterrissagem, a hélice da aeronave quebrou. Como se tratava de uma peça importada — sem similar em todo o Brasil —, a encomenda de um novo exemplar vindo da Europa levaria longos três meses para chegar, ameaçando paralisar os avanços da aviação local.
A solução veio de onde menos se esperava. Alguém sugeriu recorrer à F. Essenfelder & C. Floriano Essenfelder, uma fábrica de pianos localizada na Rua Aquidaban. Aos 24 anos, Floriano Essenfelder nunca tinha visto uma hélice de perto, mas aceitou o desafio. Em apenas 21 dias, entregou uma peça novinha, talhada à mão com a mesma precisão e maestria com que se esculpe o tampo de um piano.

O jornal da época registrou que ela ficou “mais leve e mais resistente que a original”. O avião voltou a voar, e a hélice foi parar na vitrine da loja O Louvre, no centro da cidade, como uma espécie de troféu para os curitibanos verem.
De lá em diante, vieram encomendas de outros lugares. Uma francesa pediu vinte unidades. O Governo do Paraná encomendou uma para representar o Estado na Exposição Sul-Americana de Montevidéu, e ela voltou de lá com medalha de ouro. Em 1961, a Aeronáutica condecorou Floriano com a Medalha Mérito Santos Dumont. Ao todo, foram cerca de dez hélices produzidas na fábrica. Hoje, nenhuma delas está em Curitiba, e nenhuma pertence à família.
Quem conta essa parte da busca é Cezar Essenfelder de Azevedo, bisneto de Floriano. Executivo de tecnologia, ele passou o último ano reconstruindo a história com jornais de 1914 e arquivos públicos, depois de perceber que os relatos de família traziam datas contraditórias sobre o episódio.
“Existe um livro que a Esther Essenfelder, sobrinha do meu bisavô, escreveu em 1982. Ela conta o episódio da hélice, mas dá duas datas diferentes. Fui procurar nos jornais da época e descobri que não era nenhuma das duas. Foi abril de 1914, e está no Diário da Tarde, com data, edição e página”, conta.
A pesquisa já rendeu uma pista importante, Cezar escreveu para museus e arquivos brasileiros perguntando sobre hélices de madeira de fabricação nacional dos anos 1910. O Museu Casa de Santos Dumont, em Petrópolis, respondeu no mesmo dia com uma peça que pode ser compatível: uma hélice de duas pás, laminada, com oito furos de fixação e um prato metálico no cubo, hoje repintada de vermelho. Segundo o museu, a instituição também está atrás da procedência da peça, perdida em uma reforma que afetou os registros de doação do acervo.
A resposta definitiva, segundo Cezar, deve vir da própria madeira. “Se saiu de uma fábrica de pianos de Curitiba, é madeira paranaense: imbuia, cedro, canela, peroba. Se veio de fora, é nogueira, mogno, bétula. Isso é anatomia da madeira, não é opinião, e se faz com uma lasca mínima.” Por isso, ele pediu ao museu que não remova a tinta vermelha da peça antes da análise, já que qualquer marca original pode estar embaixo dela.

Em jornais antigos, Cezar também encontrou um episódio que nenhum registro da família mencionava: um segundo voo, em 21 de abril de 1914, um dia antes da hélice nova aparecer na vitrine d’O Louvre.
Segundo o Diário da Tarde da época, “a ventania que soprava, a estreiteza do campo e o mau funcionamento da hélice quase iam ocasionando um desastre”. Cezar não sabe ainda qual peça estava no avião naquele dia, mas considera o achado um capítulo novo dentro de uma história que ele já considerava conhecida.
Há ainda outro nome que a pesquisa tentou resgatar: Jorge Leitner, o homem que teve a ideia de procurar a fábrica de pianos. Dele, praticamente não sobrou registro, só uma linha e meia no livro de 1982.
Por meio de um colega de trabalho com parentesco na família Leitner, Cezar conseguiu, nesta semana, o primeiro contato com um descendente em mais de cem anos. Ele também descobriu que existe, no bairro Bacacheri, uma Rua Professor Jorge Leitner, embora ainda não tenha certeza se é o mesmo homem, e aguarda o documento da Câmara Municipal que justificou o nome da via.
Para Cezar, encontrar a hélice original mudaria a natureza da prova sobre essa história. “Documento eu interpreto; objeto qualquer um pode conferir”, diz. Ele afirma que não pretende manter a peça em posse da família, caso ela seja localizada. “O que eu quero é que ela acabe num museu no Paraná, pública, onde qualquer pessoa de Curitiba possa entrar e ver.”
Enquanto a busca continua, ele já encomendou a reconstrução de uma hélice em tamanho real, feita à mão pelo método da época, com entrega prevista para outubro ou novembro. Todo o material reunido até agora, incluindo fac-símiles de jornais, o diploma de 1961 e fotos da fábrica, está sendo organizado em um acervo digital público, batizado de Essenfelder Legacy.
A restauradora Mara Inês da Cruz Silva, que já trabalhou na conservação de uma hélice de época (não a mencionada na reportagem), explica os cuidados que esse tipo de peça exige. “O primeiro momento é realizar uma avaliação minuciosa antes de qualquer intervenção. Para mim, o mais importante em um trabalho como esse é entender que a restauração não deve nunca apagar a história que a peça carrega”, diz.

Com mais de 25 anos de profissão, ela resume o que considera o maior desafio da área: “Não restauramos apenas objetos, preservamos memórias, histórias, técnicas e testemunhos de um tempo que não volta mais.”
Cezar agora aposta na colaboração de quem lê essa história para reunir mais pistas. Ele pergunta se alguém se lembra de uma hélice de madeira antiga guardada em um hangar do Bacacheri, se alguém conhece descendentes de Jorge Leitner, ou se já viu um documentário paranaense dos anos 1970 sobre aviação.
