30 anos de pesquisa

O erro de Curitiba: pânico coletivo mascarou a real ameaça da aranha-marrom

A aranha-marrom não é agressiva, mas acidentes podem acontecer quando o animal é comprimido contra o corpo sem que a pessoa perceba. Foto: Marta Fischer/Arquivo pessoal
A aranha-marrom não é agressiva, mas acidentes podem acontecer quando o animal é comprimido contra o corpo sem que a pessoa perceba. Foto: Marta Fischer/Arquivo pessoal

Durante décadas, a aranha-marrom foi tratada quase como um símbolo do medo em Curitiba. Pequena, discreta e cercada de histórias assustadoras, ela entrou para o imaginário popular da cidade como um animal agressivo e quase invisível, capaz de transformar qualquer canto escuro da casa em ameaça. Mas, segundo a bióloga e doutora em Zoologia Marta Luciane Fischer, uma das maiores especialistas brasileiras no tema, boa parte do que se acredita sobre a espécie está errada.

Após 30 anos estudando a aranha-marrom, Marta lança o livro Aranha-marrom: 30 anos de estudos biológicos, epidemiológicos e sociais, publicado pela PUCPRESS e Editora UFPR. A obra reúne décadas de pesquisas e propõe uma reflexão que pode soar provocadora para muitos curitibanos: o maior problema não é exatamente a aranha, mas a desinformação em torno dela.

“A biofobia, esse medo exagerado da natureza, acaba afastando as pessoas de soluções mais inteligentes”, afirma a pesquisadora.

Anos 1990: a origem do pânico coletivo

Segundo ela, o pânico em torno da aranha-marrom começou nos anos 1990, quando Curitiba registrou uma infestação considerada inédita no mundo. Na época, pouco se sabia sobre a espécie e os alertas acabaram criando um clima de medo coletivo. “Foi uma loucura. As pessoas ouviam que existia uma aranha perigosa dentro de casa e ninguém entendia direito o que estava acontecendo”, relembra.

Com o avanço das pesquisas, porém, os cientistas passaram a compreender melhor o comportamento das espécies predominantes na região: a Loxosceles intermedia e a Loxosceles laeta. A primeira responde pela maioria dos casos registrados em Curitiba.

Ao contrário do imaginário popular, Marta afirma que a Loxosceles intermedia não é agressiva. “Ela é uma aranha que evita confronto. Se é incomodada, prefere fugir”, explica.

Os acidentes, segundo a pesquisadora, normalmente acontecem quando a aranha fica prensada contra o corpo sem que a pessoa perceba: ao vestir uma roupa guardada, calçar um sapato ou mexer em objetos acumulados. A picada costuma ser indolor no primeiro momento e os sintomas podem surgir apenas horas depois. Apesar disso, a maioria dos casos é considerada leve.

Aranha-marrom encontra abrigo perfeito nas casas curitibanas

Se a aranha-marrom não é naturalmente agressiva, por que Curitiba se tornou um dos principais epicentros da espécie no mundo? A resposta, segundo Marta Fischer, está na combinação entre clima, arquitetura e hábitos domésticos.

A pesquisadora explica que o clima úmido e as grandes variações de temperatura fazem com que a aranha procure ambientes protegidos dentro das residências. Além disso, muitos elementos comuns nas casas curitibanas acabam funcionando como esconderijos ideais.

Caixas de papelão, pilhas de madeira, restos de material de construção, telhas acumuladas e quadros pendurados nas paredes criam ambientes semelhantes aos abrigos naturais da espécie. “Elas gostam desses locais porque lembram os substratos que encontram na natureza. Uma telha parada há anos pode virar uma colônia inteira”, diz.

Segundo a especialista, o excesso de objetos acumulados dificulta o manejo e favorece a permanência da aranha-marrom dentro das casas. Por isso, medidas simples continuam sendo as mais eficazes: manter ambientes organizados, afastar camas e sofás da parede, evitar roupas espalhadas e sempre verificar objetos guardados antes do uso.

Predadores naturais ajudam no controle da espécie

Outro ponto que o livro tenta desconstruir é a ideia de que qualquer aranha deve ser eliminada. Ao longo das pesquisas, Marta descobriu que espécies inofensivas ajudam a controlar naturalmente a população da aranha-marrom.

Entre elas está a popular aranha-treme-treme, conhecida pelo corpo fino e pernas longas. Apesar da aparência frágil, ela é uma predadora eficiente da aranha-marrom e consegue capturar exemplares até maiores que ela. “Em cidades onde havia mais outras aranhas dentro das casas, encontramos menos aranha-marrom”, afirma.

A pesquisadora também faz um alerta sobre o uso indiscriminado de inseticidas domésticos. Segundo ela, os venenos raramente atingem as aranhas escondidas e ainda eliminam insetos que servem de alimento para elas. Com menos comida disponível, a aranha-marrom tende a sair do esconderijo e circular mais pela casa. “Até hoje, nenhuma estratégia se mostrou mais eficiente do que conscientização e manejo adequado”, resume.

Para Marta Fischer, o desafio agora é substituir a cultura do medo por informação qualificada. “Se queremos cidades mais sustentáveis e ecológicas, precisamos aprender a conviver com outras espécies sem transformar tudo em uma guerra”, afirma.

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