Uma professora de inglês foi esfaqueada por aluno, de 15 anos, em sala de aula no final da manhã de quinta-feira (04). Ana Paula Marino César, 37 anos, levou oito facadas e precisou ser encaminhada pelo helicóptero da Polícia Rodoviária Federal (PRF) ao hospital. O garoto fugiu logo em seguida do crime, deixando a faca no local. Ele foi capturado tentando se esconder na lavanderia de uma casa nas proximidades do colégio.

O garoto atacou a professora por volta das 11h30, quando as aulas estavam prestes a acabar. A revolta foi por conta de reunião com os pais, que ocorreu na quarta-feira, em que Ana Paula teria citado o adolescente como um estudante indisciplinado. Segundo o jovem, a professora também o teria ofendido em sala de aula, chamando-o de “lixo”. Colegas comentaram que ele chegou a dizer que a mataria, mas ninguém acreditou.

Depois de desferir as facadas, o garoto pulou o muro do colégio e fugiu. A professora foi encaminhada em estado grave ao Hospital Angelina Caron. Segundo a assessoria de imprensa da instituição, a vítima levou facadas nas costas, que atingiram o pulmão, e nas mãos e braços, de forma superficial. Ela passou por tomografia de tórax e foram feitas suturas. Não houve necessidade de internamento na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O quadro de Ana Paula é estável, mas não há previsão de alta.

Capturado

Pouco tempo depois do crime, a polícia conseguiu localizar o adolescente. “Fizemos o cerco nas proximidades e ele fugiu entrando em várias residências, mas conseguimos encurralá-lo na lavanderia de uma das casas”, contou o tenente David, da Polícia Militar. O adolescente foi levado à delegacia de Piraquara, onde foi autuado em ato infracional de tentativa de homicídio e será encaminhado para o Juizado de Menores, que deve encaminhá-lo a local mais apropriado à custódia. O delegado Guilherme Fagundes contou que, em um primeiro momento, ele não demonstrava arrependimento e achava que estava “na razão”.

Quando o pai do garoto chegou à delegacia, ficou chocado com o que o que o filho tinha feito. Ele contou à polícia que o adolescente tinha boas notas e o ajudava na lanchonete da qual é proprietário. Na frente do pai, o garoto afirmou que não pretendia esfaquear a mulher, apenas “dar-lhe um susto”. Policiais e algumas testemunhas devem ser ouvidos na delegacia e, posteriormente, a professora também deve prestar depoimento e passar por exames no Instituto Médico Legal (IML).

Alvoroço

Mesmo com o portão do colégio fechado e aviso que as aulas estavam suspensas ontem, vários adolescentes permaneciam na frente do local, comentando o que tinha acontecido. Ninguém da instituição quis dar entrevista, mas estudantes disseram à reportagem da Tribuna que a professora dá aulas na instituição desde o começo do ano. Segundo eles, ela costumava ficar nervosa em sala de aula e xingar os alunos. Para alguns deles, esse comportamento parecia justificar a atitude do adolescente.

Alunos contaram ainda que não é a primeira vez que facas ou arma brancas são levadas ao colégio. “Semana passada teve uma briga entre duas meninas e uma delas pegou um estilete para ameaçar a outra”, afirmou um deles. Uma menina, de 12 anos, disse ter ficado com receio de estudar no colégio, depois do que aconteceu ontem, e que vai pedir aos pais para mudar de instituição.

Polícia e Secretaria vão discutir a situação

Em nota, a Secretaria de Estado da Educação (Seed) lamentou a situação ocorrida em Piraquara e informou que a escola prestou todas as ações necessárias. As aulas devem seguir normalmente hoje. A Secretaria e o Batalhão da Patrulha Escolar devem se reunir nos próximos dias com a comunidade para conversar sobre o crime e fornecer orientações. Conforme a Seed, o que houve em Piraquara é uma situação isolada e, frente à tota,lidade do número de escolas existentes na rede estadual, não representa a realidade existente na relação entre professores e alunos.

A tenente Marilia Silva, da Patrulha Escolar, disse que os policiais costumam atender casos de desacato de alunos contra professores, mas esse nível de agressão é muito raro. Ela contou que a Patrulha orienta os pais em palestras da necessidade de acompanhamento da rotina dos filhos. “É muito importante o acompanhamento da família, que os pais participem das reuniões, saibam se o filho está conseguindo acompanhar aulas, quais são as companhias dele, se sofre bullying”, comentou. “A escola está ali para repassar conhecimentos, claro que faz também faz papel social de orientação, de fortalecimentos de valores, mas a base da educação é a família”, considerou.

Debate

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná (APP-Sindicato), Hermes Silva Leão, disse que a entidade vai lutar para colocar o tema da violência nas escolas em debate. “Infelizmente não é o primeiro episódio, por isso vamos acompanhar de perto as ações para prevenir novos episódios e evitar ter uma categoria amedrontada no local de trabalho, porque isso interfere na qualidade do ensino”, ressaltou.

Para ele, o problema é complexo e envolve vários segmentos da sociedade. “Não é só a família que dá conta de uma boa educação. O próprio sistema de políticas públicas de educação, vinculado com a segurança pública e a assistência social precisa criar uma rede de proteção, para fazer ações preventivas”.

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