Lorena Cristina, 45 anos, mesmo após quase 14 anos do desaparecimento de seu filho João Rafael Kovalski, afirma que não sente como se o filho estivesse morto e ainda não perdeu a esperança de reencontra-lo.
Faltavam cinco dias para o pequeno João Rafael Kovalski completar 2 anos. No fim da manhã do dia 24 de agosto de 2013, por volta das 10h30, o garoto brincava no terreno da casa de seus pais, no município de Adrianópolis, no Vale do Ribeira, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), quando de repente, sumiu sem deixar rastros.
“Não sinto que esteja fora do país. Pode ser que eu esteja enganada. Não sinto ele morto. Não penso nele como se estivesse morto. Acho que isso que me mantém de pé, viva, lutando. Acho que ele ainda está no Brasil. Mas só Deus sabe! Se alguém souber, me falem, por favor! Pode ser até morto! Mas que diga: “vou te levar onde ele está”, porque várias pessoas disseram que sabiam dele e não deu em nada”, comenta Lorena.
Problemas de saúde e muita saudade
Para Lorena, são anos de uma dura batalha e corrida contra o tempo na tentativa de encontrar o filho, além de muito sofrimento. Ela relata que com o passar dos anos, sofreu vários problemas de saúde, principalmente psicológicos. Noites sem dormir, além da perda de seu pai que, segundo ela, teve sua condição médica agravada após o desaparecimento do neto.
“A saudade só aumentou mais. Antigamente as pessoas falavam que com o tempo diminui, mas só aumentou ainda mais. Até doença, tive vários problemas de saúde desde o desaparecimento. É uma angústia. Dá uma vontade de resolver com as próprias mãos, mas não tenho coragem”, desabafa.
O pai Lucas sempre teve o sonho de ter um filho, o que foi realizado, porém, não vê-lo crescer, trouxe sérios problemas de saúde, como a depressão.
Pedido de ajuda
Conviver com a saudade e o distanciamento do filho é um sofrimento que nenhuma mãe deveria passar, desabafa a mãe. Em busca de uma resposta sobre o desaparecimento do pequeno Kovalski, ela pede ajuda.
“Gostaria de consultar com um psicanalista, regressar no tempo. Tive vários bloqueios. Teve bastante coisas na época que não lembro. Talvez, pudesse ajudar. Gostaria de pedir que a polícia tivesse piedade, nos dar informação. Já não temos condições financeiras pra ficar correndo atrás. Precisamos ter uma resposta”, apela.
Teorias
Para a mãe, existem muitas teorias sobre o sumiço de seu filho. Desde o envolvimento de uma babá até de um empresário da região que, supostamente, teria pagado alguém para sequestrar o garoto. Mesmo após a Polícia Civil do Paraná ter ouvido as partes e não ter encontrado provas conclusivas, os boatos percorrem ao longo do tempo, o que faz com que a mãe questione as investigações.
“Acho que é uma máfia muito grande, no meu ponto de vista. Porque nada vai. Tem hora que nem penso como mãe. Se hoje eu xingar uma pessoa, sou processada. Mas falei de tudo sobre o caso do João e nada aconteceu. A pessoa (o empresário), passa por aqui livremente, mas quando me vê, se assusta… Não abaixo minha cabeça, eu não acusei ele. Tenho vontade de perguntar pra ele. Já falei com a polícia, mas dizem que não podem sair de Curitiba para vir aqui pra saber. Não podem fazer nada, nunca pode. Uma pessoa falou que meu filho foi vendido, que foi tirado de casa. E o que fazem? Nada, não fazem nada! É uma novela mexicana!”, desabafa.
Na cidade em que vive há 45 anos, Lorena disse que “nunca ocorreu algo tão absurdo”. “Já aconteceu de cair no rio, mas localizaram o corpo. Quero deixar bem claro, que o Paraná é o único lugar que não dão suporte para a mães de desaparecidas, não temos ajuda. E o Paraná é o único lugar que tem mais desaparecidos”, afirma.
Caso arquivado?
O caso de João Rafael está parad0 na Promotoria Pública de Bocaiuva do Sul, órgão vinculado ao Ministério Público do Paraná, responsável pela comarca que abrange Adrianópolis. Em 2023, Cristina teve um choque ao descobrir que o caso de seu filho estava arquivado, inclusive na Polícia Civil do Paraná (PCPR), responsável pelas investigações.
E aí, PCPR?
Em nota à Tribuna do Paraná, a Polícia Civil afirmou que:
“A PCPR informa que o caso do desaparecimento de João Rafael Kovalski foi arquivado judicialmente em razão da ausência de elementos suficientes para o prosseguimento da ação penal. No entanto, por se tratar de um caso não solucionado, permanece passível de reanálise a qualquer tempo, conforme previsto na legislação processual penal.
O caso tramita perante o Poder Judiciário, sendo conduzido, no âmbito da Polícia Civil, pelo Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride). As imagens de progressão etária estão sendo atualizadas gradualmente neste ano.
Em relação à correspondência recebida pela família, o material foi devidamente encaminhado para análise no âmbito do Poder Judiciário. Foi realizado exame papiloscópico, não sendo possível estabelecer vínculo conclusivo a partir do material apresentado.
Até o momento, não há registro de novas evidências ou testemunhas relevantes relacionadas ao caso.”
Orientação da PCPR
Ainda de acordo com a PCPR, muitas famílias reencontram seus parentes e não informam a polícia, deixando assim, o desaparecimento em aberto. Para isso, é importante dar baixa no boletim de ocorrência, assim que o familiar é encontrado.
“A Polícia Civil do Paraná (PCPR) orienta a população sobre a importância de dar baixa nos boletins de ocorrência assim que uma pessoa desaparecida seja localizada. A comunicação nesses casos é essencial e auxilia nos índices de elucidações, evita diligências desnecessárias por parte da polícia, além de regularizar documentos da vítima”.
Para realizar a a baixa no boletim de ocorrência, a vítima deverá comparecer na delegacia em posse de documento com foto, para que a equipe policial comprove a sua identidade. A Polícia Civil também conta com o SICRIDE (Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas) para casos que envolvem desaparecimento de pessoas com 0 a 12 anos de idade incompletos.
