Criamos para nossa Língua e seus dicionários a palavra chato, definindo, mais que uma superfície plana, o indivíduo socialmente inconveniente, mas cuja inconveniência não é percebida por ele mesmo. Usando outra das nossas boas palavras, o chato é desprovido de desconfiômetro, provavelmente um equipamento destinado a detectar e medir o grau de não desconfiança, segundo parâmetros, limites, tolerâncias e normas técnicas ainda não registradas e homologadas por entidades competentes.

Como não me considero e nem quero ser um chato, procuro ter muito cuidado com a possibilidade de tornar-me inconveniente, o primeiro grande passo para a chatice.

A cultura dos brasileiros anda abaixo da linha da pobreza. Dizer isso já é uma inconveniência, pois parece colocar-me num certo nível acima. Portanto é melhor estratificar a população e dizer que a cultura vai mal, digamos, entre a maioria dos nativos. Basta dizer que existe uma minoria, e põe minoria nisso, que tem um nível cultural pretensamente mais elevado e por isso são denominados e se autodenominam de "intelectuais".

Por força das circunstâncias profissionais, tenho levado a vida viajando pelo mundo. Não são, de forma alguma, aquelas viagens de intelectuais que vão meditar no Nepal ou de abastados que vão fazer compras de Natal na Gallerie Lafayete, não pelas compras, mas pelo relato da viagem a outros abastados. São viagens de caixeiro viajante, vendendo produtos brasileiros em outros países.

É claro que dessas andanças tenho agregado um interessante resíduo cultural. Conheci muitos povos e seus costumes, suas cidades e monumentos, seus museus, sua arte e sua história. O trabalho proporcionou-me muito mais do que o ganho pelos serviços. Deu-me um prêmio extra de conhecimentos, ou seja, de cultura.

Há poucos dias, tive mais uma oportunidade para constatar a inconveniência da minha cultura adquirida quando, num evento social, alguém falou: "…dizem que na Coréia…". É claro, para quem conhece, que retirar o "dizem que…" e contar como é a realidade do tema, é algo natural e sentido como uma colaboração a todos que estavam na conversa. Contei com vontade, com detalhes e com realismo.

À medida que dissertava, percebi que estava me tornando inconveniente e que o assunto foi perdendo interesse e provocando até um certo desconforto. Ou seja, começou a aflorar a inconveniência da cultura. E olha que o fiz com modéstia, com a ressalva de que a minha vida profissional me deu essa oportunidade e não uma conta bancária recheada como tantos que vão ao Disneyworld e dizem que conhecem os Estados Unidos.

Fui tornando-me, enfim, um chato. A razão da minha chatice, agora está ficando mais clara para mim.

A pouca gente interessa saber a realidade da comida na Coréia, se lá se casa e se separa assim ou assado, como se vestem, como se comportam, se trabalham muito ou pouco, o que tem nos seus museus ou se tudo acaba em karaokê. O que interessa é ficar no mistério, no encantamento do desconhecido, no "…dizem que lá é assim…".

Minha cultura inconveniente estava demolindo o mistério e a cultura de alguém que sonhava um dia ir vê-lo.

A globalização está acabando com os mistérios e, de certa forma, tornando tudo accessível e igual. Pequim já não tem o encanto que tinha. Nem o Japão, nem a Austrália.

Da maneira que as coisas vão, o melhor é viajar para assistir o time do Barcelona jogar ou brincar em Disneyworld.

Observação

O presente ensaio é uma resposta, ou eco, à proposição realizada por Altair Pivovar, em seu texto Motivos não faltam, publicado na Educação em Pauta de 12 de dezembro de 2004.

Eis a transcrição de trecho do texto Motivos não faltam: "E foi pensando nesses inúmeros modos de promover interação que a Educação em Pauta, a partir desta edição, está solicitando aos leitores que encaminhem relatos dos quais tenham participado diretamente ou que tenham presenciado como espectadores privilegiados. Toda semana, o jornal vai selecionar um desses causos e publicá-lo nesta seção, abrindo um canal de troca de experiências entre os educadores. Por razões de espaço editorial, o relato deverá ser o mais breve possível. Vai aí já um excelente exercício de escrita, que, no caso de professores, pode ser compartilhado com os alunos, e nos pais, com os filhos: selecionar no universo lingüístico disponível a melhor maneira de enxugar uma narrativa sem perder a força expressiva do relato."

Jairo Almeida é diretor de marketing e comércio internacional