Desemprego em alta, discrepâncias profundas entre teoria e prática, um certo marasmo que não pode ser confundido com falta de vontade política, denúncias de gastos inadequados com viagens no primeiro escalão do governo, problemas de natureza ética. E, agora, essa “bomba sindical” que coloca o presidente Lula no centro de um furacão já comparado a Watergate – a espionagem eleitoral que derrubou o presidente norte-americano Richard Nixon, em 1974.

Não precisa mais. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pode aceitar o conselho do governador Germano Rigotto, do Rio Grande do Sul, para quem um ex-presidente não deve ficar batendo boca com seu sucessor. Que os outros o façam. FHC deve cuidar dos netinhos e se ocupar de suas conferências, livros e memórias. Cuidar dos netos é uma tarefa nobre, segundo acabam de descobrir no Congresso Nacional. Fazer conferências rende bons trocados e belas viagens. Quanto aos livros e memórias, sobrando tempo, eles também fazem bem ao ego e preservam a história vista da janela de quem a escreve. A posteridade agradece.

Quem vai ter que explicar o que aconteceu – sem tergiversações ou falsos debates como esse entabulado com FHC – são os protagonistas do governo atual, embarcados na canoa da paz e amor enquanto nos porões da mídia eleitoral promoviam a guerra. O sindicalista Paulo Pereira da Silva, uma vez candidato a vice-presidente na chapa do atual ministro Ciro Gomes, tem mágoas, vergonha na cara e, como diz, não sofre de amnésia. E com razão. Nem se sente mais conselheiro de Lula, seu arquiadversário na correlação de forças ideológicas do complexo arcabouço sindical brasileiro. “Por muito menos que isso, Nixon caiu”, fulmina Paulinho ao lembrar do inferno em que foi transformada sua campanha.

Nós também lembramos. O sindicalista que queria ser vice foi acusado de muitas coisas feias e indignas para um homem público: adquirir fazenda superfaturada no interior paulista para o programa Banco da Terra do Ministério da Reforma Agrária; desvio de verbas do Fundo de Amparo ao Trabalhador e, além de outras práticas menores, acusado de tentativa de suborno. Pensava Paulinho que o promotor da baixaria fosse o candidato tucano José Serra. Teve vontade de esganá-lo e agora descobre que quem batia no presidente da Força Sindical (1.860 sindicatos filiados, agrupando cerca de 16 milhões de trabalhadores) era o sindicalista ao lado, isto é, Lula e seu alto comando, formado basicamente por integrantes do PT e da vizinha CUT – a central que nunca foi única e da qual se aparta a Força num momento de campanha salarial unificada.

E enquanto FHC cuidar de seus netinhos, no Congresso Nacional o clima, que já não era bom, piora. O governo – que na semana passada viu deputados vestidos de médico para ironizar o descaso orçamentário com a Saúde Pública – precisará agora vestir sua tropa de choque com trajes dos bombeiros para tentar apagar um incêndio que ninguém sabe ainda em que telhados todos haverá de brotar. Pode acontecer a instalação de outra CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito, revolvendo toda a estratégia que embalou Lula na direção das rampas do Planalto. O assunto é grave e, pelo que denunciou a revista Veja, tem o correspondente ao fumus bonis iuris – os sinais de fumaça que indicam ser o fogo verdadeiro. O fato de ter acontecido com o PT, cheio de ética, não melhora nem piora o grau da pena que, tudo apurado, precisa ser aplicada sem dó nem piedade aos culpados e executantes todos, para que não se repitam em outras campanhas, seguramente também não imunes a baixarias semelhantes.

É de se lamentar, entretanto, que o País, mergulhado em tão graves problemas sociais, passe agora a gastar suas energias para curar mais essa ferida.