Não do eventual gosto presidencial por bebidas, mas de sua reação diante dos que ousam pensar sobre assuntos menos agradáveis, fala o mundo. De um momento para outro, o Brasil do Fome Zero foi substituído pelo país da crítica zero – um território em que é proibido, sob pena de reprimenda pública e expulsão, exercer o saudável direito de opinião que robustece as democracias. Estamos humilhados, envergonhados e ainda não convencidos de tudo o que está acontecendo. Por tão pouco, mergulhamos de volta nas sombras de um período ditatorial e, de quebra, perdemos a autoridade moral de negar o que, cá e lá, falam de nós de maneira leviana.

A expulsão do jornalista Larry Rother, a serviço de um dos principais jornais do mundo, deve “servir de exemplo” à imprensa “irresponsável e maldosa”, sentenciou o presidente Lula da Silva, mesmo depois de perceber o exagero da reação do governo a um mero artigo de jornal, cujo conteúdo sequer foi isentamente digerido. “É minha autoridade que está sendo questionada”, irou-se o presidente. E pronto o incidente universal, rotulado de truculência e “monumental estupidez”. “Se eu não tomasse essa medida, qualquer outro jornalista de qualquer país poderia fazer o mesmo, sem preocupação com punições”, teria justificado o magoado presidente, completando: “Se ele pedir o visto, será negado. Esse jornalista não fica legalmente no País”…

Primeiro, o País não pertence a Lula. Ele é apenas o presidente de plantão. Tem o nosso apreço, pela maioria foi eleito, defenderemos enquanto for possível seu mandato constitucional, mas imaginamos sempre que vivemos sob o império da lei. Segundo, não convém que jornalistas trabalhem sob a preocupação da ameaça de punições. Isso é coisa de ditadores. E ditador Lula não é. Terceiro, legal ou ilegalmente, as informações sobre o Brasil correm o mundo, assim como correram na época da ditadura sem internet. Alguém precisa dizer a Lula, e convencê-lo, que ele não conseguirá tapar o sol com a peneira de seus conceitos mal elaborados.

A decisão do presidente – e dizem que foi rigorosamente tomada de forma pessoal -constrangeu os próprios companheiros petistas que o cercam. E que pedem reconsideração. Misturou sentimento nacional com mágoa pessoal. Deu no que deu. Pouquíssima gente no Brasil lê The New York Times. Quase ninguém. Mas todos acabaram sabendo o que Leonel Brizola jura ser verdade verdadeira. E já antiga.

Além dos odores etílicos, o mérito da questão, entretanto, agora passa a ser outro. E desse mérito surgem lições importantes para governantes e governados. O Brasil e os brasileiros acordam para um debate que, em função de diversos sinais emitidos, já era preciso. Não é só notícia boa ou positiva que faz do bom jornalismo missão completa. “O dever de aceitar as críticas vem com o cargo”, ensina a Federação Internacional de Jornalistas – FIJ, sediada em Bruxelas. Ficamos sabendo também que, pelo menos na aparência, tínhamos um compromisso com a liberdade de imprensa. Mas se um jornalista estrangeiro tem seu visto cancelado, “que podem esperar os jornalistas brasileiros?”.

Responder a esta última pergunta, também da FIJ, é assunto que interessa de perto a todos quantos, no Brasil, se dedicam à causa de informar e, por conseguinte, de todos quantos precisam ser informados. Sem pressões, castigos ou ameaças, com a responsabilidade advinda da própria publicidade de seus atos. O “exemplo” esgrimido pelo presidente Lula não pode ser levado em conta, a menos que estejamos mesmo a caminho dessa republiqueta – alhures lembrada – das bananas. De que o mundo inteiro ri. O melhor que podem fazer no Planalto – embora agora o estrago já esteja feito – é voltar atrás, pedir desculpas e convidar o jornalista para um… trago. Por que não?