Há muito tempo já se falava em irregularidades na distribuição dos benefícios do mais importante programa do governo federal – o Fome Zero que, já devido a problemas múltiplos, mudou de nome para Bolsa-Família. Mas precisou que o assunto assumisse proporções de epidemia e ganhasse a mídia nacional (principalmente a eletrônica) para que o Planalto reconhecesse os fatos e tomasse alguma providência. As medidas até aqui anunciadas, entretanto, são pífias e a nação espera mais cuidado. Como diz a sabedoria popular, roubar de pobre é crime dobrado.

No Bolsa-Família, que distribui dinheiro vivo sem exigência de nenhuma contrapartida dos beneficiários, tem de tudo. Gente que precisa e não recebe nada, embora cadastrada; gente que não precisa e recebe. Tem cartão emitido e não entregue para o destinatário, mas em uso por terceiros sequer cadastrados que vão ao banco e voltam de bolso cheio. Há quem receba, inclusive, mais de uma vez. Há indícios até aqui não explicitados – aguarda-se o que pensa a Justiça – de uso do programa para fins político-partidários, como se viu alhures às vésperas da eleição em curso. O Bolsa-Família, enfim, com fins tão nobres e humanitários, virou a extensão do saqueio já visto em outras áreas, afins ou não, como a previdenciária. Mas se no atacado da Previdência Social o roubo continua às barbas de toda a vigilância especializada, no varejo do Fome Zero a pequena corrupção é praga de gafanhotos em roça de milho verde. De real em real vão-se os milhões.

Não se tem conhecimento do que pensa a respeito o presidente Lula, o maior defensor dessa discutível forma direta de distribuição de renda. Depois de tudo o que anunciou e disse desde a posse, deve estar imaginando o estrago que tanta denúncia pode causar às pretensões de estabelecer como marca sua um Fome Zero mundial alicerçado no imposto de ricos.

Se Lula reflete em silêncio, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, justifica em voz alta. Entende que, apesar da roubalheira explícita, o programa deve continuar. Ele disse aos militares, durante recente almoço, que, apesar dos desvios, a maior parte das pessoas para as quais o programa é destinado é beneficiada. Assim, sob sua generosa ótica, é melhor que haja uma percentagem de desvio de programa do que não existir programa algum para beneficiar as famílias carentes. Pode ser.

Ninguém imagina um cenário completamente livre de corrupção num Brasil tão grande e tão marcado pelo aproveitamento indevido de recursos públicos. Mas o ideal seria que o governo não se desse por vencido e, pelo menos, tomasse mais cuidado ao repassar dinheiro a pobres e carentes e hipoteticamente famintos. Não há muita diferença entre o Lalau do Fórum Trabalhista de São Paulo e os milhões de Lalaus espalhados pelas grotas e cafundós da nação.

O que não vale é a recorrente tentativa de distribuir culpas a terceiros, como se no Planalto ninguém respondesse por nada. Os benefícios sociais são distribuídos seguindo um cadastro cuja base o governo Lula herdou do governo anterior – está certo -, mas não faz mais sentido algum o argumento dos que se apressam em sugerir que tudo faz parte da mesma “herança maldita” exorcizada, mas seguida à risca, inclusive na área econômica. Se assim é, há que se negar os méritos de qualquer iniciativa também no campo social, onde as coisas pioraram, conforme a avaliação de alguns atentos especialistas. Hoje a pobreza não precisa provar nada – nem no campo escolar, nem no campo da saúde, como uma vez – para sacar os benefícios unificados. Isto é, não há, nem se exige, contrapartida. Como se deduz das denúncias apresentadas, não precisa sequer provar que é pobre. Dizer que os culpados seriam os prefeitos, lá na ponta extrema, é, igualmente, ridículo. Ou o governo dá rumo certo ao Fome Zero, ou seu principal programa empareda seu governo em rumo indesejado.