Enfim, e quase tardiamente, o governo e as forças que o apóiam no Congresso Nacional (remuneradamente?) decidiram não mais lutar contra a CPI dos Correios. Foi preciso a denúncia, não provada, mas acreditada, de que deputados eram comprados para dar apoio ao governo – fato que espalhou insuportável mau cheiro no ambiente político e denegriu a imagem do situacionismo – para que este cedesse e passasse a admitir que, além do âmbito policial, também no político, via comissão parlamentar de inquérito, investiguem a corrupção na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e em outros organismos do Executivo. Insistir em bloquear uma investigação significaria uma tácita confissão de culpa e medo de que toda a verdade venha a lume, embora seja certo que esse tipo de instrumento é sempre privilegiada tribuna para uma oposição ansiosa por atacar o governo.

Surge, quase que concomitantemente, a denúncia feita pelo presidente nacional do PTB, deputado fluminense Roberto Jefferson, da mesada que o governo, via PT, viria pagando aos ?aliados? para que votassem favoravelmente nas propostas situacionistas. Nada provado. Tudo provável. Mais uma vez, as forças governistas tentam evitar uma CPI, a mesma ou uma nova, para investigar o chamado ?mensalão?. E, mais uma vez, a turma petista caminha por linhas transversas, errando o rumo.

Seria mais razoável que fossem montadas duas CPIs, pois por definição este é um instrumento investigatório que exige fato definido. E há pelo menos dois fatos definidos: a corrupção nos Correios e o mensalão. Portanto, indicação para duas comissões parlamentares. Mas segundo o conselho ?sábio? do presidente da Câmara dos Deputados, o já folclórico Severino Cavalcanti, a tendência é que o mensalão não seja brindado com uma CPI, mas com uma investigação interna no próprio parlamento. Seria, dizem os que apóiam este estranho caminho, uma questão interna do Congresso e, portanto, dispensável o inquérito parlamentar.

É distorcer a verdade para que surja amainada, como uma espécie de puxão de orelhas, quando se exigem punições severas para os que sejam culpados ou estejam envolvidos no escândalo. Como imaginar que o mensalão seja uma questão interna da Câmara se significa um pagamento feito por um poder, o Executivo, a membros de outro poder, o Legislativo? Culpados seriam só os que receberam a mesada, dobrando-se à corrupção de forma passiva? E a corrupção ativa, que teria sido executada pela tesouraria do PT, em nome do governo?

O caso aponta para um corruptor ativo (o governo, via PT) e corrompidos passivamente (os parlamentares do PP e PL). É bem mais que uma questão interna. Mais que no caso dos Correios, este exige e até impõe a criação de uma CPI. No mais, o mau cheiro já está tão forte e se espalhou tanto que pior não pode ficar, com uma, duas ou mais CPIs. E ainda investigações da Polícia Federal e do Ministério Público, que, diga-se de passagem, vêm sendo, neste Brasil de ?mudanças?, os principais e mais eficientes instrumentos de moralização da vida pública.