A partir de amanhã a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga a remessa de dólares ao exterior, CPI do Banestado, deve entrar numa nova fase de trabalho, com a convocação para depor de pesos pesados da economia e da política brasileira. A comissão analisa, nesta quinta-feira, requerimentos de convocação do ex-governador Paulo Maluf, do ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, do presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb, do diretor de Política Monetária do Banco Central, Luis Augusto Candiota, e do presidente da empreiteira Mendes Júnior, Murilo Mendes, entre outros. Até o momento, a CPMI tem restringido os depoimentos a técnicos e diretores de bancos.

No depoimento de hoje, o ex-coordenador administrativo-financeiro da empreiteira Mendes Júnior, Simeão Damasceno, afirmou que a empresa realizou um caixa 2 durante anos. Sugeriu ao parlamentares a convocarem o presidente da empresa, Murilo Mendes, e a diretoria para prestarem esclarecimentos sobre supostos pagamentos de propinas que eram remetidos ao exterior por doleiros. Ele confirmou ter participado do esquema montado da seguinte forma: a diretoria da empresa lhe passava bilhetes com códigos e valores. Os cheques eram encaminhados a doleiros que cuidavam de remeter ao exterior os recursos oriundos de superfaturamentos.

Damasceno negou conhecer o nome das pessoas beneficiadas, uma vez que eles estavam relacionados aos códigos. Questionado pelos parlamentares sobre os documentos, inclusive os bilhetes enviados pela diretoria da Mendes Júnior, o ex-funcionário da empresa afirmou que todos seus arquivos pessoais desapareceram em um seqüestro-relâmpago e quatro assaltos que sofreu.

A ambigüidade com que conduziu seu depoimento irritou vários parlamentares. Num determinado momento, Simeão Damasceno chegou a afirmar que se fosse ?tomar por base o que se falava nos bastidores, na hora das cachaçadas, teríamos que investigar todos os governantes?. Ele foi repreendido pelo senador Heráclito Fortes (PFL-PI) para que se abstivesse das ?cachaçadas? e apresentasse provas das acusações feitas.

Numa delas, ele disse que a obra da avenida Água Espraiada, em São Paulo, poderia ter sido executada com R$ 250 milhões. Realizada na gestão do ex-governador Paulo Maluf, a obra foi executada pela Mendes Júnior por R$ 800 milhões. O Ministério Público de São Paulo já comprovou o desvio de, pelo menos, R$ 200 milhões nas obras de Água Espraiada. Com base nesta afirmação, o senador Antero Paes de Barros vai propor a acareação entre Damasceno e o presidente da Mendes Júnior, Murilo Mendes.

Já os requerimentos de convocação do presidente do Banco do Brasil e do diretor do Banco Central foram pedidos à CPMI pelo senador Arthur Virgílio Neto. Ele deu informações à comissão de que Cássio Casseb e Luis Augusto Candiota teriam remetido dólares ao exterior, em 1999, às vésperas da mudança do sistema de banda cambial para câmbio livre.