Mais um mandato presidencial chega ao término e o eleitor volta a ser convocado para escolher o novo presidente da República, governadores estaduais e componentes das assembléias, Câmara dos Deputados e Senado. Nos últimos dias, a disputa, que parecia pender para o candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, acirrou-se tanto que os observadores passaram a ver a probabilidade do segundo turno.

No final da noite de hoje teremos, se não certeza absoluta, a impressão quase definitiva do desfecho de uma corrida emocionante em suas derradeiras jardas, na esteira do ignóbil escândalo da compra de um dossiê contra José Serra, candidato do PSDB ao governo de São Paulo, desmontado pela apolítica Polícia Federal.

Oprimido pela falta de escrúpulos e retidão moral, para não falar do princípio da lealdade, de pessoas nas quais depositou confiança, Lula viu a oportunidade de ser eleito no primeiro turno tornar-se bastante volátil. Todos os envolvidos no escândalo pertencem ao Partido dos Trabalhadores e ocupavam posições de destaque numa espécie de governo subterrâneo, já que raras vezes apareceram em público. Uma característica do grupo é a experiente militância sindical, fonte-mãe do recrutamento dos homens de ouro do presidente.

A PF e, na seqüência imediata, o jornalismo investigativo foram levantando novas facetas do ato estabanado e a posição de Lula sofreu a ação corrosiva da estupefação, a ponto De os operadores políticos aconselharem o não-comparecimento ao debate promovido pela Rede Globo de Televisão, na última quinta-feira. Só com a revelação dos resultados das urnas é que teremos a avaliação precisa dos danos causados por Freud Godoy, Jorge Lorenzetti e demais energúmenos convocados para atuar nos socavões do Planalto.

As últimas voltas do percurso injetaram novo alento no candidato tucano Geraldo Alckmin, tornando menos remota a perspectiva do segundo turno, embora a distância mantida por Lula fosse um tremendo obstáculo a ser suplantado. A chance de Geraldo seria contar, no momento final, com a força multiplicadora dos eleitores das regiões sul e sudeste, num esforço inaudito para estreitar a vantagem de Lula no norte/nordeste, e provocar a segunda rodada.

O súbito escândalo acabou desviando o foco de recorrentes problemas socioeconômicos que afligem a maioria da população brasileira, cujas soluções são demoradas e/ou inexistentes. Destarte, esgotou-se a oportunidade de ouvir do presidente e candidato à reeleição o embasamento de seu projeto para o segundo mandato. O debate teria sido excelente meio para satisfazer o anseio popular, mas Lula preferiu refugiar-se no silêncio.

Político forjado na discussão aberta e intimorata, desde os tempos do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e da formação do Partido dos Trabalhadores, Lula aumentou o passivo da desconfiança de muitos ao fugir do que mais lhe rendeu dividendos para o sucesso político: debater com os adversários. Nesse momento, Lula é uma sombra do que já foi. Resta saber agora o que vão dizer as urnas deste domingo.