A vida de 237 famílias que moram em situação de risco na Vila Ilha do Mel, no Uberaba, começou a mudar nesta quinta-feira. Elas participaram da assinatura de contratos com a Cohab e poderão iniciar a ocupação dos lotes do Moradias Sambaqui, no Sítio Cercado. "O documento dá às famílias uma nova condição. Elas deixarão de ser ocupantes de uma área irregular sujeita a alagamentos e terão um terreno para morar com toda segurança", explica a presidente da Cohab, Teresa Oliveira.
A assinatura dos contratos faz parte dos preparativos para a relocação de moradores que hoje estão na margem do rio Iguaçu, numa das vilas que compõem o bolsão conhecido como Audi/União, uma das maiores e mais complexas ocupações da cidade. Com um total de 2,8 mil domicílios, o bolsão está recebendo atenção do programa habitacional do município, com uma intervenção gradativa.
A atuação nos diversos pontos da área observa as características de cada Vila, com soluções diferenciadas. A relocação da Vila Ilha do Mel, por exemplo, dará seguimento à desocupação da margem do rio, iniciada em fevereiro do ano passado, com a transferência de 335 famílias da Vila Yasmin para o loteamento Jardim Irai. Outro trecho do bolsão, batizado de Vila Jardim União, está sendo regularizado.
Os contratos assinados com a Cohab dão às famílias da Ilha do Mel autorização para ocupação dos lotes do Moradias Sambaqui. O contrato, de cessão não onerosa de uso, tem prazo de dois anos. Depois deste período, elas assinarão o contrato definitivo de aquisição das unidades e passarão a pagar pelos lotes. A carência de 24 meses servirá para que os moradores se estabeleçam e se estruturem no novo local.
Daniel da Silva, ensacador aposentado que complementa a renda trabalhando como pedreiro no mercado informal, festejou a assinatura do documento. Ele está em Curitiba desde 1969 e conta que, antes de ir para a Vila, sempre pagou aluguel. "Fiquei rodando de bairro em bairro até que fui parar na invasão", contou ele. Na Ilha do Mel, Silva enfrentou enchentes, mas sempre manteve a esperança de ir para um lugar melhor. "Será a primeira vez que terei alguma coisa minha para morar e uma herança para o meu filho", falou.
Maria Pereira Nunes e o marido José Firmino Moreira também estão animados com a mudança. Eles estão na Vila há cinco anos e chegaram a enfrentar enchentes com água pela cintura. "Lá no lote não passaremos mais por este tipo de situação", afirma Maria. Ela e o marido têm planos de mudar para o Sambaqui com a filha Daiane, de oito anos, logo após o Natal.
Valdirene da Silva Gonçalves, servente de condomínio, e o marido Luís Lopes da Silva, jardineiro, pretendem mudar com os três filhos o mais rápido possível. Eles foram duas vezes visitar o futuro lote e não querem esperar muito tempo para providenciar a mudança. Estão morando há cinco na Vila Ilha do Mel e moram numa casa de madeira. "Agora vamos melhorar de vida", diz Valdirene. Infra-estrutura – O loteamento Moradias Sambaqui, que irá receber os moradores da Vila Ilha do Mel, está localizado junto a outro empreendimento da Cohab, o Moradias Novo Horizonte. O local já conta com duas escolas, uma creche e área de lazer, com canchas esportivas e parque infantil.
Com um total de 531 unidades, o empreendimento está sendo executado em etapas. A primeira delas compreende 192 lotes, executados com financiamento do programa "Morar Melhor", do governo federal. Outra etapa, com 177 unidades, têm recursos do Instituto Pró-Cidadania de Curitiba.
A execução gradativa da obra ocorreu em função da inexistência de recursos globais para financiar o projeto, que inicialmente seria implantado com verba do Fundo Estadual do Meio Ambiente (Fema). Um convênio, que garantia o repasse de R$ 3,5 milhões, havia sido assinado entre o governo do estado e a Prefeitura em janeiro de 2002, mas não houve cumprimento do acordo. Somente a primeira parcela, de R$ 1,5 milhão, foi liberada, ainda em 2002, para compra da área. Depois, não aconteceu o repasse necessário para as obras.
Os moradores da Vila Ilha do Mel que serão contemplados com os lotes foram identificados e cadastrados pelo serviço social da Cohab. As casas que estão na faixa de drenagem do rio foram numeradas para evitar que o local sofresse uma nova onda de ocupação. Todas as famílias foram entrevistadas para a elaboração de um perfil sócio-econômico da população.
A assinatura de contratos foi realizada no ônibus da Cohab (uma espécie de escritório volante que é levado até os bairros), estacionado numa escola próxima à Vila. As assistentes sociais acompanharam a movimentação das famílias, conferindo a documentação. Depois, elas foram atendidas por funcionários do Departamento Imobiliário da Companhia, que entregaram o documento que autoriza a ocupação dos lotes.