A Confederação Internacional dos Sindicatos Livres (ICFTU, na sigla em inglês) encaminhará ao G-7  o grupo dos sete principais países industrializados, a proposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se criar um fundo internacional de combate à fome e à pobreza.

A confederação pode fazê-lo em um caráter quase oficial, já que está representada no G-7 e no G-8 (G-7 mais a Rússia), em caráter consultivo. A informação foi dada hoje em Davos, no Fórum Econômico Mundial, pelo secretário-geral da ICFTU, Guy Ryder. ?Nós vamos pressionar os governos do G-7 e do G-8?, ele disse.

“Estamos por trás deste fundo, apoiando, e achamos que ele é uma idéia original e valiosa, porque tudo o que nós vemos do novo presidente no Brasil, tanto no seu país como o que ele está falando internacionalmente, é concebido para fazer uma diferença para as pessoas que estão na pobreza e na fome, e isto é exatamente a nossa visão”, disse Ryder, em entrevista à imprensa, realizada juntamente como John Sweeney, presidente da AFL-CIO, a maior central sindical norte-americana.

Hoje, representantes do movimento sindical global deram apoio à propostas do fundo global de Lula, feita durante o seu pronunciamento no Fórum Econômico, ontem (26). Num comunicado comum, a AFL-CIO e a ICFTU declararam que “os sindicatos globais estão se comprometendo hoje a apoiar uma ‘nova agenda de desenvolvimento global compartilhado’ apresentada no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, por Lula, o novo presidente do Brasil”.

“Eu acho que a sua proposta (do fundo global) é excelente, e Lula está colocando em prática a agenda que mostrou na sua campanha para presidente”, disse Sweeney. Para Ryder (que se encontrou com Lula em Davos, assim como Sweeney), independentemente do fato de o fundo idealizado por Lula ser concretizado ou não (ele pessoalmente acha possível), a proposta “vai concentrar as mentes dos principais atores globais na sua responsabilidade coletiva de atacar o problema da pobreza e da fome mundiais”.

Para o líder sindical, o mundo pode aprender uma lição com o programa Fome Zero de Lula no Brasil, pelo qual, na sua visão, o governo assumiu a responsabilidade, em relação às pessoas mais pobres e os famintos, do País de conseguir mudar as suas vidas “hoje”. “Ele disse que nós não podemos esperar, e o que é particularmente impressionante no Lula é que ele está determinado precisamente a não deixar que todos os atrasos e todas as distrações da política o impeçam de fazer aquilo que ele deve fazer.”

Ryder disse que a postura de Lula faz com que sua idéia não possa ser classificada como um “mais um programa”, mas sim como uma nova dimensão que o presidente do Brasil está procurando trazer às relações internacionais. Na área das relações comerciais entre os países, porém, a entrevista com Sweeney e Ryder mostrou que há potencialmente conflitos entre representantes de países desenvolvidos e em desenvolvimento, caso a agenda proposta por Lula em Davos seja de fato posta em prática. No pronunciamento, o presidente brasileiro criticou duramente o protecionismo dos países ricos, e prometeu ser “briguento” nesta disputa, com a mesma disposição que demonstrou nas lutas sindicais.

Sweeney, porém, defendeu a proteção à indústria de aço nos Estados Unidos, embora tenha dito que isto não significava o apoio exatamente ao conjunto de medidas tomadas naquele sentido pelo presidente George W. Bush, e que enfurecereu não só a União Européia, mas também muitos países em desenvolvimento – entre os quais o Brasil.

“Nós assistimos ao declínio da indústria de aço nos Estados Unidos, e a um número espantoso de falências e demissões”, disse Sweeney, procurando justificar sua posição. Ryder, por sua vez, foi bem mais cauteloso em relação à questão do protecionismo. Ele explicou que a defesa pela ICFTU de padrões trabalhistas mínimos, a serem aplicados internacionalmente, “não significa a equalização dos salários”.

Ryder disse que a sua organização tem claramente a noção de que os padrões trabalhistas não podem inviabilizar a vantagem competitiva das nações mais pobres, de ter uma força de trabalho que ganha menos do que a dos países ricos.

Segundo Ryder, os padrões mínimos têm a ver com condições básicas de dignidade e de segurança no trabalho, e com a liberdade sindical e de realização de negociações coletivas. Citando o fato de que Lula tem um histórico de defesa das condições de trabalho e de preocupação com os pobres e miseráveis, o secretário-geral da ICFTU observou que a sua organização vai ter uma afinidade especial com o governo brasileiro, porque também busca conciliar aqueles dois objetivos.