O último programa político do PT divulgou várias comparações chinfrins entre os governos Lula e FHC, mas não disse que em 31 de dezembro de 1994 (final do Governo Itamar Franco) a dívida pública era de R$ 64 bilhões e que Fernando Henrique alçou-a para R$ 850 bilhões em 31 de dezembro de 2002, sem que realizasse obra de vulto alguma, tipo hidrelétricas de Itaipu ou Tucuruí, auto-estrada ou ferrovia. Maior parte dessa dívida resultou de transferência de renda da sociedade para os bancos em função dos elevados juros.

O programa teve a ingenuidade de comparar o maior trunfo do período Lula o superávit na balança comercial de US$ 24 bilhões em 2003 -com a performance do último ano de governo FHC, quando deveria fazê-lo com o primeiro ano de FHC (1995) em que o país interrompeu a seqüência de superávites do governo Itamar e passou a registrar 5 anos ininterruptos de déficites, em virtude da manutenção do populismo demagógico do real sobrevalorizado, que favorecia as compras de produtos estrangeiros e sacrificava a exportação de nossos bens agrícolas e industriais.

O PT deveria ter escancarado as conseqüências dessa política desastrosa sobre nossas contas correntes em dólar, e poderia pelo menos cotejar o resultado positivo da balança comercial com a média dos oito anos de FHC, mas preferiu suavizar com 2002.

O PT omitiu-se sobre o incremento da carga tributária nos oito anos de FHC que passou de 28% para 34%. O PT nada disse sobre o governo FHC atrelar ao dólar 38% (setembro/2002) dos títulos públicos de nossa dívida interna, criando perigoso efeito negativo na avaliação de risco do país no exterior, e nesse tema poderia vangloriar-se que a gestão Lula diminuiu o percentual para 16%.

O programa do PT silenciou sobre o restabelecimento do BNDES como banco de desenvolvimento, contrastando com os desvios de orientação de FHC, que o tinha transformado em sede símbolo da privatização, da qual o exemplo mais vexatório foi a venda da Eletropaulo para a AES norte-americana, através de filiais nas Ilhas Caymam, com financiamento de US$ 1,3 bilhão, sem garantias reais. AES não pagou e o BNDES para não criar abalo no mercado foi compelido a transformar metade da dívida em capital na condição de sócio.

Palocci e Meirelles, presidente do Banco Central, na apresentação de seus gráficos sobre a macroeconomia fazem confrontações com o governo de FHC usando dados a partir de 1999 ou 2000, quando já estava em vigor o câmbio flutuante, iniciado em janeiro de 1999 que deu fim à inconsistência da moeda sobrevalorizada, âncora da reeleição de FHC em 1998. Aliás, o PT faz questão de não relembrar a fuga de bilhões de dólares no período que precedeu à previsível desvalorização do real.

A conta CC5, implantada pelo Banco Central presidido por Gustavo Franco, em 1996, com evasão de divisas de US$ 30 bilhões (CPI do Banestado), é assunto proibido para o PT.

Palocci bastante desenxavido culpou o Plano Real pelos déficites da balança comercial e pelos juros altos. Tenha paciência, Ministro Palocci. O Plano Real, concebido pela brilhante equipe de economistas reunida no Ministério da Fazenda por Fernando Henrique, que assumiu sua paternidade, bancado politicamente pelo presidente Itamar Franco, foi o que de melhor aconteceu até hoje no país para derrotar a inflação.

O erro consistiu em não corrigir os rumos após 1996, quando se deveria adequar a taxa de câmbio à realidade econômica do país. Outra falha gritante no 1º mandato de FHC foi não ter produzido superávites primários consistentes no orçamento e jogado no ralo dezenas de bilhões de dólares auferidos na privatização, que poderiam ter abatido substancialmente o passivo das contas governamentais.

Se quiser salvaguardar sua imagem, o Presidente Lula precisa determinar ao Ministro Palocci e ao José Genoino que só comparem o governo petista ao conjunto dos oito anos de FHC. Enfim, se Lula, Palocci e companhia exagerarem em poupar o antecessor presidencial correm o risco de assumirem sozinhos o ônus da dívida pública alcançar R$ 1 trilhão e das turbulências que vêm por aí.

Léo de Almeida Neves – Ex-deputado federal e ex-diretor do Banco do Brasil. Autor dos livros “Destino do Brasil: Potência Mundial, Editora Graal, RJ, 1995, e “Vivência de Fatos Históricos”, Editora Paz e Terra, SP, 2002.