Não sei o que é pior: Se a contribuição dos “idiotas” ou dos “dorminhocos” – para o caos do trânsito nosso de cada dia. Os primeiros não têm o menor apreço pela própria vida nem pela vida dos outros. Aceleram, avançam, costuram, fritam pneus… um perigo constante. Fujam deles, como o diabo da cruz! Os dorminhocos, por sua vez, “estacionam”, literalmente, defronte ao semáforo. Acendem um cigarrinho, olham para os lados, entortando o pescoço para acompanhar, por mais tempo, uma e outra nádegas rechonchudas. Falam despudoradamente ao celular. Olhe, seu moço! É por verdadeiro milagre que não acontecem mais acidentes nesse trânsito. Tira-se uma fina aqui, escapa-se de um choque acolá, e se vai levando.
Dizem as estatísticas que o número de motoboys mortos no trânsito é assustador. Não é, não. Pelo que eles – em sua grande maioria – fazem no trânsito, era para morrer muito mais. Reparem as manobras arriscadas, a velocidade em que trafegam, em ziguezague, por entre os veículos, desrespeitando sinaleiros, faixas, e tudo o mais que estiver pela frente. Será que eles, ao menos, sabem que a moto que pilotam se enquadra no gênero de “veículo automotor” – e justamente por isso sujeito às leis de trânsito?
E as faixas! Santo Deus, as faixas! Para que será que servem aquelas benditas faixas brancas traçadas longitudinalmente nas vias públicas? Muita gente – mas muita gente, mesmo! – ignora a finalidade daquelas faixas. Certo dia, achei muita graça de uma senhora… (Como é mesmo que se costuma denominar aquelas mulheres que usam maquiagem forte, roupas e adereços espalhafatosos?) que dirigia um importado, em minha frente, fazendo acrobacias na direção, distraída em sua prosa ao celular. Passava de uma faixa para outra e, em certo momento, quase deu uma trombada em meu carro, ao invadir minha faixa. Para prevenir, acionei levemente a buzina, em sinal de advertência. Ela, ajeitando os cabelos (com ambas as mãos!), e aceitando a buzinada como um galanteio de minha parte, desatou um sorriso de agradecimento, mas continuou a ameaçar-me com invasões em minha faixa. Achei mais prudente acelerar e escapar daquela situação de “risco” – no sentido concreto…
De outra feita, seguia eu para o clube. Como não tinha pressa, deixei o velhinho divertir-se à minha frente, brincando de passar de uma faixa para a outra, com seu corcelzinho marrom, sem importar-se nadinha comigo e com os numerosos motoristas que lotavam as ruas, naquela hora de rush. Tadinho! – pensei. Para lá todos nós iremos um dia… Um pouco de paciência e compaixão não faz mal a ninguém.
Mas, o provecto senhorzinho já estava abusando da autoridade que lhe outorgavam aqueles seus cabelos brancos. Até não sei se era pela falta de dentes, mas, para mim, ele parecia sorrir, zombando mesmo de minha paciência.
Quando o sinal fechou, ele emparelhou o carro dele com o meu. Então, não me agüentei:
– Boa tarde!
– Acho que ele não escutou direito, porque ficou me olhando assim, sem responder, com um certo jeito interrogativo…
– O senhor me desculpe, – continuei – mas o senhor está comendo faixa pra chuchu!
– Hein? Comendo o quê?
– Faixa, vovô, faixa! Esse traço branco aí na rua, tá vendo?
– Olhe, meu filho! Não sei nada disso, não! Só sei que a única coisa que tenho comido ultimamente é papa, entendeu? papinha de chuchu!
O sinal se abriu e nosso simpático velhinho foi-se embora, ziguezagueando, por entre as faixas, com certo ar zombeteiro, em seu lustroso corcel marrom.