Ele nasceu José Alencar Gomes da Silva, num lugarejo chamado Itamuri, distrito de Muriaé, nas Minas Gerais, décimo primeiro filho, de um total de 15, de Antônio Gomes da Silva e de dona Dolores Peres Gomes da Silva, pequeno comerciante, meio nômade, e dona de casa. Da mãe, recebeu a alfabetização, à luz de lamparina; do pai, guardou alguns ensinamentos que nortearam a sua vida.
Aos nove anos, Zé já era “um menino de balcão”, ajudante do pai; aos 14, arrumou o primeiro emprego longe de casa, na loja A Sedutora, de Muriaé. Recebia 300 cruzeiros por mês, pagava 220 de pensão e com o restante contratou professores para aprender matemática e português. As aulas eram aos domingos. A matemática foi um conselho do pai.
– Ele sempre falava para a gente: “Se você não puder estudar nada, estude matemática, para facilitar o raciocínio”. Era um homem da roça, mas um sábio – lembra o Zé.
Outro ensinamento paterno: “Meu filho, não se esqueça que o importante da vida é poder voltar”. Não no sentido de deixar uma porta aberta, mas no de voltar os olhos para o passado e não ter nenhuma vergonha dele. O velho Antônio realmente sabia das coisas.
Quando completou 18 anos, Zé achou que estava na hora de ter o próprio negócio. Pediu 15 contos emprestados do irmão mais velho e foi para Caratinga, abrir A Queimadeira, com direito a placa na porta: “Tecidos baratíssimos, de José Alencar Gomes da Silva”. Para economizar, o dono morava ali mesmo, atrás da prateleira.
Depois, mudou-se para Ubá – sempre nas Minas Gerais -, para salvar um negócio sui generis inventado pelo irmão, já doente: um sistema de venda de tecidos por atacado, adquiridos diretamente dos fabricantes e entregues prontamente nas lojas dos fregueses. Uma coisa meio maluca, mas que deu certo. Agora, são 11 fábricas de tecidos, que consomem 100 mil toneladas de algodão por ano e empregam um total de 16 mil empregados. É a segunda maior empresa têxtil do Brasil, com mais de 50% da produção exportada para os EUA e Europa.
Em 1998, Zé foi eleito senador por Minas Gerais. Teve a maior votação da história das eleições para o Senado em Minas. Com sua prosa mansa e cadenciada, muita simpatia e sinceridade, conduta transparente e sem perder de vista aquela possibilidade de voltar ao passado, ensinada pelo pai, José de Alencar é, hoje, uma das figuras mais dignas do Congresso Nacional, ouvida e respeitada, inclusive pelos adversários.
Neste ano eleitoral, todo mundo queria o Zé na chapa. FHC o convidou duas vezes para o ministério (“Não dá, presidente. Numa reunião do Conselho de Ministros, quando eu apresentar uma proposta, o senhor vai olhar para o Malan para saber se ele concorda. Ele vai dizer que não e eu vou ter de pedir o chapéu e ir embora.”); Serra queria-o como vice; Ciro e Garotinho, também. Pois o Zé optou por Lula.
– O Brasil é um país riquíssimo – costuma dizer. Tem solo e subsolo desconhecidos até pelos geólogos. Tem também um povo bom, pacato, generoso, trabalhador, inteligente e versátil. Então, por que é que nós não saímos dessa miséria?”, indaga.
Ele próprio responde: “Porque administramos mal os negócios do Estado, estamos entregando o Brasil, e não podemos admitir isso!”
Também achamos, Zé. Também achamos.
P.S. – A íntegra da entrevista de José Alencar está em O Pasquim 21, edição da 34.ª semana de 2002, ainda nas bancas. Imperdível.
Célio Heitor Guimarães é jornalista, advogado e propagandista do Zé.