Não são os preços que estão altos. Os salários é que são baixos. O cobertor é sempre curto. Se a gente puxa para cima, descobre os pés. Se empurra para baixo, descobre a parte de cima. E passa frio. Há mais reclamações contra os preços altos que movimentos conseqüentes em favor de salários mais adequados. E estes, quando não são pagos no nível merecido e chegam a provocar protestos e até greves, não significam necessariamente “pão-durismo” dos patrões, insensibilidade social ou cobiça desmesurada. Não raro, os salários são baixos porque os empregadores não têm condições de pagá-los mais altos. Isto porque têm um sócio, ou melhor, diversos sócios que são os governos. O federal, os estaduais e municipais que, através de impostos, taxas, contribuições, políticas de juros altos e retenção de recursos nos organismos desenvolvimentistas, negam à economia insumos que, se concedidos, fariam com que a massa de dinheiro destinada a salários se tornasse maior. Quem sabe, um dia, suficiente.

Os números da pesquisa de orçamentos familiares de 2002-2003, que acaba de ser divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) comprova que a renda média mensal de 85% das famílias brasileiras não é suficiente para pagar todas as contas do mês. Há mais mês que salário para a grande maioria das famílias deste País. Desse total, 27,7% sentem “muita dificuldade” para pagar todas as contas do mês. Outros 23,7% têm “dificuldades” e 34,6% confessaram que têm “alguma dificuldade” para chegar ao final do mês com a renda familiar.

Vê-se que somente 15% das famílias conseguem levar o dinheiro do mês até o final, pagando as despesas com “facilidade”. Entre estes, 8,9% têm “alguma facilidade”, 4,9% “facilidade” e somente 0,7% têm “muita facilidade”.

Levem-se em conta os hábitos de consumo de certas camadas da população, nem sempre dos melhores. Considere-se a existência do consumismo irresponsável. Enfim, façam-se com esses dados do IBGE todas as análises que possam servir de desculpa para a existência desse cobertor curto, mas a verdade é que a gente ganha pouco. E o governo, em todos os seus níveis e das diversas formas que tem e inventa, fica com a maior parte do dinheiro.

A conseqüência mais grave disso para o desenvolvimento é a nossa incapacidade de poupança, o baixo consumo e, como resultado, a falta de capitais para empreender e gerar empregos. Empregos que paguem mal. Quanto mais, empregos que paguem bem.

Mas o governo está trabalhando no sentido contrário, daí a grita contra o que seria sua política econômica. De fato, não tem política econômica, mas fiscal, na base de um aperto fortíssimo para gerar superávits que se destinam a pagar juros e, se possível, parte das suas dívidas. Já atualizar a tabela do imposto de renda seria política fiscal e também econômica, pois faria com que mais dinheiro ficasse nos bolsos do povo e nos caixas das empresas, gerando aumento de consumo e de produção. Seria política fiscal e também econômica. Mas o governo reluta, a despeito da promessa feita por Lula. Dar ao salário mínimo um aumento decente também seria política econômica, pois aumentaria o volume de dinheiro nas mãos dos consumidores, encompridaria o cobertor e aumentaria o consumo e a produção. Mas o governo não quer. Ele divide mal o dinheiro do País, ficando com a sua parcela e o pedaço do cobertor que falta para cobrir inteiramente 85% da população.