Brasília – O Palácio do Planalto e o Itamaraty iniciaram uma nova ciranda de embaixadores, que desta vez deverá envolver os dois principais postos do Brasil no exterior. Nos planos do governo, o experiente Roberto Abdenour, 42 anos de carreira diplomática, deverá deixar a embaixada do Brasil em Washington para seu colega Mauro Vieira, embaixador em Buenos Aires desde maio de 2004. As mudanças deverão se concretizar no início do próximo semestre, depois de todos os nomes receberem o aval dos governos dos países nos quais representarão o Brasil e de passarem pela sabatina na Comissão de Relações Exteriores do Senado e pela aprovação do plenário.

Em princípio, esta será a última dança das cadeiras de embaixadores do atual mandato presidencial. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, preferiu levar em conta o ritmo deste ano eleitoral – que terá impacto no calendário de sabatinas de embaixadores no Senado – e o cenário ainda imprevisível nas urnas para montar sua ciranda. De forma cautelosa, o Itamaraty espera também evitar os constrangimentos do último período de transição, quando o então presidente Fernando Henrique Cardoso deixou como herança para Luiz Inácio Lula uma série de designações para os postos-chave da diplomacia

Nos planos de mudança, os dois assessores diplomáticos dos governos de FHC serão atingidos. O veterano Gelson Fonseca, que foi embaixador do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU), destacou-se na reflexão de temas internacionais, deverá deixar a embaixada do Brasil no Chile para assumir o consulado-geral que o Itamaraty pretende instalar este ano em Madri. Para Santiago, já foi designado o embaixador Mário Vilalva, diplomata que empenhou-se nos últimos cinco anos em reconstruir a área de Promoção Comercial do Itamaraty. O sucessor de Fonseca como assessor de FHC, Eduardo dos Santos, deixará a embaixada do Brasil no Uruguai e seguirá para Berna, na Suíça.

Para Montevidéu, posto de relevância por conta da capacidade do governo uruguaio criar imbróglios no Mercosul, Amorim designou o embaixador José Eduardo Felício, que liderava desde o ano passado a subsecretaria-geral de Assuntos de América do Sul (SGAS). Para seu lugar, o chanceler pretende designar o embaixador Jorge d’Escragnolle Taunay, que atualmente já se desdobra com o processo de integração sul-americana como coordenador da Comunidade Sul-americana de Nações (Casa).

Na ciranda, também foi decidido que Frederico Araújo, atual embaixador do Brasil na Austrália e chefe de cerimonial do Palácio do Planalto na era FHC, seguirá para La Paz, na Bolívia, onde terá a delicada missão de conciliar os interesses econômico e políticos de ambos os países em pleno governo Evo Morales. O titular desse posto, embaixador Antonino Mena Gonçalves, ainda não tem destino certo. Para a Austrália, em princípio, será indicado o embaixador José Antonio Marcondes Carvalho, diretor do Departamento de Integração Regional do Itamaraty e responsável pelas negociações comerciais que envolveram o Mercosul desde 1998.

Em princípio, duas figuras emblemáticas da diplomacia deverão entrar na mesma ciranda. Todo-poderoso no Itamaraty, onde tem interferido diretamente na orientação da política externa e criado novos critérios para a transferência e a promoção dos diplomatas, o secretário-geral das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães, poderá assumir seu primeiro posto no exterior na condição de embaixador. Buenos Aires, na Argentina, é um alvo pleiteado há muitos anos pelo diplomata e que estaria vago com o possível embarque de Vieira para Washington. O veterano Ronaldo Sardenberg, ministro da Ciência e Tecnologia de FHC, tornou-se o representante do Brasil na ONU por vontade de Lula. No início do segundo semestre, deverá tornar-se a segunda figura emblemática a deixar seu posto.