Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Minas Gerais anunciaram hoje que conseguiram fazer uma alteração genética no mosquito da malária que eliminou sua capacidade de transmitir a doença. O inseto transgênico pode ser a solução para um problema mundial de saúde pública. Presente em quase uma centena de países, a malária infecta aproximadamente 500 milhões de pessoas por ano.

Por questões de segurança, o experimento da Fiocruz usou como modelo o mosquito Aedes fluviatilis, que transmite o parasita da malária das aves (Plasmodium gallinaceum). Os experimentos com a malária humana estão prestes começar e devem ser concluídos ainda neste ano. O P. gallinaceum é "primo" dos plasmódios causadores da malária humana (P. falciparum e P. vivax), transmitidos pelos mosquitos do gênero Anopheles.

O mosquito é alterado ainda na condição de ovo. Na teoria, o procedimento é simples. Na prática, porém, exige profundos conhecimentos de engenharia genética. Os pesquisadores introduzem dois tipos de DNA nos cromossomos dos embriões do mosquito Aedes. O primeiro DNA é apenas um marcador. Retirado de águas-vivas, ele deixa o mosquito fosforescente quando observado com lentes especiais. O objetivo é saber com rapidez se o DNA foi, de fato, inserido com sucesso no cromossomo do inseto.

O segundo DNA é o que realmente interessa. Trata-se do material genético retirado do veneno de abelhas. Agregado ao cromossomo, ele faz com que o organismo do Aedes produza uma proteína que impede o mosquito de transmitir o plasmódio causador da malária.

Um organismo transgênico, ou geneticamente modificado, é aquele que recebeu genes que não fazem parte de sua composição original Esses genes lhe dão características que não são naturais de sua espécie.

Transmissão

Um mosquito comum adquire o parasita ao picar uma pessoa doente. O plasmódio fica no intestino do inseto até cair na circulação, por onde chega às glândulas salivares. A doença se propaga quando o mosquito pica outra pessoa.

Por causa do DNA do veneno de abelha, no inseto transgênico os cromossomos estarão programados para produzir uma proteína que cercará o intestino e impedirá que o plasmódio caia na circulação para chegar às glândulas salivares. Ou seja, o mosquito se infectará com o parasita, mas não conseguirá contaminar outras pessoas.

Os pesquisadores da Fiocruz em Minas já têm cerca de cem Aedes fluviatilis adultos e perto de mil larvas. Observados com lentes especiais, todos têm os olhos fosforescentes – é a confirmação de que o material genético inserido artificialmente "pegou" e passou de uma geração para a outra.

Futuro

A idéia é que, no futuro, esses mosquitos imunes ao plasmódio se reproduzam e substituam os que transmitem a malária. "Mas, até lá, será um longo caminho", afirma o engenheiro agrônomo Luciano Andrade Moreira, que conduziu os estudos do Laboratório de Malária da Fiocruz. Segundo ele, é preciso comprovar que os mosquitos transgênicos não oferecerão problemas ao ambiente ou aos humanos.

Ainda não se sabe, por exemplo, se ao deixar de transmitir o plasmódio, o inseto passará a transmitir outros tipos de parasitas, como o da dengue. Também não se sabe se eles terão condições de competir com outras espécies e sobreviverão no meio ambiente.

"De qualquer forma, esse mosquito não será a solução para o problema", continua Moreira. "Para combater a malária, precisamos trabalhar com a conscientização da população, melhorar o atendimento na área de saúde e intensificar o combate ao mosquito vetor."

O experimento consumiu, em dois anos, cerca de US$ 40 mil. Além das verbas da Fiocruz, que é ligada ao Ministério da Saúde, parte dos investimentos veio da Organização Mundial da Saúde (OMS). Como envolve organismos geneticamente modificados, o estudo precisou da aprovação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

De acordo com a Fiocruz, esse foi o primeiro mosquito transgênico criado na América Latina. Os primeiros resultados de sucesso ocorreram em 2000, pelas mãos de pesquisadores de laboratórios europeus. Um estudo semelhante está sendo conduzido na Universidade de São Paulo (USP) pela bióloga Margareth Capurro. Esse experimento pretende criar mosquitos transgênicos para evitar a transmissão da malária e também da dengue.

No País, a malária é comum na Amazônia. Os sintomas são calafrio, febre, náusea e dor de cabeça. Em casos extremos, o doente pode entrar em coma. Não existe uma vacina com eficácia comprovada contra a doença.