A televisão mostrou, na última reunião de Lula com o empresariado, em Pequim, o ministro da Fazenda Antônio Palocci cochichando no ouvido do presidente. Estaria traduzindo alguma frase em chinês? Ou em economês? Mais provável a segunda hipótese, pois, ao que se saiba, o ministro não fala chinês. E Lula nada sabe de chinês e talvez apenas um pouco de economês.

Segundo o noticiário, Palocci estaria transmitindo a Lula a boa nova: a economia brasileira cresceu 2,7% no primeiro trimestre de 2004. Que bom, mas não ótimo. Tudo depende dos óculos que se usem. Um copo com água pela metade é, para os otimistas, um copo cheio até o meio. E para os pessimistas, um copo meio vazio. Se a gente olhar uma lagartixa com o binóculo, vê um animal enorme, um jacaré. Já um verdadeiro jacaré, visto com o outro lado do binóculo, parecerá uma lagartixa.

A notícia do crescimento de 2,7% da economia brasileira, no primeiro trimestre do corrente ano, é uma boa notícia. Mas nem tão boa que mereça tanto foguetório, senão vamos gastar os ganhos econômicos fazendo pum e tudo virará fumaça. O próprio ministro Palocci, em declarações posteriores à imprensa, pôs os pingos nos “is”, dizendo que 2,7% agora não bastam. Que é preciso que esse percentual de crescimento se repita por uns dez anos, para cantarmos vitória.

E, mesmo aí, cremos que Palocci, preocupado em não soltar foguetes quando o recomendável é estourar apenas uns traques, exagerou um pouco. Um crescimento dessa ordem, durante uns dez anos, seria muito bom, mas se descontarmos o crescimento demográfico do País, teremos conquistado um crescimento irrisório. O problema é que todos os dias nascem mais brasileiros.

O crescimento econômico mostra um Produto Interno Bruto maior. Mas se for dividido por mais gente, vai aparecer uma renda per capita ainda irrisória, diminuta.

No mais, essa conta de PIB e renda per capita não passa de um exercício aritmético. É somar o que se produz no País e dividir pelo número de habitantes. Chega-se à conclusão de que produzimos tanto por habitante. Não se leva em consideração a má distribuição da riqueza e a sua insuficiência. O Brasil é um país de meia dúzia de ricos e uma multidão de pobres. Uma divisão equitativa da riqueza nacional, em nome da justiça social, com os números de hoje, levaria a uma igualdade insatisfatória. Todos seríamos igualmente pobres.

O Brasil fechou 2003 com uma retração de 0,2%. Depois disso, o PIB cresceu 1,6% no primeiro trimestre de 2004, em comparação com o último trimestre do ano passado. Bom, mas não ótimo. A economia do Brasil também teve expansão de 2,7% neste primeiro trimestre, agora anunciada com foguetório, em comparação com o mesmo trimestre de 2003, ou seja, o início do governo Lula. Se não é insignificante, é pouquíssimo significativo. Lembremo-nos que nos últimos meses do governo FHC e no início do governo Lula a economia ia de mal a pior, descendo a ladeira, porque o mercado não confiava no presidente eleito. Ele era o líder esquerdista que falava em moratória, em calote, em socialização da economia e fazia visitas amistosas a Fidel e ao discutido e discutível presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Um aumento de 2,7% em relação àquele fundo de poço é quase nada. O cálculo dos 12 últimos meses mostra que a economia ficou estagnada. Estamos do mesmo tamanho.