O presidente Hugo Chávez amargou seu primeiro revés político depois de nove anos de poder na Venezuela, os últimos tempos marcados pela explosão de um inquestionável viés absolutista. O abalo de Chávez veio com a derrota sofrida no referendo realizado domingo, no qual a maioria, mesmo escassa, de 50,7% dos eleitores votou contra as propostas de reforma constitucional ?sugeridas? pelo presidente e pela Assembléia Nacional, dominada por aliados de Chávez. A favor da reforma votaram 49,29% dos eleitores, registrando-se uma abstenção recorde de 44,5%.

Logo após reconhecer a derrota e parabenizar os vencedores, Chávez atribuiu o fracasso à grande abstenção que fez com que quase a metade dos 16 milhões de eleitores habilitados ficasse em casa. Aliás, um indicativo real do desgaste da apregoada popularidade presidencial e, ainda, que cerca de 50% dos eleitores venezuelanos não estão convencidos das boas intenções do líder do socialismo bolivariano.

Dentre as medidas mais objetivas da reforma estavam a suspensão do limite de vezes para a eleição do presidente, fim da autonomia do Banco Central, controle das reservas internacionais e reestruturação territorial do país. Dos 350 artigos da Constituição aprovada em 1999, Chávez pretendia introduzir modificações em 69 artigos, afirmando que as mesmas eram indispensáveis para apressar a implantação do processo revolucionário.

Com a derrota, analistas da conjuntura política da Venezuela e do contexto latino-americano arriscam o prognóstico da desaceleração do ímpeto político do presidente Hugo Chávez, muito embora alguns admitam que o resguardo será passageiro e logo ele estará de volta.

A razão é simples: todas as frentes de luta abertas pelo voluntarioso bolivariano, cujo sonho é a restauração da América Latina num único Estado, continuam à sua disposição e, mesmo com o prestígio e a credibilidade pesadamente abalados pela derrota de domingo, Chávez voltará a acionar sua fértil artilharia verbal.

O mais aconselhável, nesse momento, para o presidente venezuelano seria um profundo reexame de um projeto essencialmente personalista, com o qual a maioria dos cidadãos – mesmo por pequena margem – não concorda. Outro ponto importante a absorver do referendo é que a oposição está viva e se manifestou de conformidade com os princípios democráticos que consagram o direito ao contraditório.