Que tal, caro leitor, se o presidente resolvesse “presidenciar” apenas se: os bandidos deixassem de “bandidar”, os invasores de terras, de invadir; os estudantes, de gazetear aulas; os contribuintes, de sonegar; os políticos (não precisa mais que isso), de fazer promessas “incumpríveis”; os traficantes, de traficar? Ou se: as estradas permitissem o fluxo tranqüilo de todos sem o sobressalto de buracos; os hospitais e postos de saúde atendessem a todos na hora que a doença bate; ou se – paraíso final! – todos os que precisassem trabalhar tivessem trabalho bom e bem remunerado?

Nem pensar. Não teríamos presidente “presidenciando”, não é verdade?

Mas o presidente Lula, ao chegar a Assunção, no Paraguai, para a inauguração da sede do Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul, insinuou que jornalistas só poderiam “jornalistar” caso… fossem a favor do Conselho Federal de Jornalismo. Mais: demonstrassem isso adrede e publicamente. “Se vocês começarem a defender o Conselho de Imprensa, eu dou entrevista para vocês”, condicionou o presidente da República.

Depois, ou quase ao mesmo tempo, com um sorriso, naturalmente procurou aliviar a questão, deixando claro que fazia uma brincadeira. A brincadeira, entretanto, não prosperou, quer pelo constrangimento pelo qual passaram alguns jornalistas, quer pelo conteúdo infeliz da imposição condicionante: a proposta do governo pela criação do Conselho Federal de Jornalismo, além de assunto antigo e sabidamente polêmico, foi enviada pelo Executivo ao Congresso (onde já existiam outras de semelhante teor) num momento infeliz, de propósitos no mínimo obscurantistas para um governo que se diz democrático.

Há pouco tempo o Planalto cassou a credencial (na prática, expulsou) de um jornalista estrangeiro apenas porque ele fez uma detida análise comportamental do presidente da República. Coisa que na França, Itália, Inglaterra, Estados Unidos (onde reviraram até os charutos que Bill Clinton usava em extravagantes felações de alcova com sua Monica Lewinski), etc., sequer moveriam uma palha. Não faz muito, também, Lula e seus ministros mais chegados andaram recomendando aos jornalistas o que fazer, dando conselhos acerca de notícias boas ou ruins e coisas do gênero, sem falar em tentativas de centralizar (para filtrar e sonegar) informações. Depois vazou a infeliz idéia do decreto em preparação para amordaçar todo e qualquer funcionário público em relação à imprensa – a mafiosa omertà no País inteiro – enquanto em outras áreas das liberdades, da cultura e das artes também pipocaram iniciativas contestadas pela sociedade e rotuladas como – digamos o mínimo – inconvenientes a um regime democrático.

Lembre-se também a tentativa, felizmente exorcizada a tempo, de instrumentalizar as verbas decorrentes das leis de incentivo à cultura. Não se esqueça, igualmente, outro decreto ainda em redação para “socializar”, no âmbito de inúmeros órgãos de governo, informações decorrentes da quebra de sigilo (bancário, telefônico, fiscal, etc.) determinado pela Justiça em casos específicos e para fins específicos, coisa inédita no Brasil e arredores, mesmo em tempos sombrios de pouca oxigenação democrática. Nem se fale aqui daquela outra iniciativa de criar milícias especiais com a desculpa de combate ao crime organizado – a mesma desculpa para a bisbilhotice geral pretendida – enquanto há sistemático corpo mole com relação ao crime de violação da propriedade privada…

Impor controles “extra legem” é, como se vê, uma idéia recorrente do pessoal que aí está. Tudo em nome da democracia (a mesma invocada para blindar denunciados e envolvidos em coisas não muito sérias), é claro. Esta, felizmente, vem resistindo bravamente. Mas até quando?

Por isso, aconselha-se ao presidente Lula evitar demonstrações públicas de seu despreparo para lidar com algumas questões. Brincadeira ou não, pouco interessa, o episódio fotografou seu pensamento. Que ele evite, pelo menos, essas fotos de chantagens.