Nove horas e cinco minutos da noite de 31 de março de 2005. O relógio de Dulcinea Sipriano parece ter parado há um ano. O som dos tiros vindo da rua e que ela ouviu naquele momento parece ecoar em sua casa até hoje. Ela ainda não sabia, mas um de seus filhos, Marcos Vinicius, um jovem de 15 anos de idade, acabava de ser assassinado na rua onde moravam, no município de Queimados, na Baixada Fluminense.

"Ele ia dormir, mas ele esqueceu o trabalho na casa da irmã mais velha. Ele colocou o boné, calçou o chinelo e foi para a casa da irmã, que mora aqui perto da minha casa. Foram menos de três minutos que ele saiu de casa e aconteceu o tiroteio. Estávamos eu e minha outra filha aqui e escutamos os tiros. Quando chegamos lá, meu filho estava caído no chão", conta Dulcinea.

Marcos Vinícius foi um dos 29 mortos nas cidades de Queimados e Nova Iguaçu, na noite de 31 de março de 2005, no episódio que ficou conhecido com a Chacina da Baixada Fluminense. Segundo o Ministério Público, pelo menos cinco policiais militares teriam saído pelas ruas dos dois municípios e, aparentemente sem qualquer motivo, atirado em vítimas escolhidas ao acaso. Apenas uma pessoa teria sobrevivido ao massacre que completa um ano hoje.

"Eles não deram chance de nada. Na minha cabeça, acho que meu filho nem viu quem atirou, porque o tiro parece que pegou pelas costas e entrou na cabeça. Acho que não deram nenhuma chance. Não perguntaram nada, já chegaram atirando", diz a mãe.

Depois de quase dois meses de investigações conjuntas entre a polícia e o Ministério Público, uma denúncia foi entregue à Justiça de Nova Iguaçu, em maio do ano passado. Onze policiais foram acusados de 29 homicídios duplamente qualificados ? por motivo torpe e por terem dificultado a defesa das vítimas ?, uma tentativa de assassinato e formação de quadrilha.

Até agora, nenhum dos responsáveis pela chacina foi punido. De acordo com o promotor do Tribunal do Júri de Nova Iguaçu, Marcelo Muniz, dos 11 policiais militares inicialmente citados no inquérito, quatro foram preliminarmente inocentados por falta de provas.
Outros dois, Gilmar da Silva Simão e Ivonei de Souza, só responderão pelo crime de formação de quadrilha, porque não teriam participado da chacina, apesar de pertencer ao grupo.

Apenas cinco deles vão responder pelos 29 homicídios, pela tentativa de assassinato e pela formação de quadrilha: José Augusto Moreira Felipe, Fabiano Gonçalves Lopes, Carlos Jorge Carvalho, Julio César Amaral de Paula e Marcos Siqueira Costa.

"Foi o próprio Ministério Público, por uma questão de critério, que pediu a impronúncia (inocência) desses quatro. O MP não é um acusador ferrenho, mas um fiscal da lei. Na medida em que percebe que a prova é insuficiente, ele não quer injustiças. Quanto aos outros sete, a prova existe no processo e é bem suficiente para que haja condenação", disse.

De acordo com o promotor Marcelo Muniz, o processo transcorreu com certa rapidez e, no máximo em dois meses, a Justiça deve marcar o primeiro julgamento. Enquanto isso, dona Dulcinea, a mãe do adolescente morto na chacina, e parte da população da Baixada aprendem a conviver com a violência e o medo do poder das quadrilhas que se instalam na área no vácuo deixado pelo poder do Estado.