Cenas de política explícita

O nível da combustão paroquiana do PMDB chegou a um ponto de saturação que pode ser fatal na reserva de confiança de seus eleitores. O partido realizou uma prévia para indicar pré-candidato próprio à Presidência da República com a participação de dois inscritos, o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, e o governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto. A disputa foi vencida por Garotinho, mas em liminar concedida pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Edson Vidigal, a iniciativa viu-se rotulada como simples consulta. Dessa forma, o partido não encontrou amparo jurídico para oficializar a candidatura, enquanto ganhava relevo a infindável peleja entre as facções histórica e governista. Comentou-se à época da liminar do presidente do STJ os estreitos laços de amizade pessoal e política entre ele e o senador José Sarney (AP), ferrenho opositor da candidatura própria, ao lado do presidente do Senado, o alagoano Renan Calheiros.

A cena sofreu mais uma mudança repentina, desta vez por conta da aprovação por uma câmara especial do mesmo STJ da convenção extraordinária realizada pelo PMDB, em dezembro de 2004, durante a qual o partido decidiu-se pelo lançamento de candidatura própria em 2006. Em outras palavras, o STJ ratificou a validade das prévias realizadas em março último e o ex-governador Anthony Garotinho, em greve de fome desde domingo, apesar de ter perdido uns quilos que não lhe farão falta, é o candidato do PMDB à Presidência da República!

Em meio a esse fogo cruzado, o eleitor tem razões de sobra para manifestar sua imensa dúvida. Afinal, qual é o caminho que o partido vai escolher? Terá ou não candidato próprio à sucessão de Lula? Outros poderiam estar se perguntando, também com razão, onde encontrar explicações plausíveis para compreender a maçaroca em que se meteu o grandioso partido de Ulysses Guimarães, Teotônio Vilella e Paulo Brossard, entre tantas outras figuras ilustres da política brasileira, em passado recentíssimo.

A pedido do governista Renan Calheiros, a executiva antecipou a realização da convenção nacional para o próximo dia 13, tendo a referida facção o objetivo declarado de incinerar a tese da candidatura própria. Tal perspectiva recebeu dose extra de reforço com a oferta levada ao PMDB, em pessoa, pelo ministro Tarso Genro, responsável pelo diálogo com os demais partidos, da vaga de vice-presidente na chapa liderada por Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a legislação eleitoral vigente, a convenção precisará de dois terços dos votos dos delegados para derrubar a proposta da candidatura própria, mas o senador Renan Calheiros afiança que a maioria simples será suficiente.

Do diretório regional fluminense do PMDB, onde faz seu jejum espontâneo, Garotinho segue comandando a arregimentação da militância partidária, com a lealdade sofrida e compartilhada pela amorosa Rosinha, mas quase nenhum outro correligionário. Desde ontem, para aumentar a dramaticidade de seu gesto, passou a anexar à lista não pequena das forças que a seu juízo não lhe deixaram alternativa mais digna senão a martirização pela fome, a ala governista do PMDB, condenando-a com acrimônia pela subserviência demonstrada ao governo.

Cenas brasileiras de política explícita no começo de um novo século…

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