O sindicalista Antônio Felício, presidente da CUT, saiu da primeira reunião do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva com a direção executiva nacional do Partido dos Trabalhadores dizendo que a central não abrirá mão da reivindicação de um salário mínimo de R$ 240,00 mais cinco por cento de aumento real. Pode estar aí, e não nas demais centrais sindicais e corporações reivindicantes, o primeiro desafio para Lula, já antes de assumir formalmente o governo.

É, no mínimo, sintomática a reação de Felício. Naquela reunião, Lula advertira a todos que o PT (de quem a CUT é reconhecidamente um braço forte), embora seja uma espécie de bússola de seu governo, terá que conjugar o verbo ceder. Ceder para governar. Com todas as letras, o presidente eleito deixou claro que vai separar o partido do governo na tentativa de conquistar os apoios necessários ao êxito que imagina lograr assim que sentar na cadeira presidencial. O Lulinha paz e amor não agradou a todos. Repetiu aos correligionários o que já havia dito à nação: não aceitará pressões para a indicação do ministério. Em vez de falar no plural nós, “vou ter que me acostumar a pronunciar eu”, disse Lula.

De fato, às vezes é preciso governar dando murros na mesa. E este foi, talvez, o primeiro murro de Lula. Além da reação do presidente da Central Única dos Trabalhadores, não se sabe os desdobramentos que terá. O novo presidente talvez descubra que, apesar do nome, a CUT não seja tão única quanto imagina.

Mas existem coisas mais sérias pela frente. Uma delas é essa costura já iniciada em direção ao chamado novo “pacto federativo” em que governadores de diversos partidos parecem ter passado falar a mesma linguagem: querem a renegociação das ingentes dívidas que têm com a União. Se acatado o pedido, isso significará um rombo ainda maior no Orçamento, já que significará um desencaixe maior de recursos canalizados para os estados que hoje amortecem débitos abrindo mão de parte das receitas. De Minas Gerais, onde Lula prometeu tratar o governador tucano eleito Aécio Neves como um governador do PT, ao Rio Grande do Sul, onde Germano Rigotto derrotou o candidato petista Tarso Genro, o pedido é um só.

Lula sabe que se não atender o principal pedido dos governadores vai ter dissabores pela frente. Afinal, nesse caso o PT pouco poderá lhe ajudar, já que comanda o governo em apenas três estados de menor expressão.

A palavra ceder, a essas alturas, significa muito mais que deixar para depois algumas reivindicações históricas que permeiam o discurso do partido. Das negociações para a composição das mesas da Câmara Federal e do Senado até a composição do pretendido Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (uma espécie de parlamento dois), Lula tem muito o que fazer. E ceder, naturalmente. Pois não vai querer substituir ou enfraquecer as prerrogativas do Congresso sem os naturais confrontos institucionais. O pacto social anunciado é muito mais que uma campanha por aumento salarial ou, mesmo, uma reforma tributária.