A casa dos anos 40s encravada na rua que, nos primórdios do Jardim Paulistano, na zona sul de São Paulo, se chamava das Lavadeiras e seria a mais humilde do bairro, tornou-se o espaço onde René Fernandes Filho se permite simplesmente ser. Do living logo na entrada, ao quarto no pavimento superior, os vãos, pequenos corredores e alguns degraus conectam cômodos erguidos em diferentes períodos – e que já foram lar de sete proprietários, como descobriu o arquiteto ao pesquisar a história do imóvel.

O resultado de certa descontinuidade arquitetônica dá marca singular ao local, assim como o pátio interno a que tudo se volta. Eis o território livre para o atual morador revelar seu estilo pautado por misturas de peças garimpadas ao longo do tempo e boas lembranças. "É meu mocó", brinca ele, que vive na casa há sete anos, mas a comprou há apenas dois.

O prazer de receber

Filho de um médico afeito a mimar bastante a família, Fernandes Filho poderia agir como um dândi, desfrutando tão-somente o lado fácil da vida. O curso de arquitetura na Faculdade Brás Cubas, em Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, acabou com essa possibilidade. No começo, ele confessa, nem ligava para as aulas, mas com o tempo, acabou fisgado por aqueles conhecimentos. Resultado: "Hoje sou mais voltado para o lado profissional do que para o social", afirma, embora considere que um não sobreviva sem o outro.

Nas recepções organizadas em casa pelo arquiteto, os convidados podem passear pelos ambientes e conferir a distribuição descompromissada do mobiliário e das obras de arte. "É uma casa vivida, que respeita referências diversas", comenta ele, para quem a regra é não ter regra ao pensar um espaço. "Não dá para ficar só plugado em Milão e, por exemplo, fazer cara feia quando o cliente aparece com o móvel francês ou a escultura brasileira comprada no interior", diz. "É preciso estar aberto a novos universos."

Feiras e brechós

No living, um piano de cauda se harmoniza com móveis de design arrematados nas feiras do Bexiga, da Praça Benedito Calixto, na zona oeste, e em brechós, caso do sofá Mole (da Arquivovivo), do consagrado Sérgio Rodrigues. Sem contar os itens de estimação – caso do fragmento de moldura de 1780 originário da Igreja de São Pedro dos Clérigos, em Mariana (MG) -, ou das telas assinadas por Ianelli e Leonilson.

Anexa fica a sala de jantar, com mesa oval Saarinen (da Forma), e das cadeiras Eames (na Etna). Logo depois está a cozinha integrada, de onde sai o corredor até a sala de TV. Sobre o colchão tipo marroquino, almofadas com desenho orgânico, criadas por Renato Dib. "Todo mundo gosta de se jogar aqui", diverte-se o dono. O espaço abriga ainda o escritório, o banheiro e o closet, cada qual com uma tonalidade para melhor setorizar. Entre os armários chama a atenção parte da coleção de chapéus do proprietário. "Devo ter uns 60…", arrisca ele.

Uma escada tipo caracol leva ao quarto, no qual a cama se junta a um ícone grego e à tela de Paulo von Poser (carvão sobre tela, com 1,25 metro x 2 metros, de 2005), uma entre várias assinadas pelo artista espalhadas pela casa. Outro xodó é a arca brasileira do século 18, que veio da casa dos pais.

Ar de interior

Com mesa e cadeiras para refeições ao ar livre, o pátio é um capítulo à parte. O paisagismo criado por Layla Fernandes, irmã do arquiteto, e remanejado pela amiga Bel Romero, cria a atmosfera de praça interiorana, com árvores frutíferas, como amoreira, pitangueira e jabuticabeira, além de outras espécies, caso das orquídeas. O lugar conta até com uma balança que – adivinhe só – é o canto preferido de René Fernandes Filho. "Gosto de me largar aqui e pensar na vida", conta ele, aos 45 anos bem vividos. (AE)