Sob a porta de um hospício catalão está escrito: aqui não estão todos os loucos, nem todos os que aqui estão são loucos.
Na Argentina, não estão todos os políticos que são ladrões nem são ladrões todos os políticos argentinos. Mas, numa explosão nada diplomática, o presidente do Uruguai, Jorge Battle, disse que “todos os políticos argentinos são um bando de ladrões”. E invocando o que disse o líder sindical Luis Barrionuevo, acrescentou que a solução para a Argentina é “deixar de roubar por dois anos”. Ladrões existem em todos os países, nuns mais e noutros menos. E é possível que em muitos, senão na maioria, ladrões estejam também na política.
As declarações do presidente uruguaio, por mais impróprias que sejam, em se tratando do presidente de um país falando sobre o país vizinho, são a opinião da maioria dos próprios argentinos. Quem acompanha o noticiário dos protestos e panelaços em Buenos Aires e outras cidades portenhas sabe que a opinião pública daquele país não é muito lisonjeira a respeito de seus políticos.
O presidente Jorge Battle explodiu numa entrevista à TV Bloomberg, pensando que as câmaras estavam desligadas e revoltado com perguntas que considerou impertinentes, feitas pelo repórter. É preciso conhecer o contexto em que foram feitas as explosivas declarações, para entender, mesmo que sem justificar, tanta agressividade do presidente uruguaio. Ocorre que o Uruguai foi contaminado pela crise argentina. O mercado internacional passou a desconfiar que o pequeno país seguiria os passos de seu vizinho, rumo ao caos. O governo de Montevidéu lutou muito para mostrar ao mercado a inexistência dessa simbiose, acabando por conseguir, tanto do FMI quanto do BID, votos de confiança e empréstimos, que, perante o mundo, passam a ser atestados de sanidade econômica.
Exatamente quando isso acontece, o profissional de comunicação faz ao presidente Battle perguntas que parecem resultar da conclusão de que ambos os países afundam-se no mesmo lodaçal. “Não nos compare com a Argentina, o Uruguai é um país diferente. Compare-nos com o Chile ou o Brasil, mas não com a Argentina”, pediu o presidente ao repórter. E acrescentou: “Os argentinos têm que entender que o idioma que falam não existe mais no mundo”.
É óbvio que a explosão de Battle criou uma crise diplomática entre o seu país e a Argentina. Com desculpas esfarrapadas, dizendo que falou pensando que não estava sendo gravado, o presidente do Uruguai foi a Buenos Aires pedir desculpas ao governo e ao povo argentinos. No dia seguinte, o presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Enrique Iglesias, declarou que “não há nenhum outro país latino-americano que corra perigo de cair em um estado de crise” semelhante ao da Argentina. Acrescentou que mesmo o Uruguai, único país a sentir a crise argentina, já está fora de perigo.
Este aval serve também para o Brasil, aliás já destacado pelo presidente uruguaio e que, a duras penas, conseguiu convencer o mercado internacional de que nossa capital não é Buenos Aires e, com políticas econômicas mais responsáveis, pudemos evitar a contaminação do desastre argentino. O episódio serve, para nós brasileiros e especialmente para nossos governantes, políticos e candidatos à Presidência da República, como lição. Não basta não ser uma Argentina. É preciso não parecer uma Argentina.


