Cafeicultura

Café no Paraná: como um plano busca reverter décadas de queda e ampliar produção até 2038

Fotografia em plano fechado (macro) de grãos de café cru e verde, exibindo suas texturas e colorações características antes da torra. Em primeiro plano, destacam-se com nitidez vários grãos de café descascados, com tons que variam entre o bege claro, o verde-oliva e o castanho-claro, mostrando a fenda central característica e a superfície levemente rugosa. No plano intermediário, outros grãos se amontoam ligeiramente desorganizados, sob uma iluminação suave e difusa que realça os detalhes de cada semente. Ao fundo, a profundidade de campo reduzida desfoca gradualmente os grãos mais distantes, criando um efeito visual concentrado na textura do café.
Cafeicultura busca recuperar espaço com uma estratégia voltada à qualidade. Foto: Arquivo/Lineu Filho/Tribuna do Paraná.

Até 2038, a área destinada ao cultivo de café no Paraná deve chegar a 38 mil hectares. A meta consta no Plano Estadual de Desenvolvimento da Cafeicultura, elaborado pela Câmara Setorial do Café e entregue ao governo estadual. A estratégia busca recuperar o espaço de uma cultura que perdeu participação na agricultura paranaense ao longo das últimas décadas.

Em vez de priorizar o volume de produção, a proposta aposta no fortalecimento dos cafés especiais de alta pontuação, na capacitação dos produtores e na assistência técnica contínua. O plano também prevê incentivar o protagonismo na gestão e na qualidade do produto, com o objetivo de aumentar a rentabilidade e aproximar as lavouras do mercado consumidor.

Nos séculos XIX e XX, o Paraná esteve entre os principais produtores de café do país, ao lado de Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro. No auge da atividade, na década de 1960, o estado chegou a ter 1,8 milhão de hectares cultivados. Atualmente, são 25 mil hectares dedicados à cultura, distribuídos por aproximadamente 180 municípios, segundo dados da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab).

A mudança no volume foi acentuada após a geada negra de 1975. Diante das perdas, os produtores passaram a rever o cultivo, enquanto outras culturas, como soja e milho, ganharam espaço por apresentarem menores custos de produção e maior liquidez no mercado futuro.

Apesar da redução da área plantada, o café ainda apresenta características que favorecem a rentabilidade dos produtores. Para o secretário de Estado da Agricultura e do Abastecimento, Natalino Avance de Souza, há uma perspectiva otimista para o setor com a criação de uma nova política pública voltada à cafeicultura.

“A cultura tem importância fundamental para o que chamamos de densidade de renda, especialmente quando falamos de um número expressivo de pequenas propriedades. O Paraná já não é mais um campeão em volume de produção, mas está muito bem posicionado em relação à qualidade do produto que oferece ao mercado”, explica.

Cadeia do café paranaense

Segundo dados da Seab, a produção paranaense está estimada em 715 mil sacas beneficiadas em 2026. Cerca de 80% das propriedades produtoras são da agricultura familiar. As regiões Norte e Norte Pioneiro concentram municípios com destaque no Valor Bruto da Produção (VBP) do café.

Na região de Maringá, o VBP da cultura praticamente dobrou em um ano, passando de R$ 32,6 milhões, em 2024, para R$ 64,3 milhões, em 2025, uma alta de 97%. No Norte Pioneiro, região de Santo Antônio da Platina, o indicador subiu de R$ 731,6 milhões para R$ 869,4 milhões no mesmo período, crescimento de 18,8%.

Segundo Walter Ferreira Lima, gerente da Câmara Setorial do Café do Paraná e presidente da Comissão Técnica de Cafeicultura do Sistema FAEP, uma das principais vantagens da cultura está na relação entre o valor gerado e a área necessária para o plantio.

Em média, um hectare de café equivale, em valor, a nove ou dez hectares de soja. A fruticultura pode alcançar uma rentabilidade ainda maior: um hectare de frutas pode corresponder ao valor de produção de 20 a 25 hectares de soja. O café, porém, tem outra vantagem em relação às frutas: pode ser armazenado e comercializado em diferentes momentos.

“Para o pequeno produtor, isso é importante porque ele consegue extrair um valor agregado maior de uma área menor. O café tem a vantagem de poder ser armazenado e comercializado em momentos diferentes. A fruta, por sua vez, precisa ser comercializada em um período mais limitado”, afirma o gerente da Câmara.

Impactos ao produtor

Na avaliação do produtor e engenheiro agrônomo Natan Carvalho, de Joaquim Távora, no Norte Pioneiro, a criação de um plano de incentivo à cafeicultura pode ajudar os produtores a ampliar a atividade sem comprometer o capital de giro.

Natan e a família cultivam café em uma propriedade de 22 hectares, na divisa entre Joaquim Távora e Siqueira Campos. No local, ele acompanha todas as etapas da produção, do plantio ao produto final destinado ao consumidor de cafés especiais. A família atua na atividade desde o início da década de 2010 e produz seis variedades de cafés especiais.

Café especial produzido na propriedade. Foto: Arquivo/Santa Ana Coffee.

A escolha pelo café foi motivada, principalmente, pela rentabilidade e pela possibilidade de manter uma margem de lucro mais segura. “Um café de boa qualidade, com poucos defeitos e bebida dura, quando é colhido com cuidado, pode alcançar cerca de R$ 1.500 por saca. Se o produtor fizer um manejo inadequado, na classificação e na prova da bebida, isso acaba pesando no preço. A perda pode chegar a R$ 200 ou R$ 300 por saca”, explica.

Alcançar um produto de maior qualidade, no entanto, exige investimentos em maquinário e mão de obra técnica. É nessa etapa que Natan vê espaço para os incentivos públicos, especialmente para os produtores que desejam expandir a produção.

“Não está fácil para nenhum produtor conseguir financiamento, seja para comprar uma pequena quantia de insumos, seja para adquirir terras ou um trator. Existe vontade de investir e ampliar a produção, mas, para isso, precisamos de condições melhores para a aquisição de terras, com juros menores, prazos mais longos e crédito efetivamente disponível”, afirma.

Políticas públicas para o setor

Segundo Walter Ferreira Lima, gerente da Câmara Setorial do Café, a elaboração de um plano de revitalização da cafeicultura estadual é discutida desde 2011. Na época, porém, a proposta de criação de uma política pública para o setor não avançou. O timing para um novo projeto é, na avaliação dele, essencial. 

“Chegamos ao fundo do poço em termos de área. Ao mesmo tempo, o mercado atual exige produtividade mais alta, e conseguimos reverter, nos últimos 15 anos, a percepção de que o café paranaense tinha qualidade inferior. Hoje, temos cafés de alta qualidade, com diferenciais importantes em relação aos produzidos em outras regiões do país”, aponta.

Para recuperar a relevância da cafeicultura no Paraná, o gerente defende a união de esforços entre os diferentes agentes da cadeia. O secretário Natalino Avance também destaca a possibilidade de ampliar a geração de empregos no setor. 

“A ideia é, primeiro, formar técnicos especialistas em café e, segundo, estudar a implantação de viveiros de mudas dentro dessas instituições, conduzidos pelas cooperativas de pais”, afirma o secretário.

A Seab também busca ampliar a oferta de mudas de qualidade para os produtores. “Com a redução da área plantada, houve também uma queda no interesse pela compra de mudas. Por isso, hoje temos poucos viveiros no estado que fornecem mudas de café de qualidade. Estamos buscando esse insumo em São Paulo e, principalmente, em Minas Gerais, onde há produção de café arábica”, explica.

Para Walter Ferreira, a implementação do plano deve ocorrer de forma gradual, com metas iniciais menores e expansão progressiva da atividade. “Se conseguirmos atingir nossos objetivos, teremos novamente uma cadeia viabilizada, com comercialização, assistência técnica, produtores preparados, produtividade e qualidade”, completa.

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