Enquanto os passageiros da Linha São Roque/Pinhais viajam em ônibus superlotados nos horários de pico, o novo Bonde Urbano Digital (BUD) passa a maior parte do dia parado no terminal. O veículo elétrico encerra nesta semana seu período de testes de seis meses, deixando um rastro de queixas de quem depende do transporte coletivo e esperava que a novidade, estreada em janeiro, aliviasse o sistema.
Desde o início da sua operação, o BUD realiza quatro viagens ao dia, cinco vezes na semana – exceto às segundas e sextas-feiras. As saídas acontecem às 10h15 e 14h15 do Terminal São Roque, em Piraquara. Em contrapartida, a Linha São Roque/Pinhais, gerenciada pela Agência de Assuntos Metropolitano do Paraná (AMEP), realiza em dias úteis 141 viagens por dia (somando ida e volta).
Para quem depende do ônibus e passa pelo terminal apenas nos horários de pico, a sensação é de que o BUD não está mais funcionando.
“Eu nunca vi ele saindo do terminal. Eu pego a Linha São Roque/Pinhais todos os dias, sempre às 5h40. Ele vai sempre lotado, na ida e na volta. Se o BUD operasse nesses horários de maior movimento seria muito melhor”.
Karina*, 28 anos, professora
A reportagem da Tribuna do Paraná esteve no Terminal São Roque e localizou um totem eletrônico que deveria exibir os dias e horários de partida do BUD para os usuários. O equipamento, no entanto, estava desligado.
Enquanto o usuário fica sem informação e o totem permanece apagado, os trajetos da Linha São Roque continuam lotados. Um ônibus da linha convencional tem capacidade de 80 a 120 passageiros, enquanto o BUD tem espaço para até 280 pessoas. O veículo elétrico é articulado, tem mais área interna e 30 metros de comprimento. O bonde de alta tecnologia faz parte de um contrato entre CRRC Nanjing Puzhen CO. LTD e a Global Ace Participações e Investimentos LTDA a um valor de R$ 6 milhões por um prazo de 15 meses.
Ana Carolina* é moradora em Pinhais e precisa se deslocar todos os dias até Piraquara para deixar a filha na escola. Como motorista de aplicativo, ela acredita que a operação do novo bonde poderia melhorar a mobilidade de toda a região.
“Fizeram tanta festa para inaugurar. Mudaram o terminal, mudaram os pontos de ônibus de lugar. Tudo para a chegada desse BUD. No fim, nunca vi ele funcionar”
Ana carolina*, 37 anos, motorista de aplicativo
Para poder abrigar o novo veículo, o Terminal São Roque, em Piraquara, passou por obras ao longo do segundo semestre de 2025. O espaço passou a funcionar como uma oficina de manutenção e base de carregamento do BUD, que é 100% elétrico.
Em paralelo com as obras da garagem do BUD, uma das salas do terminal foi adaptada para servir como Centro e Controle Operacional (CCO) do veículo. Ímãs foram instalados na pista do terminal e também no asfalto da Rodovia Deputado João Leopoldo Jacomel, para a tecnologia de condução autônoma do veículo.
Os terminais de ônibus também passaram por adaptações e o pavimento da Avenida Ayrton Senna da Silva, em Pinhais, passou por melhorias para que o BUD possa chegar até o terminal sem dificuldades.
BUD faz testes com sacos de areia
Recentemente, o BUD passou por testes de carga nos quais foram utilizados 18 toneladas de sacos de areia no interior do veículo. O objetivo era avaliar o comportamento do sistema de frenagem, torque e estabilidade nas curvas, checando se as especificações de fábrica batiam com a realidade das ruas. O material hoje se encontra empilhado em sem uso no terminal de Piraquara.
Para poder conduzir o gigante elétrico, apenas três motoristas da viação Expresso Azul estão habilitados e passaram por treinamento específico.
Lentidão e a manobra da marcha ré
Embora o BUD tenha a vantagem teórica de realizar a viagem expressa entre os terminais — sem as paradas consecutivas da linha convencional —, na prática o trajeto do veículo elétrico é mais lento. O motivo é o limite de velocidade: por segurança, o bonde trafega a no máximo 30 km/h.
Além da lentidão na pista, a engenharia do veículo impõe um problema de manobra para os horários de maior movimento. O BUD não faz marcha à ré.
“Para realizar uma manobra no terminal, o condutor precisa sair da cabine e ir até a outra ponta, caminhando os 30 metros de comprimento do bonde. Tudo isso demanda tempo.”
operador do terminal*
Todo esse processo é demorado e, se fosse executado nos horários de pico, travaria a circulação das dezenas de ônibus convencionais que entram e saem das plataformas a cada minuto. Essa limitação ajuda a explicar por que o veículo elétrico de alta capacidade é confinado aos horários de calmaria.
*Os usuários e técnicos que deram entrevista para a Tribuna do Paraná não quiseram divulgar seus nomes completos.
AMEP ainda avalia renovação de contrato
Em nota enviada para a reportagem da Tribuna do Paraná, a Agência de Assuntos Metropolitano do Paraná (AMEP) disse que está avaliando se vai renovar o contrato do Bonde Urbano Digital. Segundo a agência, o contrato ainda prevê três meses adicionais [após o período de seis meses de testes] para a tomada de decisão.
Sobre a possibilidade de fazer com que BUD opere em mais horários durante a semana, especialmente em períodos de maior movimento, a AMEP explica que o Bonde ainda é um sistema em teste. “As operações fora do horário de pico buscam trazer menos conflito com a operação dos ônibus no local”.
A AMEP explicou que o BUD passou por testes recentes, que avaliam as condições do veículo transportando a capacidade máxima prevista pelo fabricante. Os resultados ainda estão sendo tratados pela empresa responsável.
A aquisição dos sacos de areia estavam previstos dentro do contrato com a empresa responsável pelos testes. A agência reforçou que é a empresa a responsável pela destinação do material.
