As mulheres brasileiras vivem mais que os homens, estudam mais e cada vez mais, disputam o mercado de trabalho com eles. Mas todos esses dados positivos não conseguiram ainda vencer as restrições culturais que as fazem ganhar salários inferiores, tenham pouco acesso a cargos de poder e ainda precisem enfrentar a violência doméstica.

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Quanto mais estudo, dinheiro e bom atendimento em saúde tem a mãe, melhor a situação dos filhos. O impacto da situação materna tem reflexo direto na vida dos bebês e é por isso que o relatório Situação Mundial da Infância, preparado pelo Unicef neste ano, se concentra nas mulheres e na chamada igualdade de gênero.

?Nós temos uma cultura machista. Ela é persistente e explica, por exemplo, as diferenças no mercado de trabalho?, afirma a ministra Nilcéa Freire, da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres. ?Quanto maior a escolaridade, maior é a diferença salarial entre homens e mulheres. Isso só pode ser explicado por discriminação e preconceito.?

O relatório do Unicef cita o Brasil como um dos poucos países onde as mulheres chegam a ganhar mais do que os homens, na faixa etária até 25 anos. Mas, na realidade, é apenas nessa etapa. Na média, as mulheres ganham 71,2% do salário dos homens em posições iguais, apesar de estudarem mais.

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A remuneração menor das mulheres, de acordo com o Unicef, tem reflexo direto na vida das crianças. Estudos feitos em vários países mostram que as mulheres gastam a maior parte de seus salários complementando a alimentação da família. Já para os homens, esse gasto é menos de um terço dos seus rendimentos. Quando as mulheres passam a gastar mais, investem boa parte nos filhos. Quando os homens ganham mais, em média, não há diferença para as crianças.

O cenário político é um exemplo fácil da dificuldade que as mulheres brasileiras têm de assumir espaços de poder no País. Hoje, apenas 9% dos parlamentares eleitos são mulheres, apesar dos partidos serem obrigados a ter pelo menos 30% de mulheres na sua lista de candidatos. Nas últimas eleições foram eleitas apenas três governadoras entre 27 Estados e quatro senadoras entre 81 cadeiras no Senado. ?Não é por falta de candidatas qualificadas. Precisamos trabalhar a cidadania das mulheres?, diz Marie-Pierre Poitier, coordenadora do Unicef no Brasil.

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Mas, se os problemas culturais são entraves sérios no Brasil, há problemas com as políticas públicas também. Faltam, por exemplo, creches para que mães que precisam trabalhar o dia inteiro possam colocar seus filhos. Hoje, apenas 13% das crianças de 0 a 3 anos estão na educação infantil no Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2004, os mais recentes.

O atendimento pré-natal é outro ponto em que o Brasil ainda falha, apesar dos dados do Ministério da Saúde apontarem para um atendimento de 97% das mulheres. No entanto, 52% não fazem os seis exames pré-natais apontados como essenciais para os cuidados da mulher. No Norte, esse índice chega a 74% e no Nordeste, a 66,7%. Marie-Pierre alerta que 64% das crianças que morrem no primeiro ano de vida, morrem no primeiro mês. E 52% dessas morrem na primeira semana. ?Um bom acompanhamento pré-natal pode diminuir em muito essas mortes?, diz.