Brasília – O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Edson Vidigal, disse ontem, na Base Aérea de Brasília, que não ajuda em nada voltar a mexer nas “fissuras” ocorridas no período militar. Indagado sobre a polêmica envolvendo fotos que mostrariam o jornalista Vladimir Herzog na prisão, Vidigal disse que o caso já foi sepultado e que é preciso esquecer episódios como esse, já que a Lei da Anistia serviu para todos.

“Anistia é esquecimento. Não ajuda em nada, agora, mexer nessas fissuras. Essa história já foi sepultada. O povo foi às ruas, lutou pela anistia, pelo retorno dos brasileiros no exílio. A lei valeu para todo mundo”, disse ele.

Ontem, o ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, voltou a afirmar que confia na informação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), de que as fotos publicadas no último domingo pela imprensa não são do jornalista Vladimir Herzog, morto no DOI-Codi de São Paulo, em 1975.

Ele contestou o perito Ricardo Molina, do Instituto de Pesquisa do Som, Imagem e Texto, de Campinas e da Unicamp, que contestou as conclusões da Abin. Molina produziu um parecer sobre as fotos a pedido de um cliente, que prefere preservar. Sua analíse indica que em pelo menos duas delas, as imagens são mesmo do jornalista, morto no Doi-Codi em outubro de 1974. Molina diz que, para ele, “será uma grande surpresa” se pelo menos essas fotografias não forem de Herzog.

Em uma das três fotos, ao lado do preso nu aparece uma mulher, que se chamaria Terezinha, em gesto de aparente desespero e com as mãos abertas. Conforme versão sustentada na época por fontes da igreja, a cena seria uma armação, simulando um flagrante de ato sexual entre os dois, para desmoralizar o religioso por causa de sua militância de esquerda. Na versão da Abin as fotos seriam do padre canadense Léopold D?Astous, que foi pároco durante 31 anos na Igreja de São José Operário, em Brasília. Investigado por envolvimento com grupos de esquerda, ele foi fotografado pelo Serviço Nacional de Informação (SNI), em 1974, um ano antes da morte de Herzog. Léopold ficou na paróquia até 1997, quando se aposentou e voltou para Rimouski, no Canadá.

O caso Herzog voltou a ser discutido depois que o jornal Correio Braziliense publicou, no dia 17 deste mês, fotos que mostrariam o jornalista sendo humilhado na carceragem do DOI-Codi de São Paulo, antes de ser assassinado, em outubro de 1975.