João de Noronha / GPP
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Severino: chamando a
população para ir às ruas. 

Recife – Dois dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fazer uma defesa contundente da reforma sindical, apresentada por meio da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 369, o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE), convocou ontem a sociedade a mobilizar-se contra a mudança.

"Como presidente da Câmara dos Deputados, não tive outra alternativa (sic), a não ser receber o projeto do governo, mas nunca vi tanta divergência como tenho encontrado nesta reforma, que não me parece representar o anseio dos trabalhadores brasileiros", disse ontem, no Recife, em discurso durante almoço-homenagem de federações e sindicatos de trabalhadores de vários segmentos e estados brasileiros, em que a reforma sindical proposta pelo governo foi considerada "maléfica", "um embuste" e promotora do enfraquecimento do sindicalismo.

"Precisamos irmanar-nos, tomar uma posição; no silêncio, ninguém consegue nada", disse. "Vamos entrar nessa luta." Antes do discurso, ele havia convocado a população a ir às ruas contra a alta taxa dos juros para sensibilizar o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, "que não está defendendo muito os desejos da população e dos micro e pequenos empresários, que estão sendo sufocados por essas altas taxas de juros".

"Não tenho a menor dúvida de que o que a população precisa é mostrar o seu peso, como foi feito com a 232 (MP que propunha aumento de impostos e que foi derrotada diante da mobilização da população)", pregou.

Depois, ele aliviou o discurso, dizendo não ter fechado questão sobre a reforma sindical, mas voltou a assegurar a independência, mesmo integrando a base aliada do governo federal. "O presidente sabe da minha posição, não sou subordinado do Palácio, tenho autonomia suficiente para defender o povo brasileiro e apoiarei naquilo que for de encontro aos anseios da população", disse. "Se Lula acertar, estaremos com ele; se não acertar, estaremos contra."

Ele reiterou que, em breve, põe em pauta de votação a reforma tributária. "O governo federal não pode continuar com essa discriminação", avaliou. "A União recebe todos os impostos, tem todas as facilidades, enquanto os governos estaduais e prefeituras passam por sérias dificuldades."

Severino voltou a gabar-se de que, sob a presidência dele, a Câmara dos Deputados é uma nova Casa, sintonizada com a sociedade e em que os parlamentares têm peso igual. "Essa história de baixo clero não existe mais, todos são iguais", afirmou.

O presidente da Federação dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário de Goiás e Tocantins, Jaime Bueno de Aguiar, fez um discurso ácido, na homenagem a Severino, contra a proposta de reforma sindical do governo federal: "Com essa reforma, o Brasil prepara terreno para receber o capital internacional com mão-de-obra espoliada".