Apesar do perigo de contrair o novo coronavírus, ficar em casa não é uma opção para os catadores de recicláveis que vivem na Vila Torres, na periferia de Curitiba. São cerca de 1.200 famílias que moram no bairro e dependem do dinheiro que vem do lixo.

A atividade tem alto risco de contágio, já que os catadores ficam em contato com diversos tipos de materiais recolhidos diariamente, como papelão, plástico e alumínio. Estudos apontam que o vírus pode sobreviver em superfícies como essas por até três dias.

Sem equipamentos de proteção, os trabalhadores se viram como pode, lavando as mãos mais vezes ao dia e tomando banho logo que chegam em casa. “A gente arrisca, porque, se não arriscar, a necessidade fica grande”, diz Edson de Oliveira Gonçalves, 48.

Com o filho, ele percorre cerca de 40 km por dia atrás de materiais, cada vez mais escassos. Muito são recolhidos em comércios, em grande parte fechados para evitar aglomerações. A renda, que no caso de Edson chegava a R$ 400 por semana, caiu pela metade. A reciclagem é a única forma de sustento da família de quatro pessoas.

Já Marcelo Pereira dos Santos, 38, acredita que quando recolhe o material já se passou tempo suficiente para que o vírus disperse da superfície. Mesmo assim, ele tem tomado alguns cuidados a mais na coleta.

“Jogo produto de limpeza na mão, tenho cuidado para não passar na boca. Todo mundo cuida. Mais fácil uma pessoa que fica dentro de casa não se cuidar do que um catador de papel”, afirma Marcelo, que divide a moradia com esposa e neta.

Com duas filhas pequenas em casa, sem aula por conta da suspensão das atividades escolares, Jhonatan Sampaio também não deixou de sair em busca dos recicláveis. Mais equipado que os colegas, ele tem uma caminhonete para carregar o material, mas relata que, além de encontrar, está mais difícil vender o produto, já que muitos barracões de estocagem fecharam.

“E quem está comprando está pagando muito pouco, o preço [do quilo] da latinha era três reais, agora é um”, acrescenta.

Nenhum dos três catadores sabe se terá acesso à verba emergencial de R$ 600 a R$ 1.200 oferecida pelo governo federal para trabalhadores informais diante da crise, já que não fazem parte do Cadastro Único nem recebem o Bolsa Família.

“Só acompanho pela televisão, eu não tenho cadastro, faz mais de seis anos que não trabalho registrado. Como vão saber que existo?”, questiona Sampaio.

Uma equipe de voluntários começou na última semana a auxiliar os moradores a solicitar a ajuda emergencial do governo, já que muitos não sabem ler ou não possuem acesso à internet.

Em parceria com outras entidades, a associação de moradores da Vila Torres está arrecadando produtos de higiene e limpeza, além de já ter coletado cerca de 6.500 cestas básicas de uma meta de 10 mil, o que deve ajudar as famílias por dois meses. Um sistema drive thru foi montado na entrada da comunidade para que as doações sejam recebidas sem a necessidade de contato físico.

“As pessoas choram, o pessoal está desesperado, não tem o que comer”, relata o presidente da associação, Valdomiro Tanaka.

Mesmo entre os moradores que já recebem algum auxílio, como a idosa Leda Maria Carneiro, de 62 anos, a renda baixou. Para complementar o Bolsa Família, ela trabalhava de diarista e vendia roupas em um brechó improvisado, mas as atividades pararam com a chegada do vírus.

Com medo do risco de complicações pela doença, Leda tenta respeitar a recomendação de isolamento social, apesar de morar em um pequeno espaço, dividido apenas por uma parede de onde ficam a filha, dois netos, e o genro, que trabalha como entregador.

“Entro no Youtube, assisto exercícios e faço lá dentro, para não sair por aí. Espero que todo mundo faça também para diminuir esse negócio [o contágio]”, diz a idosa, enquanto conversa com a vizinha na calçada de casa, para “pegar um ar”.

O vaivém de catadores ajuda a acrescentar ares de normalidade ao bairro, que convive com as portas dos comércios abertas, crianças brincando pela rua, e moradores circulando normalmente, a maioria sem qualquer tipo de proteção, como máscaras ou luvas.

Para o aposentado Rosário Soares da Silva, 82, os vizinhos não estão preocupados com a disseminação do novo coronavírus. Do portão de casa, onde vive sozinho, ele conta que teve que chamar a polícia para conter jovens que se reuniam para ouvir música alta. “O povo tira sarro, não está levando à sério”, diz Silva, que depende do filho para realizar compras básicas.

Apesar de grande parte do comércio da Vila Torres permanecer aberto, o faturamento também baixou. Dono de uma lan house, Sandro da Silva colocou uma faixa de proteção no estabelecimento e só deixa entrar um cliente por vez, mas a receita caiu pela metade.

“Tem gente com receio de ficar aqui com mais gente, então não tem mais ninguém para jogar no computador. Como não pode ficar aqui dentro, a pessoa vem fazer a necessidade mesmo e vai embora. Se pudesse ficar livre, poderia vir e ver outra coisa [para comprar]”, explica.

O comerciante José Cordeiro de Siqueira sentiu menos a queda no movimento. A mudança, segundo ele, está na lista de compras do mercadinho. “O que vendo aqui é só cachaça. Mas tem o lado bom, porque quem comprava de mim está recebendo cesta básica e não posso ter orgulho bobo, porque tem algo bom acontecendo [com a crise]”, diz.