Santa Catarina é o estado brasileiro mais exposto a desastres naturais extremos, com 41% de todos os alertas emitidos pela Defesa Civil nacional. Enquanto o restante do país inicia o outono atento à chegada do inverno, os catarinenses voltam os olhos para a possível formação do El Niño, com previsão de chuvas intensas a partir da primavera. Mas afinal, por que tantos eventos climáticos se concentram em Santa Catarina?
A resposta começa na geografia. Localizado em latitudes médias, o estado está sob influência constante de massas de ar com características opostas. De um lado, correntes frias vindas do sul; de outro, massas quentes oriundas da Amazônia e do Centro-Oeste. Esse encontro cria um ambiente propício a extremos.
“São comuns tanto ondas de calor, que provocam tempestades com chuvas torrenciais, quanto ondas de frio, com geadas e até neve”, afirma Maria Laura Rodrigues, meteorologista e coordenadora da área na Epagri/Ciram.
Segundo a meteorologista, quando essas massas de ar colidem, a atmosfera se torna altamente instável. “O ar quente é forçado a subir rapidamente, formando nuvens carregadas e tempestades severas que produzem chuvas torrenciais, alagamentos urbanos, enxurradas, vendavais, raios, granizo e, em casos extremos, microexplosões e tornados. Mas o choque de massas de ar é apenas o começo”, explica.
O relevo catarinense ainda amplifica os efeitos, aumentando o risco de desastres climáticos. Rodrigues explica que as serras próximas ao litoral forçam a elevação do ar, gerando nevoeiros e chuvas orográficas. Os vales retêm calor e umidade, enquanto planaltos e encostas criam microclimas onde a temperatura pode variar significativamente em poucos quilômetros.
Além disso, a faixa do oceano Atlântico entre Santa Catarina e a bacia do Prata é uma das regiões do planeta com maior formação de ciclones extratropicais — tanto em frequência quanto em intensidade. Em média, são cerca de 40 ciclones por ano na costa Sul do Brasil. “Esses sistemas podem provocar ventos acima de 100 km/h, tanto no litoral quanto no interior. Essa combinação faz de Santa Catarina uma das regiões com maior diversidade de eventos climáticos adversos”, resume a meteorologista. Confira os números do sistema de alertas catarinenses.
- 41% dos alertas da Defesa Civil nacional são emitidos para SC.
- 3.912 alertas por SMS emitidos entre 2025 e 2026.
- 489 alertas pelo Defesa Civil Alerta (Cell Broadcast) no mesmo período.
- 6 alertas de nível extremo — risco iminente à vida.
- 95 milhões de mensagens SMS disparadas em 2024.
- 10,51% da população de SC cadastrada no SMS — 1º lugar no Brasil.
- Serviço: Para receber os alertas, envie seu CEP por SMS para o número 40199 — gratuito e funciona sem internet.
Estado tem histórico de desastres naturais
A combinação entre a geografia e o clima para a formação da “tempestade perfeita” já deixou marcas profundas em Santa Catarina. Em 1974, a enchente de Tubarão entrou para a história. Após 30 anos, o furacão Catarina — o primeiro registrado no Atlântico Sul — atingiu o estado com ventos de até 180 km/h e danificou 36% das edificações na região sul.
Em 2008, as enchentes e deslizamentos no Vale do Itajaí causaram R$ 6,3 bilhões em prejuízos e entraram na lista das maiores tragédias climáticas do país. Mais recentemente, em outubro e novembro de 2023, eventos severos colocaram mais da metade dos municípios em situação de emergência. Os números dimensionam o impacto: entre 1991 e 2019, foram 5.540 desastres registrados, com prejuízos acumulados de R$ 25,71 bilhões e 11,76 milhões de pessoas afetadas.
Na média, o estado perde R$ 1 bilhão por ano com desastres naturais — e mais de 400 mil pessoas são atingidas anualmente. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, o cenário tende a se intensificar nos próximos anos. A temperatura próxima à superfície do planeta vem aumentando cerca de 0,15°C por década e, segundo o órgão da ONU, o aquecimento tem efeito direto sobre o comportamento do clima.
“Quando houve um aquecimento mais significativo no Atlântico, observamos uma tendência no aumento da intensidade e da frequência de eventos extremos em Santa Catarina. Além disso, uma atmosfera mais quente tende a deixar os sistemas mais intensos, e as chuvas passam a ocorrer de forma concentrada no tempo e no espaço. Com isso, em algumas épocas do ano, o risco de estiagem também pode aumentar”, alerta Rodrigues.
Santa Catarina lidera adesão aos alertas climáticos
Santa Catarina lidera o país na adesão ao sistema de SMS da Defesa Civil: 10,51% da população está cadastrada — mais que o dobro da média nacional. O sistema opera em duas frentes. A primeira é preventiva, com avisos emitidos com até 72 horas de antecedência. Quando há risco elevado, equipes são mobilizadas e mensagens são enviadas pelo número 40199 — mesmo sem internet.
A segunda atua em tempo real. Por meio da tecnologia Cell Broadcast, alertas sonoros e visuais chegam automaticamente a celulares conectados a redes 4G e 5G, sem necessidade de cadastro.
Entre 2025 e 2026, foram emitidos 3.912 alertas por SMS e 489 via Cell Broadcast — a maioria relacionada a tempestades intensas. Uma pesquisa da UFSC mostra que 94,93% dos entrevistados querem receber alertas, e quase 70% compartilham as informações com outras pessoas sobre os riscos de desastres naturais.
Santa Catarina amplia monitoramento e infraestrutura para contenção
Diante desse cenário, o estado de Santa Catarina ampliou a estrutura de prevenção e resposta aos desastres naturais. A Defesa Civil opera 24 horas por dia a partir do Centro Integrado de Gerenciamento de Riscos e Desastres (Cigerd), em Florianópolis, conectado a 21 coordenadorias regionais e aos 295 municípios catarinenses.
A equipe inclui meteorologistas, hidrólogos e geólogos em monitoramento contínuo. A rede conta com quatro radares meteorológicos — em Lontras, Chapecó, Araranguá e Joinville — garantindo cobertura total do território em tempo real. Já as estações hidrometeorológicas passaram de 42 para 172 unidades, com atualização a cada 15 segundos e transmissão redundante.
Os investimentos também avançaram na infraestrutura. Apenas no Alto Vale do Itajaí, foram mais de R$ 485 milhões desde 2023, incluindo obras em barragens e melhorias em rios. As estruturas de Taió, Ituporanga e José Boiteux somam capacidade de 533 milhões de metros cúbicos de contenção.
Segundo o governo catarinense, a resposta aos eventos climáticos também foi reforçada. Desde 2023, mais de R$ 40 milhões foram aplicados em assistência humanitária, com distribuição de itens essenciais. O estado mantém estoques regionais e já entregou 196 kits de pontes para áreas isoladas.
