Lula com FHC: petista foi conversar
sobre o orçamento de 2003.

Brasília

– O perfil de negociador do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva vai ser posto à prova dentro de casa. Ele terá que dobrar o próprio partido se resistir mesmo ao reajuste do salário mínimo para, pelo menos, R$ 240 no ano que vem. Mais da metade da futura bancada do PT, a maior da Câmara, com 91 cadeiras, já reivindica a adoção desse reajuste, uma das principais bandeiras do partido até agora.

O reajuste do salário mínimo está se transformando em um dos primeiros desafios de Lula. Em enquete feita pelo jornal O Globo, 48 deputados recém-eleitos defenderam o aumento de 20% para o salário mínimo a partir de maio. O resultado é mais expressivo se comparado ao universo da enquete: o questionário formulado foi encaminhado a 77 dos 91 deputados eleitos e 63 responderam. Destes, a maioria esmagadora – 76,19% – disse ser favorável ao reajuste para R$ 240.

Apenas sete deputados se manifestaram contrários ao índice de reajuste de 20%, R$ 40 a mais do que os atuais R$ 200. Outros oito se confessaram indecisos ou se abstiveram de opinar. Os defensores do salário mínimo de R$ 240 tomam o cuidado de frisar que respeitarão a decisão da bancada na hora de discutir o tema. Mal sabem que já são maioria. A menos que os líderes petistas sejam convincentes, a decisão já foi tomada.

Quarta-feira, durante reunião entre a atual bancada e a eleita para o ano que vem, o presidente do PT, deputado José Dirceu (SP), recomendou que os parlamentares não tornassem públicas suas opiniões sobre o salário mínimo antes de dezembro. Sem ignorar que o próprio PT apresentara a proposta do mínimo de R$ 240 durante a tramitação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), Dirceu alegou que o reajuste tinha sido proposto num outro cenário econômico. E argumentou que o compromisso do governo Lula é o de dobrar o poder de compra do salário mínimo em quatro anos. Não com o mínimo que vigorará em 2003.

Apesar de o PT pedir sigilo sobre o assunto, deputados petistas não evitaram o assunto. Como Tarcísio Zimmermann (RS), que prometeu defender um salário mínimo ainda maior. Segundo ele, tudo dependerá da inflação até lá. “Hoje, um mínimo de R$ 240 é razoável. Mas talvez seja necessário rever esse valor, para mais, à época do reajuste”, disse Zimmermann.

Se o aumento fosse hoje, o novo valor do mínimo não seria mais os R$ 211 previstos na proposta enviada pelo governo em agosto. Mas de R$ 217. Até abril, este valor pode estar maior. Além disso, cobram os deputados, o reajuste do mínimo sempre foi uma bandeira do PT. E, no poder, deve honrar a palavra. “Se Lula fez campanha em junho dizendo que salário mínimo seria de R$ 240, vamos construir esse aumento”, diz Doutor Rosinha (PR). “Vou mais além. Defendo a tese de que o mínimo tenha dois reajustes por ano. Essa foi uma das bandeiras de Lula. Aumentar o poder de compra da classe mais baixa da população”, diz Orlando Desconzi (RS).