Brasília – Aos poucos, a sensação de ser governo, de ter de defender e apoiar todas as medidas do Palácio do Planalto, vai ficando para trás na Esplanada dos Ministérios e arredores. Os servidores públicos federais, boa parte fiel eleitora de Lula desde 1989, vai se sentindo à vontade e com motivos para reclamar. No Banco Central e na Receita Federal, motivos não faltam. No BC só o presidente mudou. Até a diretora de Fiscalização, Tereza Grossi, alvo de várias críticas de parlamentares petistas, continua no cargo. Da Receita Federal, saiu Everardo Maciel, mas os outros ficaram. Jorge Rachid, atual secretário, era adjunto de Everardo.

Pior para o governo é constatar que a mudança de postura não se restringe a algumas autarquias. A Reforma da Previdência, que deve acabar com a aposentadoria integral do funcionalismo, tira o sono de muita gente. Para completar, a notícia de que nem o reajuste de 4% previsto no Orçamento aprovado pelo Congresso deve ser cumprido. Fala-se em 2,5%. Os sindicatos dos servidores começam a se mobilizar. Querem, pelo menos, 27,5%.

Tudo isso sem falar em medidas que atingem a todos, como alta de juros, corte no orçamento e defesa do aumento da meta de superávit primário, que engordam a lista de argumentos antiLula. Por essas e por outras, é cada vez mais comum ouvir pela Esplanada discursos mais alinhados ao da senadora petista Heloísa Helena (AL), que, para muitos, nem é mais tão radical assim.

Desde que não concordou com a indicação do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para o cargo, a senadora Heloísa Helena (AL) se tornou uma dor de cabeça para o PT governo. Agora, a alagoana quer unir o partido contra as propostas apresentadas pela equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sobretudo no que diz respeito à área econômica. Heloísa Helena promete lutar contra o projeto que prevê a autonomia do Banco Central, a flexibilização das leis trabalhistas e a Reforma da Previdência, se a proposta apresentada for contrária ao discurso do PT.

“Seria estranho ficarmos omissos em relação às decisões que estão sendo tomadas. Nós nos colocamos na campanha como uma alternativa concreta e eficaz ao governo Fernando Henrique”. Segundo a senadora, antes desses projetos, é preciso realizar a Reforma Tributária para dinamizar a economia, gerar emprego e renda e reduzir o impacto da previdência nos cofres públicos.

Ela cobrou ainda um debate sobre a elevação dos juros básicos da economia e a possibilidade de aumento da meta de superávit primário.

Ontem, a bancada do PT esteve reunida no Congresso com o ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Críticas à parte, o presidente da legenda, José Genoino, disse que o partido ficará unido. Antes de entrar na reunião, ele disse que o PT “é 100% governo e 100% autônomo” ao mesmo tempo.