PT e PTB caminham para ruptura nacional

Rio e São Paulo (AG) – Adversários nas últimas duas décadas, PT e PTB uniram-se pela primeira vez na disputa eleitoral deste ano. O convívio, antes restrito a gabinetes de Brasília, estendeu-se às ruas. As bandeiras vermelhas petistas dividiram civilizadamente espaço com os símbolos do trabalhismo. Terminada a eleição, no entanto, o divórcio parece iminente.

Nesse casamento, os noivos não tiveram escolha. O acerto foi selado em reuniões no Palácio do Planalto entre o ministro José Dirceu e o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson. Seria parte de um projeto de crescimento do PTB como braço auxiliar do governo Lula. O PTB realmente aumentou o número de prefeituras e representantes em câmaras de vereadores. Já o PT encolheu em cidades como Rio e São Paulo.

No Rio, o PT perdeu duas das cinco cadeiras que ocupava na Câmara. Os votos do partido contribuíram para dar ao PTB uma vaga além das duas conquistadas em 2000. “Essa aliança com o PTB nos foi empurrada goela abaixo pela direção nacional do PT. Nossa bancada diminuiu e o primeiro suplente também é do PTB”, reclama o vereador petista reeleito Eliomar Coelho.

Em São Paulo, a bancada petista caiu de 18 para 13 vereadores. A do PTB passou de quatro para sete representantes. Lá, os petistas não têm dúvidas de que o fim da aliança tem data marcada, caso o candidato tucano José Serra vença a prefeita Marta Suplicy no segundo turno da disputa pela prefeitura. Com o PSDB, o PTB repetiria a parceria de seus deputados estaduais com o governo Geraldo Alckmin na Assembléia Legislativa.

“Não seria estranho o PTB apoiar Serra se ele for eleito. Afinal, a direção estadual deles queria estar com a gente no primeiro turno. Só que a direção nacional decidiu pela Marta”, lembra José Aníbal, vereador eleito do PSDB.

No início da campanha, o destino do PTB era incerto em São Paulo, onde era cobiçado, e decidido no Rio, ao lado do PFL. Até a intervenção de Roberto Jefferson.

A luta para consolidar a aliança com o PT no Rio começou em casa para o presidente do PTB. Jefferson teve de convencer a filha, Cristiane Brasil, a deixar uma secretaria na administração do prefeito Cesar Maia, do PFL. Candidata a vereadora, Cristiane nem sequer conhecia o candidato do PT a prefeito, Jorge Bittar.

Petistas “desistem” do voto de legenda

Brasília (AG) – Para evitar dar votos aos petebistas, o PT deixou de pregar o voto na legenda, tradição no partido. Crítico severo do acordo desde o início, o deputado federal Chico Alencar lamentou o resultado das urnas. Lembrou que votos petistas ajudaram a eleger o vereador Carlos Bolsonaro, filho do deputado Jair Bolsonaro, um histórico inimigo do PT. Pai e filho já anunciaram a intenção de deixar o PTB.

“Os votos dos petistas em Eliomar Coelho foram convictos e preocupados, porque somaram para gente como Bolsonaro, de uma concepção radicalmente oposta à nossa. Nesses partidos, decisão vertical prospera. No PT, gera crise”, lamenta Chico.

Jefferson acredita que valeu a pena. Admite o desgaste, contudo, especialmente depois de denúncias de que o acordo com o PT não foi apenas político, mas financeiro. Ele nega, mas reconhece que o trabalho de reconstrução da imagem da legenda terá de recomeçar. Ainda assim, diz que a meta é receber do presidente Lula mais um ministério, de preferência mais expressivo que a pasta do Turismo, já em poder do PTB. Semana passada, Jefferson voltou ao Planalto. Conta que ouviu elogios do presidente: “A aliança foi correta e o sofrimento fecundo. O presidente disse para mim: ?Jefferson, você é uma pedreira. É o tipo de homem a quem posso dar um cheque em branco e ir dormir tranquilo.?” O vereador Edson Santos, reeleito pelo PT com 1,31% dos votos cariocas, concorda com Jefferson e aprova a aliança. Considera que foi importante para o projeto nacional do PT: “Não credito apenas à aliança o fato de o PT não eleger o mesmo número de veradores. O que se comprova nessa eleição é que onde o PT fez alianças mais amplas teve condições de disputar. Nova Iguaçu e Niterói são exemplos. Essa avaliação precisa ser desapaixonada”, analisa.

Em São Paulo, o presidente estadual do PTB, Campos Machado, era contrário à aliança, mas cedeu. Em 2000, ele fora o vice na chapa de Alckmin à prefeitura, derrotada pela prefeita Marta Suplicy. Líder do governo Alckmin na Assembléia, Campos Machado detém mais de mil cargos do governo do Estado, distribuídos para correligionários. Hoje, está satisfeito: “A forma como o PTB vai atuar será uma surpresa para o PT no ano que vem”, tem dito ele a amigos. Vereador com maior votação no PTB, Celso Jatene também já desdenha da aliança. “Eles (os petistas) esperavam que elegêssemos apenas dois ou três vereadores. Acontece que nós trabalhamos muito. Azar o deles”.

Além de ter menos vereadores em 2005, os petistas lamentam o fato de a coligação ter contribuído para deixar de fora dois de seus mais atuantes representantes, como Nabil Bonduk, arquiteto que se destacou como um dos mais combativos do PT, e Carlos Néder, primeiro colocado na lista da ONG Voto Consciente, que avalia o desempenho parlamentar.

“Esta derrota revela uma nítida e desastrada opção do comando da campanha de priorizar o voto de legenda e não diferenciar os vereadores do PT dos demais na coligação”, disse Néder.

Partido discute mudanças

Fortaleza (AG) – O resultado do isolamento da petista radical Luizianne Lins em Fortaleza, patrocinado pela direção nacional do PT no primeiro turno das eleições, reforçou uma estratégia traçada nos gabinetes do Palácio do Planalto desde a expulsão dos rebeldes em dezembro do ano passado: a necessidade de reagrupamento do PT para as eleições de 2006.

Desde a criação do PT, as tendências radicais de esquerda tiveram espaço para divergências internas, mas na hora das urnas o partido seguia unido. O que parece que poderá não ocorrer desta vez. Nos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva externou o desejo de ter o PT falando uma mesma língua ano que vem para chegar em 2006 pronto para enfrentar os adversários.

Lula avalia que os projetos mais polêmicos de seu governo já foram votados nos dois primeiros anos – como a reforma da Previdência – e acredita que agora será mais fácil promover o entendimento interno no PT. Inclusive com os mais radicais da Democracia Socialista, a DS.

No Palácio do Planalto, a percepção é de que a divisão do partido pode se transformar na grande dor de cabeça da disputa eleitoral de 2006. Por lá é lembrado como exemplo a divisão do PSDB em 2002, que prejudicou a candidatura presidencial de José Serra.

O PT e o presidente Lula decidiram aproveitar o segundo turno das eleições municipais para iniciar o processo de reunificação do partido. Depois dos equívocos cometidos na primeira fase da campanha, como o de Fortaleza, a direção nacional agora tenta uma reaproximação com as dissidências de esquerda. O partido já está programando uma reunião que acontecerá depois do segundo turno, para identificar os erros dessa campanha.

“Tudo o que está acontecendo será analisado. Depois das eleições, vamos fazer uma avaliação do que ocorreu para acertar os equívocos. O caso de Luizianne será simbólico. Mas é preciso fazer uma reflexão global. Acho que a direção nacional tinha que pedir desculpas a Luizianne, até porque tinha uma decisão municipal que não foi respeitada”, observa o prefeito reeleito de Aracaju, Marcelo Déda, do campo majoritário petista, a ala mais moderada.

O reconhecimento do erro ajudaria na unidade da legenda também em outros estados, como no Rio Grande do Sul, onde o partido disputa segundo turno em três cidades importantes: Porto Alegre, Pelotas e Caxias. Os candidatos municipais da ala radical do partido criticam a postura da direção nacional de privilegiar apenas candidatos do campo majoritário e ligados ao Palácio do Planalto.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias de Curitiba e região!
Seguir no Google
Voltar ao topo
O conteúdo do comentário é de responsabilidade do autor da mensagem. Ao comentar na Tribuna você aceita automaticamente as Política de Privacidade e Termos de Uso da Tribuna e da Plataforma Facebook. Os usuários também podem denunciar comentários que desrespeitem os termos de uso usando as ferramentas da plataforma Facebook.