A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) se retrataram publicamente por terem usado cadáveres de pessoas internadas em hospitais psiquiátricos em aulas de anatomia. As instituições reconheceram sua participação em um dos momentos mais sombrios da saúde pública brasileira, quando pacientes eram segregados e desumanizados. As informações são da Agência Brasil.

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O que motivou o pedido de desculpas das universidades?

As universidades reconheceram sua conivência com práticas que violaram a dignidade de pessoas internadas em manicômios. Entre 1962 e 1971, a UFJF recebeu 169 corpos do Hospital Colônia de Barbacena para aulas de anatomia. A UFMG também utilizou cadáveres de pacientes que faleceram no mesmo hospital. Essas pessoas eram tratadas como indigentes e seus corpos comercializados sem consentimento.

Quantas pessoas morreram no Hospital Colônia de Barbacena?

Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido no Hospital Colônia de Barbacena ao longo do século XX. Segundo o livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, 1.853 corpos de internos foram vendidos para instituições de ensino da área da saúde. Muitos pacientes eram classificados como indigentes e sofriam diversos tipos de violência e condições mínimas de sobrevivência.

Como as universidades pretendem reparar os danos causados?

A UFJF comprometeu-se a realizar ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental, criar um memorial e pesquisar documentos sobre suas conexões com o Hospital de Barbacena. A UFMG promete ações de memória com grupos da luta antimanicomial e inclusão do tema em disciplinas de anatomia. Ambas destacam que, desde 1999 e 2010 respectivamente, só recebem corpos de doações voluntárias.

O que era feito com os pacientes dos hospitais psiquiátricos?

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Pessoas consideradas fora do padrão social eram internadas em manicômios e submetidas a isolamento, condições precárias e práticas punitivas. A segregação era justificada como medida de segurança coletiva, mas resultava em desumanização. Critérios como gênero, classe social, orientação sexual e raça eram usados para hierarquizar e marginalizar essas pessoas, consolidando estigmas e discriminação.

Existem referências culturais sobre o tema?

O conto O Alienista, de Machado de Assis, é uma das obras mais famosas sobre o tema. A psiquiatra Nise da Silveira revolucionou o tratamento de transtornos mentais ao aliar cuidados humanizados e arte, trabalho que pode ser conhecido no Museu Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. O livro Holocausto Brasileiro documenta as atrocidades cometidas no Hospital Colônia de Barbacena.

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