Enquanto boa parte do mundo celebra o amor em 14 de fevereiro, o Brasil troca declarações, flores e chocolates no dia 12 de junho. A diferença não é casual — e envolve religião, marketing e contexto histórico.
A tradição internacional do Valentine’s Day, comemorado em 14 de fevereiro, está enraizada na história de São Valentim, um sacerdote que, conforme a tradição, realizava casamentos secretos durante o Império Romano, quando o imperador proibiu uniões formais entre jovens soldados para mantê-los focados nas batalhas.
Com o passar dos séculos, esta figura religiosa foi incorporada ao calendário cristão e a celebração ganhou contornos românticos, especialmente a partir da Idade Média europeia. Já no século XIX, a troca de cartões e presentes era tradição consolidada em países de língua inglesa, firmando o 14 de fevereiro como a principal data mundial dedicada aos namorados.
No Brasil, porém, a história seguiu outro caminho — e é bem mais recente.
O Dia dos Namorados brasileiro, celebrado em 12 de junho, foi estrategicamente criado em 1949 pelo publicitário João Doria (pai do ex-governador de São Paulo). A iniciativa surgiu a pedido de comerciantes que buscavam aquecer as vendas no mês de junho, tradicionalmente fraco para o varejo após o movimento do Dia das Mães em maio.
A escolha da data não foi aleatória: posicionada na véspera do dia de Santo Antônio (13 de junho), aproveitou a popularidade do “santo casamenteiro” na cultura brasileira, especialmente durante o período das festas juninas. A associação religiosa já existente facilitou a aceitação popular da nova data comercial.
A estratégia de marketing foi certeira: campanhas publicitárias incentivavam a troca de presentes como demonstração de amor, e a data rapidamente se consolidou no calendário comercial e cultural brasileiro.
Diferentemente do Valentine’s Day, que tem origem religiosa antiga e evolução histórica gradual através dos séculos, o Dia dos Namorados brasileiro nasceu como estratégia comercial planejada — embora tenha incorporado elementos religiosos pela proximidade simbólica com Santo Antônio, criando uma conexão cultural autêntica.
Hoje, a data representa um dos períodos mais importantes para o comércio brasileiro, ao lado do Natal e do Dia das Mães, movimentando setores como floriculturas, restaurantes, lojas de moda, perfumarias e eletrônicos.
A não adoção do 14 de fevereiro pelo Brasil pode ser explicada por pelo menos dois fatores principais. Primeiro, o calendário: fevereiro coincide com as férias escolares e, frequentemente, com o Carnaval, o que poderia diluir o impacto comercial da data. Segundo, a identidade cultural: a consolidação do 12 de junho criou uma tradição local forte, tornando desnecessária a adaptação ao padrão internacional.
Enquanto o mundo celebra o amor inspirado na tradição secular de São Valentim, o Brasil comemora em junho por uma combinação de marketing bem-sucedido e conexão simbólica com Santo Antônio. Duas histórias diferentes para o mesmo objetivo: celebrar o romance.
Independentemente da data escolhida, o amor segue sendo o protagonista — seja em fevereiro ou em junho.
